• sexta-feira, 24 de abril de 2015 14:44

    Tiradentes

    É estranho como não debatemos o significado da Inconfidência Mineira, lembrada no feriado da última terça-feira. Aliás,
    “lembrada” chega a ser um exagero. É um feriado, apenas. E o debate sobre o significado da Inconfidência acaba em nada.
    Talvez isso se deva à importância que nós, gaúchos, damos à Revolução Farroupilha, embora ambas tenham tido motivação semelhante. Enquanto os mineiros queriam a independência em relação a Portugal (em 1792), os gaúchos buscavam a independência em relação ao governo central da época (em 1835).
    Pois a figura de Tiradentes ainda é a de um herói da república. Traídos por Silvério dos Reis, Tiradentes e seus amigos foram presos. O único a reconhecer que conspirava contra Portugal foi Tiradentes. Passou dois anos na prisão e depois foi morto, esquartejado e seu corpo exposto à execração pública.
    Na verdade, ele nunca foi um herói ou expoente político. Tinha suas ambições, mas jamais destacou-se como celebridade da época. Exerceu diversas atividades para sobreviver e surpreendeu a todos ao dizer: “Eu sou o único culpado”. O inusitado é que Tiradentes também foi coletor de impostos, tendo se revoltador justamente contra a alegada cobrança injusta de tributos.
    Quando o Império português decidiu cobrar as dívidas vencidas dos nobres de Minas Gerais a coisa complicou. Aliás, isso não é novidade no Brasil desde aquela época. Ainda hoje é só tentar cobrar os bilhões da sonegação e você vai ver o circo pegar fogo!
    Mas o que aconteceu com o traidor, se na época não existia a tal “delação premiada”? Joaquim Silvério dos Reis entrou para a história como o dedo-duro, o alcaguete. Endividado, decidiu denunciar o movimento libertário esperando o perdão das dívidas. Parte de suas dívidas foram efetivamente perdoadas, com a ajuda de alguns políticos ligados à Corte Portuguesa. Mas passou o resto da vida com a fama de traidor. Dizem que o seu túmulo, em São Luiz do Maranhão, foi destruído por populares pouco depois da sua morte.
    ***
    Após a morte de Tiradentes, os republicanos trataram de divulgar sua imagem e sua morte a fim de favorecer a ideias de independência. Também os militares (alferes era o equivalente a subtenente) passaram a utilizar a imagem do mártir para fortalecer as corporações.
    Mas o Tiradentes da época não despertou comoção popular. Sua imagem de mártir foi obras de outros, com interesses diversos. Até a sua atuação como “subversivo” foi de pouca importância, conforme os documentos da época comprovam.
    Mas o simbolismo de Tiradentes é inegável.
    Ajudou a divulgar as ideias de independência quando isso era tido como crime abominável. Aliás, o poder do império não deixava muita margem a discussões, embora tenha havido um longo processo até a condenação final. Ficou a imagem do mártir e do homem que auxiliou a abrir as veredas da independência que aconteceria poucos anos depois.
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    E a professora perguntou ao Joãozinho:
    “Diga tudo o que você sabe sobre o Tiradentes”.
    “Ele foi enforcado, professora”.
    “É só isso?”
    “Qual é, profe? O cara foi enforcado e a senhora acha pouco?”

     

