• sábado, 27 de setembro de 2014 10:08

    Teorias Conspiratórias

    Você já conhece muitas teorias conspiratórias. Elas sempre existiram, mas na era da informática e do Facebook elas se proliferam com uma velocidade impressionante. O mais interessante é que existe gente que acredita nelas.

    A mais famosa envolve a chegada do homem na lua. Há quem diga que aquelas imagens famosas são apenas uma montagem feita em laboratório para garantir aos EUA o domínio da corrida espacial contra a Rússia. Conheço pessoas que creem nela.

    Outra, mais recente, dizia que o filho do Lula seria o dono da empresa Friboi, e que esta estaria por trás de todas as decisões da economia brasileira. Que bobagem.

    A cédula de um dólar deu motivo para outra teoria que corre o mundo. A imagem de um triângulo, chamado de “olho da Providência”, indicaria um movimento global para controle da humanidade, liderado por uma seita secreta chamada “iluminati”, com propósitos inconfessáveis. Se isso tiver um mínimo de verdade, vou começar a desconfiar de todo mundo. Aliás, tenho um vizinho que me olha de um modo muito estranho. Tenho que tomar cuidado....

    Por outro lado, a possibilidade do fim do mundo está sempre alinhada com o surgimento do Anticristo, uma figura que ninguém sabe o que representa. Quando guri eu chamava de “Anticristo” a supervisora da minha escola. Tenho que admitir, porém, que ela nunca me fez nada de mal.

    Outras teorias envolvem coisas ainda mais misteriosas, mas que sempre colocam o mundo em perigo. Cavaleiros templários, maçonaria, os judeus, a besta 666, os cavaleiros do Apocalipse, a linhagem de Cristo, e assim por diante.

    Existe ainda a conspiração envolvendo os extraterrestres, na chamada “Área 51”. O governo americano estaria aliado aos ETs para abduzir e controlar seres humanos, levando-os para outros planetas habitados para experiências científicas. Em troca disso, os EUA continuariam dominando o mundo com o auxílio dos verdinhos lá de fora. Acredite, essa teoria corre o mundo.

    ***

    Qualquer teoria da conspiração tem alguns fatores indispensáveis. Veja só. Ela envolve um plano secreto, comandado por alguma organização também secreta. O plano só é do conhecimento de alguns iluminados. O objetivo final, normalmente, é controlar a população, ou suas riquezas. Quando a tal sociedade secreta é integrada apenas por gente má, o objetivo é simplesmente destruir o planeta.

    Você já viu isso em filmes de Hollywood, não é mesmo? Pois bem. É só lá que as teorias conspiratórias funcionam. Ainda bem que sempre aparecem os valentes heróis para acabar com a festa dos bandidos...

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    Agora vou revelar um segredo, que você não deve comentar com ninguém. Fica entre nós. Existe um grupo conspiratório que deseja separar o Rio Grande do resto do Brasil. Mas não se trata de criar outro país, e sim de restabelecer o Tratado de Torde-silhas. Assim, deixaríamos de ser brasileiros, e voltaríamos a ser castelhanos. Me arrepio só de pensar.

  • sexta-feira, 19 de setembro de 2014 17:28

    Nosso orgulho gaúcho

    Amanhã é 20 de setembro, dia comemorativo dos gaúchos. Concordo plenamente com as comemorações. Valorizar a nossa cultura é uma forma de resistência, sem falar que é um traço diferenciador de outras culturas, que também são belas. Sou fascinado pelas diferenças culturais dentro do Brasil, e também no exterior. Porém (sempre existe um “porém”) precisamos colocar as coisas no seu devido lugar.

    Tradição não significa glorificar o passado como o mundo perfeito. Muitos cometem esse equívoco. Dizem que a vida de ontem era melhor, mas esquecem que usam telefone celular, andam em camionetas do século XXI, plantam soja transgênica e mandam mensagens via internet. Se o passado fosse tão bom, deveriam mandar cartas via mensageiro a cavalo.

    A questão parece simples. Homenagear nossos antepassados e os traços culturais que nos deixaram é valioso. Mas imaginar que viver no passado era algo bom é um grande equívoco. Lá o mundo era perverso e a vida muito difícil. É só lembrar que a média de vida, na época da Revolução Farroupilha, não chegava a 45 anos. A tradição diz respeito a um mundo que já não existe e é válida como lembrança, não como ideal.

