• segunda-feira, 24 de novembro de 2014 07:12

    A publicidade e seus limites

    Em setembro último a Justiça determinou a suspensão (inclusive na Internet) de uma publicação da famosa revista Vogue, que é lida pelo público feminino de alto poder aquisitivo. O problema ocorreu com a edição da “Vogue Kids”, publicação que vem encartada na edição mensal da Vogue. Qual o motivo? A revista trazia inúmeras fotografias de meninas entre 7 e 10 anos em poses absolutamente sensuais, em posições adultas, sugerindo atitudes provocativas. Se você algum dia abriu uma revista masculina sabe do que estou falando.
    É um conteúdo que rompe com as fronteiras entre a menina e a mulher. Mas o impacto das imagens no imaginário de uma menina que vê as fotos é evidente. Se uma conceituada revista exibe crianças em poses sensuais, é claro que a menina leitora ficará confusa, aceitando como “normal” esse tipo de comportamento.
    Não se trata daquelas singelas fotos em que a menina usa o batom da mãe ou o sapato da tia para posar para uma fotografia. No caso da revista, as imagens mostravam a criança como agente de sedução e erotismo. Isso não tem nada de brincadeira.
    Não é novidade a tentativa de amadurecimento precoce com mero propósito de consumo. Todos os dias vemos iniciativas de erotização e sexualização precoce de crianças, com apelos para o consumo de indumentária e aparelhos eletrônicos. Para a revista, era apenas uma publicação de moda infantil. Mas tudo tem limite, senhores.
    No Brasil, em um ano, como mostram dados mapeados pelo Ministério de Justiça, foram encontrados 1.820 pontos de exploração sexual de crianças nas rodovias e 241 rotas de tráfico de crianças e adolescentes para fins de comércio do sexo. No mesmo ano houve quase 4.000 denúncias de abuso e exploração sexual infanto-juvenil.
    Em pesquisa recente, a WCF (World Childhood Foudation), entidade da ONU, revelou que 65% das meninas exploradas sexualmente declararam usar o dinheiro para comprar celular, tênis ou roupas. Isso mostra a vulnerabilidade das crianças aos apelos de consumo. É o que podemos chamar de infância roubada, inexistente. Sem infância, também não teremos adultos saudáveis, o que parece óbvio.
    A infância é um período da vida que não retorna. Aliás, é esse período que no molda para a etapa adulta da existência. Deixemos nossas crianças serem crianças, esse é o apelo.
    ***
    A publicidade, assim como a imprensa, precisa de regulação para respeitar os padrões éticos e os direitos humanos. Por isso mesmo, são frequentes as multas e acordos na área da propaganda, muitos deles mediados pelo CONAR (Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária). Os publicitários, assim como os jornalistas, têm um compromisso social incomparável.
    Mas isso ainda não acontece na imprensa, que não possui controles próprios de autoregulação. Aliás, quando se toca no assunto ouve-se um alarido em defesa da “liberdade” de imprensa, ignorando-se a responsabilidade até mesmo dos órgãos de classe, como as associações de imprensa, que nada fazem em defesa da ética. Talvez por isso tantos milhares de ações judiciais tratam de publicações que ferem direitos sem a menor cerimônia. No Brasil, alguns jornalistas se acham deuses. Mas a vida em sociedade não admite tal presunção. Somos todos humanos e frágeis, assim como as crianças.

