• quinta-feira, 28 de setembro de 2017 18:56

    Coisas da cidade

    O público que lotou o Centro Cívico na semana passada para ver e ouvir Leonardo Boff provou que a cidade está ávida por eventos de peso, com palestras que nos proponham reflexão. Boff, além de escritor com incontáveis obras, é figura conhecida mundialmente, e consultado tanto pelo Vaticano quanto pela ONU.

    Suas reflexões sobre a crise de sobrevivência do planeta são instigantes. O tema deveria estar presente também em nossas conversas diárias.

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    Donos de bares e lanchonetes estão sendo obrigados pela vigilância sanitária do Município a encerrar seus serviços de cozinha às 22 horas. Confesso que não entendi. Aliás, é quase impossível entender.

    Se um viajante chega à cidade após as 22 horas terá de ir dormir sem jantar? E se eu estiver numa sessão de cinema, também não tenho direito a um lanche depois das 10 da noite? E como ficam os comerciantes que têm de dar inúmeras explicações aos seus clientes após este horário, perdendo também em faturamento?

    Eu não sabia que comidas em geladeiras estragam subitamente às 10 da noite. Estranho, muito estranho...

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    Quando falamos de América Latina, falamos de identidade. Um continente cheio de conflitos, produtor de matéria prima e sempre marcado por regimes autoritários. Nossa identidade foi construída especialmente pela literatura e pela música, seja em língua espanhola, seja em língua portuguesa. Nelas encontramos o que somos. O resto é colonização cultural. Quem não lê nossos escritores e não ouve nossa música jamais compreenderá o que é ser latino-americano. É por isso mesmo que a nossa literatura é vigorosa e nossa música é marcante e eterna.

    Certamente você concordava com isto, não é mesmo, Valdir Nilson Ribeiro?

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    Cansado da Semana Farroupilha, o cavalo zaino Trovão, que vive num haras da região noroeste, me ligou para fazer a seguinte reclamação:

    “Fui retirado do conforto da minha baia sem qualquer consulta. Tive de tomar banho em dia frio, me esfregaram, massagearam e me aplicaram perfumes dos quais não gosto. Cá entre nós, é ridículo um garanhão cheirando a jasmim! Depois fui forçado a participar de três desfiles e oito passeios em grupos. Além disso, fui obrigado a ouvir gaiteiros durante 20 horas por dia. Sem falar nos bailes. Foram quatorze bailes! Me amarravam ao lado da porta de entrada do salão e tive de ouvir gaiteiros e violeiros que não paravam nunca. Alguns deles estão precisando frequentar uma escola de música com urgência. Não me colocaram tapa-ouvidos. Nunca me perguntaram se eu estava gostando da música. Além disso, durante esse tempo todo fui forçado a posar para 485 fotografias com crianças e mulheres gordas me cavalgando. E ainda reclamavam se deixo algum cocô pelas ruas da cidade! Ah, e aquelas pilchas todas cheirando a naftalina! Horrível! Também tive de suportar alguns arranhões de esporas, porque tem gaudério por aí que só usa esporas na semana farroupilha e fica atrapalhado como sapo em cancha de bocha. Solicito seu auxílio, Gilberto, para a criação da “Associação de Proteção aos Cavalos de Desfile”. Já tenho muitos cavalos interessados em assinar a ficha de filiação. Pretendemos, futuramente, apresentar uma pauta de reivindicações aos CTGs e Piquetes de toda a região. Ficaremos agradecidos se você puder divulgar as nossas preocupações na imprensa escrita e trombeteada. Agora, preciso descansar...”

  • sábado, 23 de setembro de 2017 10:46

    Tá todo mundo louco?

