• sábado, 23 de agosto de 2014 16:11

    O leite nosso de cada dia

    O leite, vindo diretamente da vaca, foi uma das experiências bonitas dos meus tempos de guri. Após tirar o leite diretamente das fartas tetas da vaquinha, era só colocar um pouco de canela em pó e saboreá-lo. Já não se faz mais isso, pois a prática pode trazer algum risco de contaminação, dizem por aí.

    Mas o leite, presente na mesa todas as manhãs, era obrigatório (aliás, continua sempre presente). A insistência dos pais transformou o leite em sinônimo de infância. Beber leite representava ossos fortes e alimento para as energias gastas pela gurizada. Quem de nós não lembra?

    Pois nos últimos meses o farto noticiário sobre adulteração do leite que encontramos nas gôndolas dos supermercados chocou a todos. Leite com formol, leite com álcool, leite com soda cáustica e água oxigenada. O Rio Grande, grande produtor de leite, é alvo da mais terrível desconfiança.

    Não tenho dúvidas de que esse problema será superado em breve, seja pela alteração nas práticas das indústrias, seja por força das punições aplicadas pela Justiça. Mas até lá vamos conviver com a desconfiança, com a suspeita que tirou do leite nosso de cada dia o seu encanto. Parece até que roubaram parte da nossa infância...

    ***

    E a empregada informa a patroa:

    “Dona Maria, a pia da cozinha entupiu de novo!”

    A patroa prontamente responde:

    “Derrame um pouquinho de leite longa vida!”

    ***

    O ano de 2014 é registro importante para a região Noroeste. Ele marca os 190 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Na verdade, os primeiros a chegarem vinham de algo chamado “Confederação alemã”, pois na época a Alemanha que conhecemos hoje sequer existia.

    A colônia alemã de São Leopoldo foi criada em 1824, após tentativas sem êxito em outros lugares do Brasil. Até na Bahia tentaram criar uma colônia antes dessa data, mas descobriram que as bandinhas não conseguiriam tocar axé e desistiram.

    Para a nossa região eles só viriam mais tarde. Os que aqui chegaram para derrubar as matas eram parentes dos que estavam estabelecidos na “Colônia Velha”. A contribuição deles para a nossa região é enorme. Influenciaram a nossa língua, diversificaram a produção e determinaram muitos elementos da nossa arquitetura.

    Isso sem contar o chucrute e a cerveja, marcas registradas dos germânicos, e o dialeto trazido da região próxima da França. Aliás, a Alemanha até hoje possui dezenas de dialetos que mais parecem línguas distintas. Mas o que soa estranho é que, apesar dessa importância toda, as comemorações por aqui são muito tímidas. Será que estou enganado?

  • sábado, 16 de agosto de 2014 11:46

    A bicicleta, essa incompreendida

    Todos nós alimentamos um certo preconceito contra a bicicleta. Você, por exemplo, iria ao cinema montado numa bicicleta? E, pior ainda, acompanhado de sua namorada? Não, nada disso. Nosso inconsciente nos diz que a bicicleta é veículo de pobre, muito pobre, de quem não consegue sequer pagar o ônibus para chegar ao local de trabalho. Enfim, um veículo desqualificado como seus usuários.

    Evidentemente, isso é uma grande bobagem. Nossa preocupação em parecermos ricos nos levou a essa paixão incontrolável pelo automóvel. Assim, criamos um mundo urbano feio, fedorento e de barulho insuportável. Nós, ingênuos, achamos que isso é progresso.

    Além disso, achamos que não é nada elegante andar por aí montado numa bicicleta. Não é chique, como diríamos em algumas rodas sociais.

    Poucos dias atrás, por inesperadas combinações do destino, andei visitando algumas capitais européias. Essas que fazem brilhar os olhos da classe média disposta a gastar seus dólares no exterior. E o que vi me deixou vivamente impressionado. Todas as charmosas capitais da Europa possuem incontáveis quilômetros de ciclovias (todas respeitadas pelos motoristas). Ciclovias estão no centro nervoso das capitais e também nos subúrbios e áreas residenciais. Ciclovia, na Europa, virou prioridade, política pública.