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    Outro aspecto constrangedor é o velho ufanismo gaúcho. Imaginamos que somos melhores que outras culturas, que o gaúcho tem virtudes inexistentes em pessoas de outros países e outras regiões do país.

    É uma clara miopia cultural.

    Só para lembrar. O gaúcho ainda vota em líderes políticos tradicionais, exibe sua homofobia como se fosse uma virtude, e não esconde seu preconceito racial. O machismo, responsável por um mundo distorcido, ainda é visto como um mérito, e não como doença.

    Temos virtudes que merecem aplauso, não resta dúvida. Mas muitas vezes nosso ufanismo impede que vejamos nossas próprias neuroses. Isso não é nada bom, pois impede que avancemos e que olhemos para o futuro. É para lá que estamos indo, e não para 1835, certo?

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    Mudando de assunto, a polêmica da semana envolve a loira gelada. Não, não estou falando de alguma garota (você entendeu, não?) e sim da cerveja.

    A revelação de que a cerveja brasileira já contém 50% de milho (algumas também contém soja) tirou um pouco do charme da loira gelada. Ah, certamente são produtos transgênicos, e que sequer constam no rótulo da bebida. As fábricas não informam o consumidor acerca do que estão ingerindo, o que é uma irregularidade.

    Para alguns especialistas, isso não afeta a qualidade do produto. Tradicionalmente, a fórmula da boa cerveja envolve água, malte e lúpulo. No mercado brasileiro (que tem a marca do monopólio) essa fórmula deixou de existir há tempos.

    A fórmula dos fabricantes brasileiros é muito mais barata. Mas o preço para o consumidor, como de praxe, não reflete essa características. É mero mecanismo de economia para o fabricante. Por isso mesmo é que estão se multiplican-do as fábricas artesanais de cerveja. No mínimo, a qualidade é outra....

     

  • sexta-feira, 12 de setembro de 2014 16:00

    Problemas da Independência

     

    Quando D. Pedro proclamou a Independência do Brasil, a viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro exigia de cinco a oito dias no lombo de um cavalo. Ou seja, os cavalos da época eram mais rápidos que o fusca do meu tio que viveu em Cerro Largo. Certa feira levou quatro dias para chegar em Caxias do Sul. Jogou a culpa no fusca, mas os parentes juram até hoje que ele esteve em visitas diplomáticas a todas as placas de Brahma Chopp que encontrou no caminho. Mas isso é uma outra história.

    O fato é que ao voltar ao Rio de Janeiro D. Pedro perguntou ao José Bonifácio:

    “O que foi mesmo que eu fiz em São Paulo?”

    “Vossa Alteza tornou o Brasil um país independente”.

    “Meu Deus! Eu sabia que aquela cachaça não me faria bem...”

    Sabemos que antes e depois do ato da independência o clima político no país era terrível. Havia tentativas separatistas em Minas e São Paulo, e também as ameaças de invasão vindas de Portugal. Foram muitas as cartas ofensivas endereçadas a D. Pedro, dizendo para ele deixar daquela aventura, tipo “volta pra casa, guri, mamãe te perdoa”. Foi um período muito complicado.

    ***

    A nossa independência, diferentemente de outros países, não resultou numa república, e sim numa monarquia que manteve os privilégios e até a escravidão. O Congresso da época levou anos examinando a lei que aboliu o trabalho escravo. Como se vê, a lentidão começou lá. Mas logo D. Pedro enfrentaria outro problema bem conhecido nosso. Mal começou a montar o governo da nova nação, foi coberto de recados e visitas pedindo emprego para parentes, cunhados, genros e até para o primo que perdera tudo no baralho. Começava gloriosamente o nepotismo brasileiro.

    Para chefes militares, a recompensa pelo apoio ao novo governo vinha através de algum empreguinho na Corte e também com vastas extensões de terras. Algumas delas, sabemos bem, estão nas mãos de herdeiros de sétima geração até os dias de hoje.

