• quinta-feira, 3 de abril de 2014 20:50

    A bomba

    Esta semana, nos 50 anos do golpe de 1964, a imprensa brasileira foi invadida por incontáveis matérias tratando do tema. Rever o período é algo necessário porque precisamos conhecer para que não se repita. O período de 21 anos do regime deixou pouca coisa para o Brasil além dos mortos. Mas passou, e precisamos seguir em frente, até mesmo para tentar resolver os problemas que existiam naquela época e que continuam a nos atormentar. Perdemos duas décadas, este é o saldo.

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    Pois lembrei esta semana um fato que continua na memória. No final da década de 70, o Brasil caminhava para a democracia. Na época, eu era um adolescente que gostava de revista em quadrinhos, romances e jornais. Naturalmente, era curioso com o que estava acontecendo.

    Pois um belo dia a notícia correu pela cidade. A banca de revistas, situada na Avenida Rio Branco, tinha sido alvo de atentado na madrugada. Uma bomba incendiária reduzira a pó a banca que eu frequentava diariamente.

    Para a opinião pública, o fato foi represália pela venda de jornais independentes como “O Pasquim”, “Movimento”, “Cooperjornal” e outros que tratavam de temas políticos sob o ponto de vista da oposição. A ditadura estava nos seus estertores.

    O resultado é que fiquei algum tempo sem minhas leituras. E a pequena Santa Rosa da época entrou para o noticiário nacional. Afinal, os atentados vinham acontecendo em todo o Brasil. Nada foi revelado, e também não se confirmou a versão de que o crime fora encomendado por políticos locais.

    Pois dias atrás, na TV, o polêmico general Newton Cruz revelou que, realmente, os atentados a bomba eram praticados por grupos que desejavam apenas conturbar e retardar o processo de democratização do Brasil. Não conseguiram, como se vê.

     

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    Mudando de assunto. É hoje a inauguração do “Ponto de Leitura”, uma parceria da ONG Cidade Interativa com o CASF (Centro Assistencial Sagrada Família), lá na Vila Agrícola.

    A Cidade Interativa entra com o acervo de livros e vídeos e o CASF com a infraestrutura para atender à numerosa comunidade do entorno, oferecendo cultura gratuitamente.

    Isto sim é uma excelente notícia!

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    Hoje é 4 de abril. A data lembra o assassinato (em 1968) do líder norte-americano Martin Luther King Jr., pastor protestante e ganhador do Nobel por sua luta contra o racismo e a defesa da não violência. Luther King, morto aos 40 anos, tornou-se um símbolo da paz e da solidariedade.

    Vale lembrar a data porque hoje, no Brasil e no mundo, ainda há energúmenos que manifestam suas opiniões racistas sem qualquer vergonha. É triste.

    Confesso que não compreendo como funciona o cérebro de pessoas que manifestam seu ódio contra índios, negros, mulheres, homossexuais, judeus e religiosos de matizes diversos.

    Deve haver um problema, alguma carência de neurônios, sei lá.

    Após milênios de processo civilizatório, a existência desses preconceitos mostra que ainda temos muito a caminhar. Ou então que a civilização não alcança a todos de modo igual. Enquanto a inteligência humana avança, alguns ficam para trás. Talvez seja isso.

  • sexta-feira, 28 de março de 2014 20:32

    Leituras e abraços

    Você gostaria de ver seus filhos lendo, familiarizados com a leitura e o texto, esclarecidos e capazes de enfrentar os problemas da vida? A resposta é óbvia. Ver os filhos como bons estudantes e bons profissionais é o sonho de todos os pais.

    Dias atrás li um artigo interessante do jornalista Alessandro Martins, que elencou os fatores que, durante a vida dele na casa dos pais, o transformaram em um leitor assíduo. Concordo com ele e acrescento alguns pontos, para que você possa refletir. Acho que sou apreciador de livros por conta de fatos que aconteceram na minha infância. Os pais que realizam bem essa tarefa seguem regras muito simples. A lista é pequena mas eficaz. Veja só.

    (A) Pais inteligentes presenteiam os filhos com livros (esse gesto transforma a leitura em um valor, algo a ser apreciado e estimado).

    (B) Levam os filhos a livrarias e bibliotecas, e associam esses passeios com coisas divertidas e prazerosas (ler não é sofrimento; ao contrário, pode ser uma diversão que as crianças ignoram porque ninguém as lembra disso).