    São milhões de bicicletas utilizadas pelos jovens, por executivos, por dirigentes de empresas, por magistrados, e também por senhoras e senhores da idade já avançada. Nunca vi nada parecido no Brasil. Em suas magrelas eles se deslocam para o trabalho, para o banco, para o supermercado e até para o teatro. Nota-se que estão orgulhosos, pedalando em todos as direções, com a certeza de que estão melhorando não apenas a própria saúde, mas a saúde da cidade em que vivem.

    Por isso, caro leitor (e leitora), se você acha que bicicleta é um veículo antiquado, deselegante e feio, saiba que está redondamente enganado (e enganada).

    Bicicleta é chiquérrimo! Desculpe a palavra, que faz lembrar o Clodovil, mas acredite. Bicicleta é chique, pelo menos em Paris e Londres....

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    Estamos mais uma vez com a Feira do Livro animando a Praça da Bandeira. Combinação perfeita. Praça e livros. Praça e crianças. Nada mais animador.

    É certo que ainda é uma feira pequena, mas vale lembrar que está consolidando uma tradição. Todos os anos teremos feira do livro, esse é um dado fundamental. É assim que os grandes eventos são construídos, aos poucos, conquistando apoio da população e corrigindo suas próprias trajetórias através da experiência adquirida.

    Não precisamos aqui tecer considerações sobre a importância da leitura. Você já está cansado de ouvir essa conversa. Mas, curiosamente, a medicina vem ajudando nesse particular. Nos últimos anos, todos ficaram sabendo que a leitura é uma arma poderosa na prevenção dos males neurológicos que atingem os idosos, como o famigerado Alzheimer. Não por coincidência, tenho visto pessoas de idade lendo cada vez mais, afastando o preconceito de que leitura era coisa de jovens. De certa forma, estamos avançando.

     

     

     

  • sábado, 9 de agosto de 2014 09:21

    Uma nova poluição

    Vivemos num mundo poluído, você sabe disso. Poluição ambiental, sonora, visual, etc. Para que o mundo seja mais amigável, também concordamos (eu e você) que a vida deve ser mais calma, mais saudável, menos violenta e ruidosa. O silêncio é o que nos permite recarregar as energias, refletir e compreender a vida.

    Mas não são apenas esses aspectos externos que nos perturbam.

    Estamos diante de outro tipo de poluição, da qual às vezes não nos damos conta. E ela é terrível, está por toda a parte.

    Estou falando da proliferação desenfreada de opiniões sobre tudo e sobre todos. Com a popularização das redes sociais (especialmente o Facebook) a situação se agravou. Estamos assistindo a uma avalanche de opiniões, palpites e boatos, numa enxurrada de palavrório que, na grande maioria, são como um tonel vazio rolando ladeira abaixo. É só ruído.

    E essa saraivada de opiniões surge de forma tão veloz que não permite a ninguém a reflexão e sequer o debate sobre elas. Tudo parece urgente. Tudo desaparece velozmente.

    O que resta disso tudo? Praticamente nada.

    É mais ou menos quando você sai de uma boate, após horas ouvindo músicas estridentes. Você não lembra de nada que ouviu por lá.

    ***

    Todos se sentem convocados a opinar sobre tudo. Sobre os fatos do dia, reais ou imaginários. Sobre o comportamento do politico, a vida do artista, a descoberta científica, a nova doença, a mais recente catástrofe e a roupa provocante da vizinha do quarteirão mais próximo. E tudo é compartilhado, sejam convicções, sejam meras repetições de opiniões alheias. Os clichês são incontáveis. Os “especialistas” surgem do nada para dizer que isso está certo, que aquilo está errado.

    O direito de opinião (que não deve ser esquecido) se transforma, assim, num fenômeno esquisito, bizarro e absolutamente estonteante. Não produz resultado nenhum.

    É claro que por trás desse fenômeno existe o objetivo de ganhar dinheiro, seja das empresas de comunicação, da índústria da informática, e assim por diante.

