• sexta-feira, 8 de maio de 2015 08:49

    Da criação do mundo

    Acho que a Assembleia Legislativa do RS anda meio sem trabalho. É só ver o projeto que está causando polêmica na casa dos deputados gaúchos: a deputada Liziane Bayer (PSB) quer que as escolas ensinem o criacionismo.
    Pois bem. É surpreendente que o tema ganhe espaço nos debates do legislativo, por isso acho que eles estão com bastante folga no trabalho.
    O criacionismo tem por base as histórias dos livros sagrados, especialmente a Bíblia, e as leva ao pé da letra. Esse é o erro. Para eles, o mundo foi criado em seis dias. E foi criado há mais ou menos 6.000 anos. Ou seja, é uma concepção puramente religiosa, baseada na fé.
    Já a verdade científica é bem diversa. Até a Igreja Católica, que já mandou para a fogueira quem contrariasse seus dogmas, hoje acata o que a ciência revelou nos últimos séculos. A evolução das espécies é realidade observável pela ciência, que comprova a existência de seres humanos há milhões de anos. O universo, bilhões de anos.
    A questão é separar o que é simbolismo da fé, das religiões, daquilo que é constatação científica. Não há oposição ou contestação entre uma e outra. A evolução não significa, necessariamente, que as pessoas não possam acreditar em Deus. Mas para as mentes atrasadas, a questão continua a ser esta, infelizmente.
    ***
    Isso, porém, não é novidade. Pesquisa feita nos EUA revelou que quase metade da população não acredita na evolução, preferindo acreditar na história de Adão e Eva e do barro que teria sido soprado pelo Criador. No Brasil, chega a 25% da população.
    Pobres dos professores de biologia!
    ***
    Falando em evolucionismo, lembro da história da menina que perguntou à mãe sobre a origem da espécie humana. A mãe explicou:
    “Deus criou Adão e Eva. Assim a raça humana se reproduziu e se multiplicou”.
    Depois, a menina fez a mesma pergunta ao pai e este explicou:
    “Há milênios existiam macacos que evoluíram até chegarem aos humanos que você conhece hoje”.
    Confusa, a garotinha voltou a comentar o assunto com a mãe e esta respondeu:
    “Olha, filha, é muito simples: eu falei da minha família e o papai falou da dele...”
    ***
    Alerta para a Prefeitura de Santa Rosa. Aqueles postes de metal, instalados no centro da cidade para a iluminação natalina, são ocos e estão cheios dágua. A cada chuva, os postes enchem. Para esvaziar pode levar semanas, pois a evaporação é lenta.
    Constatei o fato a partir de vídeo divulgado na internet, pois o fato ocorreu em outra cidade do país. Observando os postes em Santa Rosa, dá para ver que, em alguns deles, a base está apodrecendo por ação corrosiva da ferrugem.
    Ou seja, tem água lá dentro. E possivelmente mosquitos....

     

