• sexta-feira, 21 de março de 2014 09:27

    Confianças e broncas

    Brasileiro desconfia dos políticos? Bem, isso nós já sabemos. Mas o que não sabíamos constou de uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada em todo o país.

    Na verdade, o brasileiro desconfia até da própria sombra.

    Nós brasileiros acreditamos que vivemos numa sociedade dividida entre “manés” e “malandros”. Mais de 80% afirma que os brasileiros agem sempre querendo tirar vantagem. Somente 16% acham que os outros agem com boa-fé, corretamente.

    A idéia de que o brasileiro burla normas para tirar vantagem é recorrente. É o “jeitinho” de sempre. Buscamos atalhos, soluções facilitadas. O brasileiro ultrapassa pelo acostamento, fura fila, não devolve o troco, cola na prova, pede um “favorzinho” ao funcionário público, e assim por diante.

    Se, por um lado, o brasileiro defende uma sociedade sem corrupção, nas pequenas coisas ele não tem essa ética.

    Isso resulta num quadro inconveniente. Desconfiamos de todos. Desconfiamos até mesmo de pessoas da nossa família e suspeitamos do vizinho e do colega de trabalho. Confiamos desconfiando.

    O quadro revela uma realidade em que as relações sociais são frágeis. Somos alegres e expansivos, mas a desconfiança não aprofunda as relações e não permite a construção de iniciativas coletivas ou grupais. Daí a dificuldade das organizações de voluntariados, como entidades caritativas e ONGs.

    Afinal de contas, a solidariedade exige confiança. Uma sociedade desconfiada é uma sociedade que não avança, se é que você me entende...

    ***

    Broncas da cidade:

    Parte do muro do estádio municipal Carlos Denardin desabou num temporal, quase dois anos atrás. O buraco ainda está lá, visível para quem transita pela Avenida América.

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    Não é preciso longo discurso para dizer que a primeira impressão que temos de uma cidade é a sua via de acesso. Pequena ou grande, ao entrarmos numa cidade somos influenciados por essa primeira impressão.

    Pois bem. Nesse quesito Santa Rosa está muito mal.

    Nossos trevos de entrada (pelos meus cálculos são seis) estão em completo abandono. Visitantes ocasionais ficam assustados. Em que cidade estamos entrando? Será que toda a cidade é assim, abandonada e em ruínas?

    A frase pode ser exagerada, mas tente se colocar na pele de um visitante que chega a Santa Rosa pela primeira vez. No mínimo, levará um susto...

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    A polêmica mais recente envolve a proposta do “Monumento à Soja”, ao custo de R$ 1,56 milhão, cujo projeto já estaria em andamento.

    Houve bronca dos artistas locais, que não foram consultados, ou foram consultados quando tudo já estava definido. Outros questionam o proveito de tal monumento e sua efetiva representatividade para a cidade.

    Sem entrar nesse mérito, acho a idéia do monumento meio patética. Alguém mais irreverente já propôs que seja erguido um monumento à mandioca, que surgiu por aqui antes da soja. Seria curioso, mesmo.

    A questão parece ser outra. Mais simpática e efetiva seria uma homenagem ao colono, que desbravou a mata, implantou a cidade e, bem mais tarde, recebeu a soja, sempre em sua pequena propriedade. O que você acha?

     

     

  • sábado, 15 de março de 2014 20:27

    As bruxas

    Contam os historiadores que, entre o século XIII e o século XIX, cerca de 1 milhão de mulheres foram executadas na Europa sob acusação de bruxaria. Bastava ser pobre, viúva ou abandonada pelo marido para surgirem as acusações. Os julgamentos eram sumários e a forca e a fogueira logo estavam prontas. A acusação de bruxaria era, é claro, uma mera desculpa para a brutalidade incontida.

    A história da mulher, ao longo dos séculos, é uma interminável narrativa de violência, segregação, humilhação e preconceito. O mais estranho é que ainda hoje convivemos com resquícios desse comportamento animal.

    O mundo, hoje, está repleto de desvios de comportamento que têm origens na história, na cultura e até na formação educacional e psicológica dos indivíduos. Racismo, homofobia e xenofobia são fenômenos que podemos encontrar em qualquer lugar.

    Porém, nada é tão anacrônico, nada é tão atrasado quanto o sexismo (no caso, o machismo), pois ele é a melhor caracterização da pessoa que não consegue conviver nem com ele próprio e que, talvez por isso, não consegue compreender os seres da sua própria espécie.