    Nós (e nossas opiniões urgentes) nos transformamos em mercadorias.

    ***

    Muita gente já percebeu esse lado desconfortável das redes sociais. Conheço muitas pessoas que se “desconectaram”, a fim de obter um pouco de paz e tranquilidade. Elas perceberam que o nosso mundo está envolto em ruído, em barulho.

    Perceberam também que essa avalanche de informação (seguida de opiniões taxativas) traz também uma carga de ódio, violência e intolerância, sentimentos reprováveis cuja disseminação é inaceitável.

    A tentação de opinar, ou de espalhar campanhas e notícias inverídicas, é grande. Mas precisamos pensar antes de agir, antes de nos tornarmos portadores de ideias que não são nossas. Antes de espalhar rancores inúteis e frases sem sentido. O ruído está muito grande. Um pouco de silêncio, por favor!

  • sexta-feira, 1 de agosto de 2014 15:07

    Por que eles admiram o Brasil?

    O debate surgiu com a Copa. Por que os estrangeiros tem admiração pelo Brasil? Não, ao contrário do que você possa estar pensando, eles não ignoram os nossos problemas. Mas também já não dão bola para os velhos clichês, como praia, mulher bonita e futebol.

    O que, na verdade, desperta a curiosidade do mundo acerca do Brasil são outros aspectos inexistentes no resto do planeta. São nossas contradições, nossos paradoxos.

    Veja só. O Brasil é um raro país que tem uma floresta imensa, tida como o pulmão do mundo, e também o maior volume de água doce (o tesouro do futuro, dizem). Só isso já bastaria para despertar o interesse mundial.

    Temos regiões muito pobres, e outras que são mais ricas que as cidades mais ricas da Europa. O número de brasileiros com acesso à internet é maior do que a população de muitos países, mas também temos brasileiros que sequer sabem escrever. Paralelamente, o mercado editorial brasileiro é um dos maiores do mundo, inacreditavelmente.

    Possuímos tecnologia de satélites, mas tempos populações indígenas que vivem com hábitos da idade da pedra. Será que temos algo a aprender com elas?

    Sem grande crescimento econômico, conseguimos tirar 40 milhões de pessoas da pobreza extrema, fato inédito em todo o mundo.

    Temos estradas ruins, porém produzimos automóveis como nenhum outro país (cerca de 1 automóvel a cada 5 segundos).

    Nossa arte, especialmente a música, é objeto de admiração em todos os lugares. É como se dissessem: “com essa música, eles só podem ser alegres”.

    Ainda temos manifestações de racismo, mas somos o maior povo mestiço do planeta, que acolhe imigrantes de todos os lugares. Construímos um país mestiço embora tenhamos sido um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão.

    Nossos estudantes carecem de inserção tecnológica, mas jovens brasileiros produzem jogos eletrônicos consagrados em todo o mundo.

    Nossa produção agrícola e pecuária é gigantesca, e ainda temos muita terra para fazer produzir, coisa que já não existe por aí. E nosso comércio transaciona com todos os continentes.

    Não há país no mundo com tantas religiões. Porém o sincretismo de crenças que se formou no país ao longo dos séculos é admirável. Não há nada parecido com essa mistura de credos e a pacífica convivência entre eles.

    Temos a maior fronteira terrestre do planeta, fazendo divisa com 12 países, e não temos nenhum conflito externo! Imagine isso na Europa!

    Nenhum país do mundo tem tantas atrações naturais como o Brasil, mas a nossa indústria turística ainda é mixuruca.

    Bem, vou interromper a lista por falta de espaço...

    ***

    São esses paradoxos que despertam a curiosidade do mundo, muito além, portanto, do aspectos exóticos. Ao longo de sua história, o Brasil sempre foi o país de “índios, negros e florestas”. Algo que o velho mundo olhava com interesse antropológico. Hoje a visão é outra. Para alguns estudiosos do desenvolvimento social, podemos ser o ícone do século XXI. Um país que pode oferecer coisas novas para um mundo cansado de guerras e desentendimentos.