  • sexta-feira, 14 de novembro de 2014 17:23

    O importante é o crédito

    A proximidade das festas do final do ano faz muita gente rebolar, espernear e limpar o nome na praça. É hora de quitar as dívidas anteriores e contrair novas. Faz parte do cotidiano de muita gente. Há quem não consiga viver sem dívidas, o que é curioso.
    É importante saber que, se você quitou a dívida em atraso e seu nome está no SPC (ou outro banco de dados restritivo), a empresa tem 5 dias úteis para retirá-lo de lá. É o que diz o Código do Consumidor e vem sendo confirmado pela Justiça.
    Fique de olho, portanto, e não perca o crédito na praça. Pois como dizia o velho Tibúrcio, dinheiro não é importante. O importante é ter crédito. Mas tome cuidado com os juros. A elevação da taxa básica repercute nas taxas praticadas pelas financeiras. É um velho mecanismo de controle inflacionário. Por isso, é bom saber. As compras a crédito estão mais caras neste final de ano. Você não precisa viver de forma franciscana, mas certamente muitas coisas que compra são dispensáveis.
    Assim, comprar com parcimônia é fundamental. O clima de Natal, muitas vezes, leva as pessoas a uma espécie de embriaguez do consumo. Depois, na hora da ressaca, o cara descobre que comprou coisas absolutamente desnecessárias. Mas aí já é tarde...
    ***
    O sujeito chegou na loja de eletrodomésticos para fazer um crediário. Ao preencher a ficha a balconista perguntou o nome de três pessoas conhecidas. O cara não hesita:
    “Xuxa, Mano Lima e D’Alessandro”.
    Até hoje ele não entendeu por que saiu sem o crediário.
    ***
    Outro enfrentou a seguinte pergunta:
    “O senhor trabalha com cartão?”
    “Não. Eu trabalho com lixadeira e pá. Sou colocador de azulejo...”
    ***
    Somos meio analfabetos em economia. Não estou falando da economia em geral, a macroeconomia. Ela também nos desnorteia, é claro, mas estou me referindo à economia doméstica, ao orçamento pessoal. Nesse campo, ainda temos muito a aprender.
    Encontro cidadãos endividados todos os dias. Alguns com excelentes rendas mensais, mas mesmo assim endividados. Como é possível? A resposta é simples. Esquecemos a “conta de mais e menos” que aprendemos nos primeiros dias de escola. A receita (a grana que recebemos) deve ser sempre maior do que a despesa (o que gastamos ao longo do mês).
    Parece tão simples, mas para muita gente é um mistério insondável. Daí a razão de tanto endividamento. Podemos alegar que a sociedade de consumo nos seduz, que somos incapazes de resistir, etcétera. Mas, na verdade, o que causa o endividamento ainda é o descontrole pessoal. Por isso já estão surgindo por aí cursos de “economia doméstica”, que são úteis e provam que somos todos amadores nesse terreno. Voltemos à escola, portanto...

  • sexta-feira, 7 de novembro de 2014 15:05

    Reflexão eleitoral

    Superado o clima da eleição, com a poeira baixando, me aventuro em algumas reflexões que não poderiam ser feitas no calor da hora. Às vezes, é melhor esperar passar o nevoeiro.
    No Rio Grande do Sul o mito de que somos um Estado politizado parece que virou pó. Tivemos uma campanha sem debate. Duvido que a história gaúcha registre fato semelhante.
    ***
    O jornalismo brasileiro está mergulhando em uma profunda reflexão. Neste pleito os donos da grande mídia expuseram-se. Passou o tempo em que eles defendiam a tal “imparcialidade”. A revista Veja, por exemplo, que já foi respeitável, assumiu de vez seu perfil de simples panfleto partidário. Hoje é um veículo que zomba da democracia. Talvez por isso esteja recebendo o desprezo dos leitores.
    O ano de 2015 servirá para a construção de uma nova postura jornalística. Os profissionais da área (nem todos, é claro) estão preocupados com a respeitabilidade e a responsabilidade social de seu trabalho. A eleição serviu para revelar as distorções. A crise da imprensa brasileira pode gerar um novo jornalismo, melhor do que o temos aí.
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    Em 1832, quase duzentos anos atrás, na Inglaterra, houve grande alarido sobre a proposta que estendia o direito de voto aos homens adultos que fossem donos de prédios urbanos. Foi a chamada “Reform Bills” inglesa. A proposta aumentava o número de eleitores, embora deixasse de lado 95% da população, que continuaria sem votar. Na ocasião, a aristocracia inglesa protestou com veemência. Eles achavam um absurdo, e algo muito perigoso, estender o voto a “tanta gente”.
    Citei o caso inglês apenas para dar uma ideia do quanto a democracia se consolidou no mundo ocidental desde então. Hoje o sufrágio universal está garantido na grande maioria das constituições.
    Para minha perplexidade, após as últimas eleições ouvi por aqui manifestações do tipo “pobre e nordestino não deveriam votar”, ou então “o bom mesmo era a ditadura”. Essas ideias, ingênuas e atrasadas, talvez fossem ouvidas na Inglaterra. Mas lá em 1832, é claro.
    ***
    O voto feminino no Brasil é algo a ser estudado. As mulheres adquiriram o direito de voto em 1932, após uma longa batalha. E mesmo assim esse direito só foi concedido às mulheres casadas (que precisavam da autorização dos maridos), às viúvas e às solteiras que tivessem renda própria.
    Interessante é lembrar que a luta pelo voto feminino começou no Rio Grande do Norte, cinco anos antes, em 1927, quando quatro cidades passaram a aceitar o registro de eleitoras. Também foi no Rio Grande do Norte a eleição da primeira prefeita. Em 1929 a cidade de Lages elegeu Alzira Soriano como a primeira prefeita do Brasil.
    A experiência potiguar mostra que o nordestino está mais habituado ao voto do que imaginamos. Antes mesmo do restante do Brasil, onde a presença feminina nos partidos ainda é tímida, passados 82 anos da importante conquista. Está provado que as mulheres têm contribuição importante para a política. Por isso, é uma pena essa presença tão diminuta.