    ***

    Gosto de uma frase cujo autor não lembro nesse momento (fico devendo essa informação). Mas a frase é a seguinte, lembrando a conhecida frase bíblica:

    “Só existe uma razão para amarmos os outros seres humanos. Somos da mesma espécie, e estamos vivos”.

    Em outras palavras, não precisamos de razões de cunho religioso, pois às vezes as religiões também alimentam o ódio. O fundamental é entender quem somos. E, também, aceitar que em breve não estaremos mais aqui. Talvez assim sejamos capazes de amar os outros (todos os outros!).

    ***

    Para compreender a história da mulher (que é também a história humana), vale uma dica de leitura. “O Segundo Sexo”, da francesa Simone de Beauvoir, é um livro extraordinário obra que analisa a aventura civilizatória e, é claro, o longo e doloroso processo de emancipação feminina.

    A erudição da autora é algo incomum, e a leitura marca-nos como ferro em brasa. A edição brasileira é antiga e pode ser encontrada em muitas bibliotecas.

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    O certificado de filantropia da Emater foi renovado até 2017. Um grande alívio em razão da ameaça que pairava sobre a entidade. Agora, serão feitos ajustes jurídicos que permitam a renovação definitiva.

    Para nós, que vivemos numa região caracterizada pelas pequenas propriedades agrícolas, a Emater é crucial. Sem ela, cerca de 250 mil famílias ficariam sem assistência. Para quem vive na colônia a Emater é uma espécie de entidade protetora e amiga. Suas orientações técnicas são sempre apropriadas e, não raro, o técnico se torna um amigo da família do agricultor, criando relações da mais pura confiança.

    Nesse episódio, vimos um raríssimo envolvimento de toda a comunidade gaúcha. Lideranças de todas as frentes se uniram em defesa da Emater (que também significa defesa da nossa economia).

    Essa mobilização do Rio Grande em favor da Emater prova que a união tem força, sim.

  • sexta-feira, 7 de março de 2014 16:53

    Bicharada

    Quantas vaquinhas são necessárias para pagar o cachê do Roberto Carlos para a propaganda da Friboi? Vi na imprensa que o cachê ficou em modestos R$ 25 milhões.

    Se considerarmos a média de R$ 8,17/kg, paga no centro do País para animais com peso médio de 500 kg, precisaríamos de 6.120 bois para pagar o Rei. Se considerarmos somente a carcaça, já descartadas partes de menor aproveitamento, o número sobre para cerca de 10.000 cabeças. Se pagarem o Rei em “espécie”, ele vai precisar comprar uma fazenda de tamanho considerável...

    ***

    Alguns ingênuos vêm divulgando nas redes sociais que a Friboi “pertence ao filho do Lula”, uma fantasia que lembra muito as teorias conspiratórias, mas que pode soar como verdade. Por isso é que as redes sociais estão perdendo credibilidade rapidamente.

    A Friboi, na verdade, é uma gigantesca corporação com unidades em 22 países de todos os continentes, incluindo EUA, Austrália e Canadá. É a maior empresa do mundo no setor de carne bovina. Também é a maior produtora de frangos do mundo (nada menos que 12 milhões de aves por dia!). E vende seus produtos em 150 países!

    Surgiu em 1953 (há 60 anos, portanto), e desde lá não para de crescer. É o que podemos chamar de multinacional brasileira. Parte do capital pertence a uma tradicional família paulista, e a maior parte é negociada na Bolsa de Valores.

    A Friboi, hoje, é operadora das marcas Seara, Friboi, JBS, Swift, Pilgrim’s Pride, Doux Frangosul, Leco, Vigor, Amélia, Anglo, Bertin, entre outras.

    Por isso, quando você divulga informações na rede social, confira sua veracidade e tome cuidado. Porque, em breve, a Friboi poderá criar algum frigorífico que realize abate de jumentos.

    ***

    Já que estamos falando em bichos, a novidade regional é a cobra às margens do rio Uruguai, cuja presença ainda não foi confirmada. Atenção: esqueçam os comentários maldosos envolvendo sogras perdidas em Porto Mauá. Mas já surgiram histórias de pescador envolvendo a coitadinha.

    Um amigo contou que se deslocava, à noite, para sua casa de veraneio às margens do Uruguai. Em certo local, foi obrigado a parar porque havia um eucalipto caído sobre a estrada. E acrescentou:

    “Saí do carro e logo o eucalipto começou a se mover e sumiu no meio do mato. Fiquei na dúvida. Era um eucalipto ambulante ou era a cobra castelhana?”. Como se vê, pescador não perde a oportunidade...

