• sábado, 30 de agosto de 2014 08:58

    Coisas da cidade

    Se a restauração do asfalto da Av. Expedicionário Weber era inadiável, por outro lado perde-se uma grande oportunidade de fazer a redução do canteiro central. A avenida estará renovada, é claro, mas continuará sendo um gargalo do nosso trânsito.

    Temos que considerar que numa via central como a Expedicionário Weber aquele enorme canteiro, na atualidade, apenas atrapalha. Sem ele, o fluxo de automóveis seria mais ágil, beneficiando a todos.

    Acreditei que, pelo significativo valor que está sendo aplicado em asfalto, o “conserto” da avenida seria completo. Ficou pela metade.

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    A venda da área do Ginásio Municipal é mesmo polêmica. Nesse debate, coloco-me entre aqueles que não desejam a entrega do local por duas razões básicas. Primeiro: o valor a ser recebido não faz cócegas no orçamento anual da Prefeitura. A questão financeira, portanto, é inexpressiva. Segundo: jamais o Município conseguirá área tão nobre na cidade baixa.

    Em síntese, a venda não serve para nada. Aliás, pode até trazer dificuldades que hoje não existem.

    Entre as sugestões que circulam por aí, é mesmo interessante pensarmos numa subprefeitura naquele local, com atendimento básico à população que hoje tem de se deslocar até Cruzeiro, onde nem mesmo estacionamento encontra.

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    Por outro lado, a obsessão pela venda do patrimônio público já beira caso clínico. Quem explica essa mania?

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    A propósito, quantos imóveis ociosos possui o Município? E os aluguéis pagos pelo Município, quantos são?

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    O Musicanto ressurge das cinzas, com formato de “multifeira cultural”. Se bem entendi, será uma mostra cultural envolvendo diversas manifestações artísticas, e não apenas musical. Fica mantida a proposta que surgiu no ano passado, com uma noite dedicada gaúcha, outra à latino-americana e outra à música brasileira.

    O empenho do Cláudio Joner é elogiável, pois aposta em algo inédito e de sucesso incerto. É o que veremos entre 12 e 15 de novembro.

    Sabemos que a ausência de competição impede o surgimento de novos talentos. Por isso ela é o ponto de interrogação desse Musicanto. O público vai gostar do novo modelo? Também não sei responder. Mas, de todo modo, é muito bom ouvir falar em Musicanto outra vez. Embora tenha sido marcado sempre por polêmicas, acredito que o festival está na memória dos santa-rosenses. Uma memória afetiva, carinhosa.

    Pode até voltar a ser motivo de orgulho para a cidade. Seria muito bom para a nossa autoestima.

     

     

     

  • sábado, 23 de agosto de 2014 16:11

    O leite nosso de cada dia

    O leite, vindo diretamente da vaca, foi uma das experiências bonitas dos meus tempos de guri. Após tirar o leite diretamente das fartas tetas da vaquinha, era só colocar um pouco de canela em pó e saboreá-lo. Já não se faz mais isso, pois a prática pode trazer algum risco de contaminação, dizem por aí.

    Mas o leite, presente na mesa todas as manhãs, era obrigatório (aliás, continua sempre presente). A insistência dos pais transformou o leite em sinônimo de infância. Beber leite representava ossos fortes e alimento para as energias gastas pela gurizada. Quem de nós não lembra?

    Pois nos últimos meses o farto noticiário sobre adulteração do leite que encontramos nas gôndolas dos supermercados chocou a todos. Leite com formol, leite com álcool, leite com soda cáustica e água oxigenada. O Rio Grande, grande produtor de leite, é alvo da mais terrível desconfiança.

    Não tenho dúvidas de que esse problema será superado em breve, seja pela alteração nas práticas das indústrias, seja por força das punições aplicadas pela Justiça. Mas até lá vamos conviver com a desconfiança, com a suspeita que tirou do leite nosso de cada dia o seu encanto. Parece até que roubaram parte da nossa infância...

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    E a empregada informa a patroa:

    “Dona Maria, a pia da cozinha entupiu de novo!”

    A patroa prontamente responde:

    “Derrame um pouquinho de leite longa vida!”

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    O ano de 2014 é registro importante para a região Noroeste. Ele marca os 190 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Na verdade, os primeiros a chegarem vinham de algo chamado “Confederação alemã”, pois na época a Alemanha que conhecemos hoje sequer existia.

    A colônia alemã de São Leopoldo foi criada em 1824, após tentativas sem êxito em outros lugares do Brasil. Até na Bahia tentaram criar uma colônia antes dessa data, mas descobriram que as bandinhas não conseguiriam tocar axé e desistiram.

    Para a nossa região eles só viriam mais tarde. Os que aqui chegaram para derrubar as matas eram parentes dos que estavam estabelecidos na “Colônia Velha”. A contribuição deles para a nossa região é enorme. Influenciaram a nossa língua, diversificaram a produção e determinaram muitos elementos da nossa arquitetura.

    Isso sem contar o chucrute e a cerveja, marcas registradas dos germânicos, e o dialeto trazido da região próxima da França. Aliás, a Alemanha até hoje possui dezenas de dialetos que mais parecem línguas distintas. Mas o que soa estranho é que, apesar dessa importância toda, as comemorações por aqui são muito tímidas. Será que estou enganado?

  • sábado, 16 de agosto de 2014 11:46

    A bicicleta, essa incompreendida

    Todos nós alimentamos um certo preconceito contra a bicicleta. Você, por exemplo, iria ao cinema montado numa bicicleta? E, pior ainda, acompanhado de sua namorada? Não, nada disso. Nosso inconsciente nos diz que a bicicleta é veículo de pobre, muito pobre, de quem não consegue sequer pagar o ônibus para chegar ao local de trabalho. Enfim, um veículo desqualificado como seus usuários.