  • segunda-feira, 3 de novembro de 2014 08:17

    Juntos e separados

    A conversa é antiga, mas verdadeira. Por isso, vale a pena voltar a ela. As tecnologias que invadiram nossa vida são fascinantes, algumas verdadeiras maravilhas, mas estão modificando nosso comportamento e até afetando nosso cérebro.
    Não, não sou inimigo das tecnologias. Também estou mergulhado nelas, mas às vezes fico preocupado. Explico.
    Na Alemanha, um estudo minucioso comprovou que uma em cada três pessoas sente-se insatisfeita com a própria vida logo após acessar a rede social. A rede, com seu exibicionismo explícito, causa ressentimentos e inveja. Homens gostam de postar conteúdo promocional (suas realizações) e as mulheres destacam sua aparência pessoal e vida social. Embora a inveja seja um sentimento universal, a rede social tornou-a visceral. As pessoas experimentam frustração ao ver a “felicidade” dos outros.
    Já nos EUA, a Universidade de Michigan revelou que as redes sociais (no caso do estudo, o Facebook) têm relação direta com o bem estar psicológico das pessoas. Resumindo a conversa, quanto mais uma pessoa usa o Facebook, menos satisfeito é com a vida. Em geral, ela se dedica ao Facebook quando se sente solitária.
    O estudo também comprovou que, nos intervalos, quando interagem com outras pessoas, o nível de satisfação e o bem estar aumenta. Num grupo de pessoas (sem os “smartphones”, é claro), tendemos a prestar atenção nelas, ouvir o que têm a dizer, e por isso nos sentimos mais felizes.
    Essa sensação de bem estar tem a ver com a sensação de “estar presente”, de estar “focado” e concentrado. As novas tecnologias, ao contrário, têm como característica a distração e a dispersão de nossa mente.
    ***
    Navegamos num oceano de imagens e publicações, mas isso não significa que nossa vida esteja melhor. Um sociólogo observou crianças na saída da escola durante meses, e descobriu algo assustador. A maioria delas era dominada por um sentimento de frustração e tristeza ao ver que os pais não observavam a porta de saída da escola, e sim os seus próprios “smartphones”. Não há, mesmo, como não ficar triste.
    A distração da tecnologia é um fenômeno que vem preocupando professores em todo o mundo. O clima em sala de aula, por exemplo, é assustador. E um grupo de jovens, lado a lado, mergulhados em seus “smartphones”, será que podemos chamar de convivência?
    ***
    Mas, por incrível que pareça, já existem aplicativos para celulares e computadores que ajudam as pessoas a “esquecer” um pouco esse mundo de distrações. São pequenos programas que impedem, por exemplo, que você acesse a rede social no horário comercial. Outros impedem que você abra diversos programas no computador pessoal, ou seja, você só pode fazer uma tarefa de cada vez.
    Um dos programas permite que você defina o período de tempo que ficará ligado na rede social. Atingido o limite, o programa simplesmente desconecta-o da rede. E não adianta esbravejar. Ele só permitirá nova conexão após um longo período.
    Para alguns amigos, isso será enervante, eu sei. Mas, acreditem, muito útil.