    ***

    E os peixes que desapareceram do açude no interior de Três de Maio? O fato virou notícia nacional. Afinal, não é toda hora que se vê o esvaziamento de um açude e o roubo de meia tonelada de peixes.

    A dúvida, nas investigações, é a seguinte: os ladrões usaram algum tipo de mágica para que os peixes entrassem nas sacolas sem resistência e em silêncio? Ou o proprietário do açude tinha retornado de alguma festa de kerb?

    ***

    Pois é, o Carnaval passou. Para muitos, agora começa 2014. Para outros, porém, agora tem início aquele período chato entre o Carnaval e o Ano Novo.

  • sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014 16:59

    Outros protestos

    Os protestos também produzem ideias criativas. Estudantes de várias capitais brasileiras estão fazendo movimento para protestar contra fatos que não estão na pauta da imprensa. São protestos lúdicos e bem humorados. Veja.
    O mais criativo envolve o boicote aos preços praticados em bares e restaurantes (se você viaja como turista sabe o que é essa exploração).
    Um dos movimentos afirma que a moeda brasileira deveria chamar-se “$urreal”, parodiando o nosso real. E citam o exemplo de um fichário escolar vendido a R$ 200 e uma jarra de suco de frutas a R$ 52.
    Muito bem. Você pode dizer que o dono do bar ou restaurante pode fixar o preço sem perguntar a ninguém. Mas, em contrapartida, nada impede que preços extorsivos sejam publicados na internet, por exemplo, produzindo um movimento de indignação dos consumidores.
    Outro movimento é o “isoporzinho”. Como os preços de lanches e bebidas nas praias estão pela hora da morte, os participantes incentivam as pessoas a levarem seu isopor e consumir a preços bem baixos. É comum cobrarem R$ 10 por uma latinha de cerveja em nossas praias. E os vendedores não são considerados assaltantes!
    Os participantes fotografam vitrines e divulgam nas redes sociais os preços abusivos. Um exemplo é uma embalagem de batatas fritas cujo preço “normal” é de R$ 6,00 e foi encontrada numa loja de conveniência de um posto de gasolina por R$ 16,85. A divulgação (ou protesto) tem a mensagem bem simples: “não pague e avise seus amigos”.
    Pensando bem, algo assim poderia acontecer na cidade, você não acha?

    Fevereiro é o mês em que os bancos brasileiros divulgam seus balanços. É de praxe, e segue o que determina a lei.
    Mas nós, brasileiros, sempre ficamos chocados com o que vemos. Não há como evitar um sentimento de impotência diante do que é divulgado. No Brasil, banco não é negócio. É mamata. É ganhar dinheiro fácil, aos borbotões.
    Veja só que espantoso. O lucro dos 4 maiores bancos brasileiros, em 2013, é maior do que o PIB de 83 países! É isso mesmo. Muitos países, em diversos continentes, não produzem riqueza equivalente aos lucros dos bancos brasileiros.
    Estamos falando de lucros líquidos, isto é, já descontadas todas as despesas e investimentos. É lucro limpo. Cálculos superficiais dão conta de que a soma dos lucros dos banqueiros, em 2013, se aproxima de R$ 100 bilhões. Isso equivale a 3 orçamentos do Bolsa Família, e poderia pagar 3 Copas do Mundo de futebol.


    Analisando sob a ótica macroeconômica, isso significa transferência de valores monetários da população para os banqueiros. Em outras palavras: a poupança das empresas e dos cidadãos se desloca para o patrimônio dos bancos.
    É um gigantesco e brutal deslocamento de riqueza da atividade produtiva para a rede especulativa. Estamos mais próximos do cassino do que da fábrica. E isso não é nada bom.


    Você sabia? Imagine que você tenha depositado numa poupança o valor de R$ 1.000,00 em fevereiro de 2004 (dez anos atrás). Hoje você estaria com a importância de R$ 2.066,15.
    Em contrapartida, se você tomou por empréstimo o saldo de seu cheque especial, também de R$ 1.000,00, sua dívida, dez anos depois, estaria em R$ 50.195.041,03 (utilizei a taxa de um dos bancos que atuam na praça). Além disso, já teria pago uma pequena fortuna em tarifas.
    Dá para entender os lucros?