    Evidentemente, isso é uma grande bobagem. Nossa preocupação em parecermos ricos nos levou a essa paixão incontrolável pelo automóvel. Assim, criamos um mundo urbano feio, fedorento e de barulho insuportável. Nós, ingênuos, achamos que isso é progresso.

    Além disso, achamos que não é nada elegante andar por aí montado numa bicicleta. Não é chique, como diríamos em algumas rodas sociais.

    Poucos dias atrás, por inesperadas combinações do destino, andei visitando algumas capitais européias. Essas que fazem brilhar os olhos da classe média disposta a gastar seus dólares no exterior. E o que vi me deixou vivamente impressionado. Todas as charmosas capitais da Europa possuem incontáveis quilômetros de ciclovias (todas respeitadas pelos motoristas). Ciclovias estão no centro nervoso das capitais e também nos subúrbios e áreas residenciais. Ciclovia, na Europa, virou prioridade, política pública.

    São milhões de bicicletas utilizadas pelos jovens, por executivos, por dirigentes de empresas, por magistrados, e também por senhoras e senhores da idade já avançada. Nunca vi nada parecido no Brasil. Em suas magrelas eles se deslocam para o trabalho, para o banco, para o supermercado e até para o teatro. Nota-se que estão orgulhosos, pedalando em todos as direções, com a certeza de que estão melhorando não apenas a própria saúde, mas a saúde da cidade em que vivem.

    Por isso, caro leitor (e leitora), se você acha que bicicleta é um veículo antiquado, deselegante e feio, saiba que está redondamente enganado (e enganada).

    Bicicleta é chiquérrimo! Desculpe a palavra, que faz lembrar o Clodovil, mas acredite. Bicicleta é chique, pelo menos em Paris e Londres....

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    Estamos mais uma vez com a Feira do Livro animando a Praça da Bandeira. Combinação perfeita. Praça e livros. Praça e crianças. Nada mais animador.

    É certo que ainda é uma feira pequena, mas vale lembrar que está consolidando uma tradição. Todos os anos teremos feira do livro, esse é um dado fundamental. É assim que os grandes eventos são construídos, aos poucos, conquistando apoio da população e corrigindo suas próprias trajetórias através da experiência adquirida.

    Não precisamos aqui tecer considerações sobre a importância da leitura. Você já está cansado de ouvir essa conversa. Mas, curiosamente, a medicina vem ajudando nesse particular. Nos últimos anos, todos ficaram sabendo que a leitura é uma arma poderosa na prevenção dos males neurológicos que atingem os idosos, como o famigerado Alzheimer. Não por coincidência, tenho visto pessoas de idade lendo cada vez mais, afastando o preconceito de que leitura era coisa de jovens. De certa forma, estamos avançando.

     

     

     

  • sábado, 9 de agosto de 2014 09:21

    Uma nova poluição

    Vivemos num mundo poluído, você sabe disso. Poluição ambiental, sonora, visual, etc. Para que o mundo seja mais amigável, também concordamos (eu e você) que a vida deve ser mais calma, mais saudável, menos violenta e ruidosa. O silêncio é o que nos permite recarregar as energias, refletir e compreender a vida.

    Mas não são apenas esses aspectos externos que nos perturbam.

    Estamos diante de outro tipo de poluição, da qual às vezes não nos damos conta. E ela é terrível, está por toda a parte.

    Estou falando da proliferação desenfreada de opiniões sobre tudo e sobre todos. Com a popularização das redes sociais (especialmente o Facebook) a situação se agravou. Estamos assistindo a uma avalanche de opiniões, palpites e boatos, numa enxurrada de palavrório que, na grande maioria, são como um tonel vazio rolando ladeira abaixo. É só ruído.

    E essa saraivada de opiniões surge de forma tão veloz que não permite a ninguém a reflexão e sequer o debate sobre elas. Tudo parece urgente. Tudo desaparece velozmente.

    O que resta disso tudo? Praticamente nada.

    É mais ou menos quando você sai de uma boate, após horas ouvindo músicas estridentes. Você não lembra de nada que ouviu por lá.

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    Todos se sentem convocados a opinar sobre tudo. Sobre os fatos do dia, reais ou imaginários. Sobre o comportamento do politico, a vida do artista, a descoberta científica, a nova doença, a mais recente catástrofe e a roupa provocante da vizinha do quarteirão mais próximo. E tudo é compartilhado, sejam convicções, sejam meras repetições de opiniões alheias. Os clichês são incontáveis. Os “especialistas” surgem do nada para dizer que isso está certo, que aquilo está errado.

    O direito de opinião (que não deve ser esquecido) se transforma, assim, num fenômeno esquisito, bizarro e absolutamente estonteante. Não produz resultado nenhum.

    É claro que por trás desse fenômeno existe o objetivo de ganhar dinheiro, seja das empresas de comunicação, da índústria da informática, e assim por diante.

    Nós (e nossas opiniões urgentes) nos transformamos em mercadorias.

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    Muita gente já percebeu esse lado desconfortável das redes sociais. Conheço muitas pessoas que se “desconectaram”, a fim de obter um pouco de paz e tranquilidade. Elas perceberam que o nosso mundo está envolto em ruído, em barulho.

    Perceberam também que essa avalanche de informação (seguida de opiniões taxativas) traz também uma carga de ódio, violência e intolerância, sentimentos reprováveis cuja disseminação é inaceitável.

    A tentação de opinar, ou de espalhar campanhas e notícias inverídicas, é grande. Mas precisamos pensar antes de agir, antes de nos tornarmos portadores de ideias que não são nossas. Antes de espalhar rancores inúteis e frases sem sentido. O ruído está muito grande. Um pouco de silêncio, por favor!