    Às vezes tenho a impressão de que as pessoas estão enlouquecendo, que o bom senso e a racionalidade desapareceram. Deve ser alguma doença trazida pela tecnologia, sei lá.
    Veja se não tenho razão, apenas olhando notícias da semana. Os brasileiros estão gastando 200 reais por mês com animais de estimação. As linhas de cosméticos para cães e gatos não param de crescer e já movimentam 25 bilhões de dólares por ano no Brasil. Se reencarnação existe, quero voltar cachorrinho de madame.
    Em Guarulhos (SP) um pai resolveu punir a filha por suas aventuras amorosas. Com um fio elétrico aplicou-lhe uma surra que deixou marcas indeléveis em suas costas. O juiz da cidade absolveu o agressor, pois o pai “tinha o direito” de aplicar o tratamento “educativo”.
    Em Brasília, um juiz decidiu que é possível curar a homossexualidade através de terapia, contrariando toda a ciência e até o Conselho Federal de Psicologia.
    Em Jundiaí (SP) outro juiz impediu a exibição de uma peça de teatro (a peça vem da Escócia) alegando ser atentatória à moral cristã. Detalhe: o tal juiz nem sequer tinha assistido à peça.
    Em Porto Alegre, o movimento fascista MBL conseguiu cancelar uma mostra de arte que discutia as questões de gênero. A principal acusação foi uma pintura que combate a pedofilia (eles entenderam que ela defendia a pedofilia, veja só).
    Em Brasília, um general do Exército diz que está tudo pronto para a intervenção militar no país. Para ele, precisamos moralizar essa coisa.
    Em São Paulo, um grupo de jovens que, tempos atrás, protestaram contra Michel Temer, ainda não foram julgados. Eles foram presos com garrafas de vinagre. Terroristas perigosíssimos!!
    Nesses fatos podemos vislumbrar, sem qualquer profunda reflexão, o fenômeno que une o moralismo com o fundamentalismo. Moralistas radicais andam à solta. O resultado é a ideia equivocada de que autoritarismo pode resolver os problemas. Uma estupidez que conhecemos muito bem.
    Até porque — sempre concordei com a frase famosa — dentro de um exaltado moralista mora um tarado enrustido.
    ***
    Pois também descobri a maior doideira dos últimos tempos. Existe, no Brasil e em outros países, diversas organizações que dizem que a terra é plana. Para eles, a terra é chata (como um disco) e coberta por uma espécie de cúpula, dentro da qual estão o sol e a lua (que seriam muito menores do que acreditamos).
    Existem grupos que pensam assim em diversos países. Tudo começou, é claro, nos EUA, onde acreditam até em Donald Trump e no Mickey Mouse. As comunidades no Facebook já tem mais de 77 mil adeptos. No Brasil, existe a página “A terra é plana” (pode pesquisar), que é seguida por milhares de pessoas. Existem páginas semelhantes em outros países (em inglês).
    Eles se denominam “terraplanistas”, misturam teorias cabalísticas e textos religiosos, argumentando enfaticamente que a ciência está errada. Negam as viagens espaciais, a teoria da evolução, a lei da gravidade e dizem que a Terra não é um planeta.
    Negam também o heliocentrismo (o sol no centro do sistema e os planetas girando em torno dele). Dizem que o petróleo é “produzido” pela Terra de modo constante. E, finalmente, negam também a existência do espaço sideral.
    Acho que vou deixar de pesquisar coisas do gênero. Preciso cuidar da minha saúde mental. Mas, advirto: os doidos estão se multiplicando...

     

  • sexta-feira, 15 de setembro de 2017 14:44

    Tempestades

    A tragédia da semana foi o furacão Irma, no Caribe. Não conheço furacões. O único que conheci se chamava Dorilda, morou algum tempo perto da casa dos meus pais, e arrasou dois ou três casamentos na vizinhança. Depois foi embora e nunca mais a vi. Ficou conhecida como “furacão Dorilda”, aquela do perfume de alfazema que tomava conta do quarteirão.

    Por aqui, no noroeste do Rio Grande, as únicas coisas que podem nos assombrar são alguma tempestade ou enchente, coisa pouca.

    Na região sul da América não temos ciclones, tufões ou furacões. Normalmente, estão acima da linha do equador. Pois é essa linha magnética, que divide o planeta em duas partes, que impede o deslocamento desses monstros para a América do Sul. Curioso, não é?

    Antigamente, na época das navegações, a linha do Equador marcava uma divisão cultural e religiosa. Abaixo do Equador existia o mundo novo, selvagem e sem religião. Surgiu então a expressão que, séculos depois, Chico Buarque tornaria famosa em uma de suas músicas: “não existe pecado do lado debaixo do Equador”. O comportamento sexual dos índios causava espanto nos europeus do século 16.

    Pois agora, temos outra divisão. Os furacões ficaram do lado de lá.

    ***

    O assustador furacão Irma arrasou regiões inteiras no Caribe e nos mostrou uma realidade que às vezes não percebemos e que tem a ver com as agências de notícias internacionais, habituadas a distribuir a informação de forma inadequada.

    O furacão surgiu no Atlântico e foi se aproximando do continente americano causando estragos imensos na seguinte cronológica: Dominica, Guadalupe, Porto Rico, Ilhas Virgens, República Dominicana, Haiti, Jamaica, Ilhas Cayman, Cuba, Bahamas, e depois chegou à Flórida.