  • sexta-feira, 24 de abril de 2015 14:44

    Tiradentes

    É estranho como não debatemos o significado da Inconfidência Mineira, lembrada no feriado da última terça-feira. Aliás,
    “lembrada” chega a ser um exagero. É um feriado, apenas. E o debate sobre o significado da Inconfidência acaba em nada.
    Talvez isso se deva à importância que nós, gaúchos, damos à Revolução Farroupilha, embora ambas tenham tido motivação semelhante. Enquanto os mineiros queriam a independência em relação a Portugal (em 1792), os gaúchos buscavam a independência em relação ao governo central da época (em 1835).
    Pois a figura de Tiradentes ainda é a de um herói da república. Traídos por Silvério dos Reis, Tiradentes e seus amigos foram presos. O único a reconhecer que conspirava contra Portugal foi Tiradentes. Passou dois anos na prisão e depois foi morto, esquartejado e seu corpo exposto à execração pública.
    Na verdade, ele nunca foi um herói ou expoente político. Tinha suas ambições, mas jamais destacou-se como celebridade da época. Exerceu diversas atividades para sobreviver e surpreendeu a todos ao dizer: “Eu sou o único culpado”. O inusitado é que Tiradentes também foi coletor de impostos, tendo se revoltador justamente contra a alegada cobrança injusta de tributos.
    Quando o Império português decidiu cobrar as dívidas vencidas dos nobres de Minas Gerais a coisa complicou. Aliás, isso não é novidade no Brasil desde aquela época. Ainda hoje é só tentar cobrar os bilhões da sonegação e você vai ver o circo pegar fogo!
    Mas o que aconteceu com o traidor, se na época não existia a tal “delação premiada”? Joaquim Silvério dos Reis entrou para a história como o dedo-duro, o alcaguete. Endividado, decidiu denunciar o movimento libertário esperando o perdão das dívidas. Parte de suas dívidas foram efetivamente perdoadas, com a ajuda de alguns políticos ligados à Corte Portuguesa. Mas passou o resto da vida com a fama de traidor. Dizem que o seu túmulo, em São Luiz do Maranhão, foi destruído por populares pouco depois da sua morte.
    ***
    Após a morte de Tiradentes, os republicanos trataram de divulgar sua imagem e sua morte a fim de favorecer a ideias de independência. Também os militares (alferes era o equivalente a subtenente) passaram a utilizar a imagem do mártir para fortalecer as corporações.
    Mas o Tiradentes da época não despertou comoção popular. Sua imagem de mártir foi obras de outros, com interesses diversos. Até a sua atuação como “subversivo” foi de pouca importância, conforme os documentos da época comprovam.
    Mas o simbolismo de Tiradentes é inegável.
    Ajudou a divulgar as ideias de independência quando isso era tido como crime abominável. Aliás, o poder do império não deixava muita margem a discussões, embora tenha havido um longo processo até a condenação final. Ficou a imagem do mártir e do homem que auxiliou a abrir as veredas da independência que aconteceria poucos anos depois.
    ***
    E a professora perguntou ao Joãozinho:
    “Diga tudo o que você sabe sobre o Tiradentes”.
    “Ele foi enforcado, professora”.
    “É só isso?”
    “Qual é, profe? O cara foi enforcado e a senhora acha pouco?”

     

  • sexta-feira, 17 de abril de 2015 22:10

    O mundo do trabalho

    O jurista e político gaúcho Paulo Brossard talvez tenha sido o último de uma estirpe de políticos que unia a atuação no
    parlamento e o envolvimento jurídico-social. Um tribuno, como se dizia tempos atrás. Por isso mesmo, foi fundamental na redemocratização. Morreu esta semana, e as homenagens a ele dirigidas foram discretas, o que é de lamentar.
    Mesmo sendo um político tradicional, era um conservador ilustrado, defensor incondicional da Constituição e das liberdades. Quando o Brasil começou a se livrar da ditadura, Brossard foi uma figura de ponta ao denunciar as violações constitucionais. Grande figura, deveria servir de exemplo a muito político chinfrim que anda por aí nesses tempos ingratos...
    ***
    Também morreu esta semana um sujeito que teve uma vida espetacular e deixou um grande número de livros que poderemos ler pelos tempos afora. Estou falando do uruguaio Eduardo Galeano, que em seus textos misturava indignação social e paixão pelas letras. Também era apaixonado por futebol. Nem vou falar do seu clássico “As veias abertas da América Latina”.
    Você pode pegar qualquer um de seus livros e terá uma ótima leitura pela frente. Mais de uma dúzia já foram publicados no Brasil. Veja algumas frases exemplares do Galeano:
    “A caridade é humilhante porque é exercida verticalmente, de cima; a solidariedade é horizontal e implica em respeito mútuo”.
    “Eles vieram. Eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra. E disseram: “Fechem os olhos e rezem”. E quando abrimos os olhos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia”.
    ***
    Pouca gente entendeu a PEC 4330, que libera a terceirização no trabalho. Isso porque estavam todos atentos às discussões do inquérito da Petrobras.
    Para alguns, parece coisa que afeta apenas o trabalhador (aquele visto como operário, do chão da fábrica). Mas aí está o grande engano. A proposta acaba com algo muito importante no mundo do trabalho, a lealdade e o compromisso entre o empregado e o empregador. Demitir e terceirizar podem se tornar rotina. Mas a vida corporativa da empresa também irá para o espaço.
    Sempre soubemos que algumas grandes empresas se tornaram grandes justamente porque existia, no ambiente de trabalho, fatores como confiança, lealdade, comprometimento, desejo de crescimento mútuo, isto é, da empresa e do indivíduo.
    Pois a terceirização integral, como prevista, acaba com isso. Haverá incontáveis empresas prestando serviços a outras empresas. E haverá empresas praticamente sem empregados.
    A reforma, portanto, atinge brutalmente todos os que vivem do trabalho, pouco importando o quanto recebem. Ou seja, também atinge diretamente a classe média, seja na iniciativa privada, seja na esfera pública. Acho que poucos perceberam isso...