  • sexta-feira, 17 de abril de 2015 22:10

    O mundo do trabalho

    O jurista e político gaúcho Paulo Brossard talvez tenha sido o último de uma estirpe de políticos que unia a atuação no
    parlamento e o envolvimento jurídico-social. Um tribuno, como se dizia tempos atrás. Por isso mesmo, foi fundamental na redemocratização. Morreu esta semana, e as homenagens a ele dirigidas foram discretas, o que é de lamentar.
    Mesmo sendo um político tradicional, era um conservador ilustrado, defensor incondicional da Constituição e das liberdades. Quando o Brasil começou a se livrar da ditadura, Brossard foi uma figura de ponta ao denunciar as violações constitucionais. Grande figura, deveria servir de exemplo a muito político chinfrim que anda por aí nesses tempos ingratos...
    ***
    Também morreu esta semana um sujeito que teve uma vida espetacular e deixou um grande número de livros que poderemos ler pelos tempos afora. Estou falando do uruguaio Eduardo Galeano, que em seus textos misturava indignação social e paixão pelas letras. Também era apaixonado por futebol. Nem vou falar do seu clássico “As veias abertas da América Latina”.
    Você pode pegar qualquer um de seus livros e terá uma ótima leitura pela frente. Mais de uma dúzia já foram publicados no Brasil. Veja algumas frases exemplares do Galeano:
    “A caridade é humilhante porque é exercida verticalmente, de cima; a solidariedade é horizontal e implica em respeito mútuo”.
    “Eles vieram. Eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra. E disseram: “Fechem os olhos e rezem”. E quando abrimos os olhos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia”.
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    Pouca gente entendeu a PEC 4330, que libera a terceirização no trabalho. Isso porque estavam todos atentos às discussões do inquérito da Petrobras.
    Para alguns, parece coisa que afeta apenas o trabalhador (aquele visto como operário, do chão da fábrica). Mas aí está o grande engano. A proposta acaba com algo muito importante no mundo do trabalho, a lealdade e o compromisso entre o empregado e o empregador. Demitir e terceirizar podem se tornar rotina. Mas a vida corporativa da empresa também irá para o espaço.
    Sempre soubemos que algumas grandes empresas se tornaram grandes justamente porque existia, no ambiente de trabalho, fatores como confiança, lealdade, comprometimento, desejo de crescimento mútuo, isto é, da empresa e do indivíduo.
    Pois a terceirização integral, como prevista, acaba com isso. Haverá incontáveis empresas prestando serviços a outras empresas. E haverá empresas praticamente sem empregados.
    A reforma, portanto, atinge brutalmente todos os que vivem do trabalho, pouco importando o quanto recebem. Ou seja, também atinge diretamente a classe média, seja na iniciativa privada, seja na esfera pública. Acho que poucos perceberam isso...

  • sexta-feira, 15 de abril de 2016 14:09

    Coisas da cidade

    Curiosa a informação que li no site do Noroeste. Uma turma de estudantes do Curso Técnico em Meio Ambiente, do Instituto Federal Farroupilha, realizou trabalho de limpeza em duas áreas do Distrito Industrial, cobertas por mata nativa, e o material recolhido foi levado pela Prefeitura. Até aí, nada demais. O que surpreendeu foi o volume de lixo. Foram sete caminhões!

    Quando falo em “lixo”, estou me referindo a todos aqueles objetos que não se decompõem, que não são absorvidos pela natureza, como objetos plásticos, eletrodomésticos, televisores etc.

    Sete caminhões de lixo em uma área relativamente pequena! É dose!

    ***

    Calico Ribeiro, que veio de Livramento e se aquerenciou por aqui, é compositor de músicas nativistas com estilo muito particular. Algumas de suas canções são famosas e gostosas de ouvir.

    Pois o Calico está completando 40 anos de carreira, que começou quando acompanhava outros músicos ou integrava grupos musicais da região.

    Para comemorar a data está lançando o disco “Calico Ribeiro - 40 anos de estrada e poesia”, que tem uma bela produção gráfica e traz composições antigas mescladas com inéditas. Para ouvir e ter na estante.

    ***

    Acontece hoje à noite (sexta-feira) no auditório da Rede (Av. América, 785), interessante painel de debates sobre a questão política brasileira na atualidade. O tema principal, evidentemente, é a nossa frágil democracia, as forças que estão em jogo e o futuro do Brasil.

    Um momento precioso para esclarecimentos e questionamentos, especialmente quando o golpe está em andamento nos gabinetes de Brasília. Sua presença é importante pois o que anda faltando é redescobrirmos a importância de sermos democráticos.

    Pois dizem que a última gravação de telefonemas divulgadas pela PF dá conta de um diálogo entre Dilma e o vice, Temer:

    — Alô, Temer. Alguém me disse que antes do galo cantar o Temer vai me trair três vezes.