    E o que é que nós vimos nas notícias da TV e jornais? Somente notícias da Flórida! Parecia que nada estava acontecendo no mundo, a não ser a mobilização da Flórida e estados vizinhos, com cobertura 24 horas das agências de notícias. Países inteiros arrasados, mas a notícia importante era Miami.

    Perceberam onde está o erro, onde o noticiário internacional fracassou mais uma vez? O que realmente interessava? A Flórida, pois lá estão confortavelmente acomodados os jornalistas, à espera de relatos dos turistas.

    A preocupação deles parece clara. Imagina se o furacão causa o fechamento da Disney World?! Que horror!!

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    Ao contrário do que as pessoas imaginam, os furacões do Caribe recebem nomes femininos e masculinos, que são repetidos num ciclo de seis anos. Por exemplo, o nome Irma designará um novo furacão em 2023.

    Curiosamente, porém, os furacões mais devastadores têm nome de mulher. Pode ser mera casualidade, mas conheço muitas mulheres capazes de fazer estragos enormes. Podemos chamá-las de mulheres-tempestade.

    Existem dois tipos de mulheres-tempestade: a mulher-furacão e a mulher-tsunami. Não sabia disso? Pois observe com atenção. A mulher-furacão não controla a própria fúria. No menor desentendimento com o companheiro ou marido ela destrói o armário, a cozinha e é capaz de botar fogo na casa. Já a mulher-tsunami age de forma diferente. Ela chega fazendo ondinha, uma maré calma e sedutora. Mas quando vai embora leva tudo de arrasto, a casa, o carro, os móveis, o saldo da poupança.... Fique atento, pois, meu amigo...

  • sexta-feira, 8 de setembro de 2017 08:26

    Setembro tem sentido

    Nós, gaúchos, lembramos de modo automático de duas datas importantes do mês de setembro: a Independência e a Revolução Farroupilha. E o que é mais importante: são dois feriados que podem virar feriadões.
    A independência aconteceu em 1822, naquela cena clássica e sempre desmentida: Dom Pedro garbosamente montado num vistoso cavalo, às margens do riacho Ipiranga ainda não poluído.
    Já a invasão de Porto Alegre, momento que ficou como comemorativo da revolução farroupilha, aconteceu em 1835, e deu início à guerra.
    Apenas 13 anos separam os dois acontecimentos. Considerando que, na época, as notícias andavam a cavalo, ou sobre carroças, é bastante provável que muitos brasileiros de sul a norte sequer tinham tomado conhecimento da tal “independência”. Até porque o império que antes era português apenas tinha mudado de nome. Continuava sendo império, agora brasileiro, com imperador e tudo mais.
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    O fato é que Dom Pedro mal tinha organizado a casa e já recebia notícias desagradáveis sobre uma rebelião no sul. Os proprietários de terra reclamavam das taxas de comercialização de seus produtos e morriam de medo da concorrência da carne uruguaia e argentina.
    Mas temos de lembrar que as ideias republicanas também ajudaram a criar esse clima, por influência da Argentina (independência em 1816) e Uruguai (que conseguiu a independência definitiva do Brasil em 1828).
    Veja a sequencia: 1816, 1822, 1828 e 1835. O clima político na época era mesmo fervilhante, intenso, e cheio de ideais republicanos. Por isso é fácil entender que a revolução farroupilha não foi nenhum acidente, embora as razões econômicas do movimento fossem a preservação dos interesses dos latifundiários gaúchos e suas charqueadas.
    Mas além desse interesse imediato, o Rio Grande de então estava cercado pelo ideário da República, que varria toda a América do Sul. Não foi só a taxa de impostos do Império.
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    Pois esses dois feriados nos dão a oportunidade, também, de comemorar com churrascos espetaculares, regados com muita bebida e dança. Tudo sem qualquer remorso ou dor na consciência. Acho até que churrasco comemorativo não engorda...
    Se alguém mostrar espanto com o tamanho do churrasco, podemos responder muito solenemente:
    — São os ideais republicanos, tchê! Estamos comemorando desde 1835.
    Haja paleta, costela e picanha! O fato é que, aos trancos e barrancos, terminamos por construir uma cultura “gaúcha”, que é polêmica até hoje.
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    Mas lembro que não são apenas essas datas que marcam o mês de setembro. Existem outras. Faço questão de lembrar que no dia 22 começa a primavera, estação que dá por encerrado um inverno que não existiu. Estranho isso, não é? O inverno deste ano durou três dias!
    Pois, então, seja bem-vinda a primavera! Acho que vamos comemorar com um churrasco...