    O mais irônico foi que D. Pedro derrotou as tropas portuguesas, mas aceitou pagar uma indenização milionária a Portugal e ainda ficar com as dívidas que a Corte portuguesa tinha com a Inglaterra. Ou seja, já surgimos endividados.

    ***

    Entre as providências imediatas tomadas por D. Pedro estão as tratativas com países amigos, incluindo os Estados Unidos, para onde teria enviado carta prometendo boas relações comerciais. “Aceitamos o McDonald’s, mas sem espionagem, por favor”.

    Preocupados com os movimentos bélicos em diversos locais do país, D. Pedro se reuniu com a equipe de governo. A sugestão era de outorgar imediatamente uma nova Constituição, o que poderia unir o país. O imperador ouviu atentamente todos os conselhos, e depois declarou:

    “Está bem. Concordo com todas as sugestões. Mas, por favor, organizem logo uma seleção brasileira de futebol. Isso sim é que vai unir esse país. E com quatro zagueiros, bem entendido? Caso contrário, estamos sujeitos a levar uma goleada de algum país europeu amigo...”

  • segunda-feira, 8 de setembro de 2014 10:25

    Os rios que voam

    A expressão é poética, mas na verdade é pura ciência. “Os rios que voam” virou tema de cientistas, ambientalistas e de muita gente que se interessa pelo clima. Por isso, merece comentário.
    A partir da Amazônia formam-se correntes de ar carregadas de umidade que viajam em direção ao centro-oeste, sudeste e sul do Brasil. São elas que estabelecem os regimes hídricos dessas regiões. Em outras palavras, o clima de Santa Rosa, por exemplo, tem tudo a ver com essas camadas de vapor dágua que vêm da Amazônia.
    Não preciso dizer que isso tem relação direta com as chuvas que irrigam as lavouras e abastecem as hidrelétricas e as vertentes. Se essas correntes são desviadas por algum fenômeno climático, temos estiagem.
    A expressão “rios que voam” foi criada pelo cientista suíço Gérard Moss, que desde 2009 vem monitorando o movimento dessas nuvens. Diz ele que cada metro quadrado do planeta evapora 3 litros de água por dia. Um metro quadrado de floresta evapora 5 metros. Ou seja, para o clima a floresta é mais importante que o próprio oceano.
    Toda essa conversa apenas confirma o que já sabíamos. O mundo é interdependente. O que acontece a milhares de quilômetros daqui pode influenciar a nossa vida. E preservar a Amazônia pode evitar catástrofes em grande parte da América Latina, inclusive em Santa Rosa.
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    O Brasil passou décadas discutindo o divórcio. Os casais se separavam, formavam novas famílias, e a lei continuava a dizer que não podiam se divorciar. É a situação típica em que a realidade avança e a lei continua arcaica. As pessoas consolidam relações humanas não obstante os atrasos legais.
    Agora estamos discutindo a possibilidade do casamento entre homossexuais. Virou até briga envolvendo candidatura à Presidência. Parece que estamos vendo o filme novamente. O fato é que as pessoas seguem sua orientação sexual, erguem lares, partilham patrimônio e até constituem família mediante adoções. Mas a lei insiste em ignorá-los.
    O pastor Malafaia, raivoso de mentalidade medieval, adotou como estratégia atacar os homossexuais. A técnica é conhecida historicamente. Para manter o meu rebanho unido eu preciso de um grupo “inimigo”. No caso, os gays.
    Talvez ele pretendesse atacar outros grupos, como os negros, os ateus ou os comunistas, mas para isso ele não conseguiria a simpatia de suas ovelhas. Pelo menos, soaria politicamente incorreto. Por isso, agredir pessoas de orientação sexual diferente é fácil. Mas é coisa muito atrasada.
    O pior é levar esse tipo de debate para a eleição presidencial, como se o Estado tivesse o dever de decidir com quem você vai para a cama. Chega a ser ridículo. Como se não tivéssemos questões realmente importantes para resolver. Quando vejo esse tipo de “líder religioso” emitir suas opiniões eu lembro imediatamente de seitas como a Ku-Klux-Klan, que fazia de terror o seu único argumento.
    É o que dá misturar política e religião. É sempre um retrocesso.