    — Desculpe, Presidente, mas a senhora se enganou sobre o texto da Bíblia. Na verdade V. Excelência deveria dizer: “antes do galo cantar três vezes o Temer vai me trair”.

    — Ahhhá! Te peguei!

    ***

    E já está rolando, desde a última quarta-feira, a 12ª Feira do Livro, no largo do Centro Cívico (Rua Buenos Aires). É sempre bom dar uma passada por lá, seja para encontrar amigos, seja para encontrar livros.

    Há atividades diversas, como oficinas, apresentação de projetos, debates, orquestras e, é claro, lançamentos de livros de autores da região.

    Minha contribuição, desta vez, é o lançamento do romance “A Varanda” (Ed. Livrus - São Paulo), a partir das 10 horas de amanhã.

    Um bom motivo para você tomar um chimarrão numa manhã de sábado...

  • sexta-feira, 10 de abril de 2015 11:15

    Calendário

    Hoje, 10 de abril, é o 100º dia do calendário gregoriano. Faltam 265 dias para acabar o ano. Você deve estar se perguntando: para quê serve essa informação? Para nada. Eu só gostaria de saber onde foram parar esses 100 dias que já se passaram. O ano começou ontem, não foi?

    ***

    Pois o calendário gregoriano é herança da cultura europeia que se espalhou pelo mundo, e, dizem, facilita a vida de todos. Tudo teve origem numa bula do Papa Gregório XIII, que em 1582 decidiu corrigir erros de cálculo do antigo calendário juliano vigente até então.

    Curioso é que essa alteração suprimiu dez dias. O que aconteceu entre 5 e 14 de outubro de 1582 simplesmente desapareceu. Mas o novo calendário tem causado problemas até hoje. O principal é que as semanas não coincidem com os meses.

    E o que é pior. A gente nunca sabe bem quando acontece o Carnaval e a Páscoa. Por isso é que às vezes eu confundo ovos com tamborins. Vou à igreja em pleno Carnaval e saio fantasiado no sábado de Aleluia. Coisa chata!

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    Outra eterna confusão é sobre o primeiro dia da semana. É o domingo? É a segunda-feira? O que todos concordam é que domingo é o dia mais bonito e a segunda o dia ainda mais bonito pois está a apenas quatro dias da noite da próxima sexta-feira. Na verdade, o primeiro dia é o domingo, segundo o Papa Gregório. Mas o mundo do trabalho na atualidade fixou (até pela normatização ISO) que a segunda-feira é o primeiro dia e o domingo o último. Muda alguma coisa? Sei lá.

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    Mudando do saco para a mala, e deixando as brincadeiras de lado. Os cortes orçamentários do governo estadual vão atingir de forma brutal a área da cultura. Aliás, é sempre a mais atingida. O orçamento previsto era de 102 milhões e foi reduzido para 17,8 milhões. Um “pequeno” corte de R$ 80 milhões. A cultura gaúcha, que já andava com problemas, verá que seus problemas acabaram. Não haverá projetos, nem problemas, nem cultura. Em resumo, não sobrou nada.

    ***

    Parece conversa de surdos. Todos sabem que a redução da maioridade penal não vai reduzir a violência. Eu sei, você sabe, os congressistas sabem. Mas a proposta tem algo de sedutor que faz com que as pessoas simpatizem com ela. É apenas mais uma proposta populista, demagógica. Agrada àquela parcela da população que acredita que a solução está no ódio, no “olho por olho”. Desse jeito, acabaremos todos cegos.

    Não tem qualquer outro efeito ou resultado positivo. Nenhum bandido, ao cometer um delito, faz um exame prévio das penas que irá cumprir. O país mais violento do mundo é os EUA, e lá a maioridade penal chega, em alguns Estados, a 12 anos. Resolveu? Não.

    A verdade é que a maioria absoluta do países civilizados têm a maioridade penal fixada em 18 anos. E funciona.