  • sexta-feira, 15 de abril de 2016 14:09

    Coisas da cidade

    Curiosa a informação que li no site do Noroeste. Uma turma de estudantes do Curso Técnico em Meio Ambiente, do Instituto Federal Farroupilha, realizou trabalho de limpeza em duas áreas do Distrito Industrial, cobertas por mata nativa, e o material recolhido foi levado pela Prefeitura. Até aí, nada demais. O que surpreendeu foi o volume de lixo. Foram sete caminhões!

    Quando falo em “lixo”, estou me referindo a todos aqueles objetos que não se decompõem, que não são absorvidos pela natureza, como objetos plásticos, eletrodomésticos, televisores etc.

    Sete caminhões de lixo em uma área relativamente pequena! É dose!

    ***

    Calico Ribeiro, que veio de Livramento e se aquerenciou por aqui, é compositor de músicas nativistas com estilo muito particular. Algumas de suas canções são famosas e gostosas de ouvir.

    Pois o Calico está completando 40 anos de carreira, que começou quando acompanhava outros músicos ou integrava grupos musicais da região.

    Para comemorar a data está lançando o disco “Calico Ribeiro - 40 anos de estrada e poesia”, que tem uma bela produção gráfica e traz composições antigas mescladas com inéditas. Para ouvir e ter na estante.

    ***

    Acontece hoje à noite (sexta-feira) no auditório da Rede (Av. América, 785), interessante painel de debates sobre a questão política brasileira na atualidade. O tema principal, evidentemente, é a nossa frágil democracia, as forças que estão em jogo e o futuro do Brasil.

    Um momento precioso para esclarecimentos e questionamentos, especialmente quando o golpe está em andamento nos gabinetes de Brasília. Sua presença é importante pois o que anda faltando é redescobrirmos a importância de sermos democráticos.

    Pois dizem que a última gravação de telefonemas divulgadas pela PF dá conta de um diálogo entre Dilma e o vice, Temer:

    — Alô, Temer. Alguém me disse que antes do galo cantar o Temer vai me trair três vezes.

    — Desculpe, Presidente, mas a senhora se enganou sobre o texto da Bíblia. Na verdade V. Excelência deveria dizer: “antes do galo cantar três vezes o Temer vai me trair”.

    — Ahhhá! Te peguei!

    ***

    E já está rolando, desde a última quarta-feira, a 12ª Feira do Livro, no largo do Centro Cívico (Rua Buenos Aires). É sempre bom dar uma passada por lá, seja para encontrar amigos, seja para encontrar livros.

    Há atividades diversas, como oficinas, apresentação de projetos, debates, orquestras e, é claro, lançamentos de livros de autores da região.

    Minha contribuição, desta vez, é o lançamento do romance “A Varanda” (Ed. Livrus - São Paulo), a partir das 10 horas de amanhã.

    Um bom motivo para você tomar um chimarrão numa manhã de sábado...