    (C) Não têm preconceito contra gibis (revistas em quadrinhos também são leitura, despertam a curiosidade e a imaginação).

    (D) Contam histórias aos filhos (tarefa difícil mas necessária; desperta a imaginação e mostra que compartilhar conhecimento fortalece a família).

    (E) Levam os filhos ao cinema (milhares de filmes têm origem nos livros, e podem estabelecer laços entre o que o escritor criou e o que foi transposto para a tela).

    (F) Nunca obrigam os filhos a ler (a leitura deve cativar, e não transformar-se num compromisso pesado e desagradável).

    (G) Têm livros em casa (nada mais hipócrita do que exigir leituras do filho e este não encontrar livros na própria casa).

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    Eu poderia acrescentar outro conselho fundamental: “desligue a TV”. Mas esse é assunto para outra conversa.

    Só para encerrar o assunto, lembro que introduzir os filhos no mundo da linguagem é uma tarefa dos pais. Não pode ser transferida. É ingenuidade acreditar que, mais tarde, quando forem adultos, os filhos se tornarão leitores. Aí já será tarde demais.

    No caso cabe muito bem aquele ditado: “Conselhos ajudam, mas o exemplo arrasta”. Se você lê, seu filho lerá. Não precisa insistir, dar ordens ou coisas do gênero. Seu exemplo é tudo.

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    Agora, outro assunto. A revista oficial da Fifa na internet publicou uma lista de “dicas” para os estrangeiros que visitarão o Brasil durante a Copa. Houve algumas reclamações. Não porque a lista fosse ofensiva, mas era bem-humorada e irônica.

    Não vi nada de mal na lista, mas lembro que uma das informações prestadas aos estrangeiros era que o brasileiro “fala com as mãos e encosta nas pessoas quando conversa”.

    Entendi isso como um elogio. Na Europa, sim, as pessoas são frias, distantes, isoladas umas das outras. Os cumprimentos sempre são formais. Criar intimidade, então, nem se fala! Um europeu passeando pelo Brasil sempre estranha esta característica calorosa dos brasileiros. Alguns até se sentem constrangidos com a proximidade “inconveniente”.

    Penso que devemos pensar de outra maneira. Ser “caliente” é uma característica latina e bem brasileira. Devemos nos orgulhar dela.

    Um aperto de mão, um abraço, um tapinha nas costas e até um beijo na face são coisas maravilhosas. Rompem a “aura” que nos protege dos outros, desmontam a carapaça que construímos à nossa volta. Esses gestos afetivos nos tornam mais gentis e carinhosos, nos fazem mais humanos.

    Nesse particular, os europeus não têm nada a nos ensinar. Ao contrário, nós temos muito a lhes mostrar em termos de afeto.

  • sexta-feira, 21 de março de 2014 09:27

    Confianças e broncas

    Brasileiro desconfia dos políticos? Bem, isso nós já sabemos. Mas o que não sabíamos constou de uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada em todo o país.

    Na verdade, o brasileiro desconfia até da própria sombra.

    Nós brasileiros acreditamos que vivemos numa sociedade dividida entre “manés” e “malandros”. Mais de 80% afirma que os brasileiros agem sempre querendo tirar vantagem. Somente 16% acham que os outros agem com boa-fé, corretamente.

    A idéia de que o brasileiro burla normas para tirar vantagem é recorrente. É o “jeitinho” de sempre. Buscamos atalhos, soluções facilitadas. O brasileiro ultrapassa pelo acostamento, fura fila, não devolve o troco, cola na prova, pede um “favorzinho” ao funcionário público, e assim por diante.

    Se, por um lado, o brasileiro defende uma sociedade sem corrupção, nas pequenas coisas ele não tem essa ética.

    Isso resulta num quadro inconveniente. Desconfiamos de todos. Desconfiamos até mesmo de pessoas da nossa família e suspeitamos do vizinho e do colega de trabalho. Confiamos desconfiando.

    O quadro revela uma realidade em que as relações sociais são frágeis. Somos alegres e expansivos, mas a desconfiança não aprofunda as relações e não permite a construção de iniciativas coletivas ou grupais. Daí a dificuldade das organizações de voluntariados, como entidades caritativas e ONGs.

    Afinal de contas, a solidariedade exige confiança. Uma sociedade desconfiada é uma sociedade que não avança, se é que você me entende...

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    Broncas da cidade:

    Parte do muro do estádio municipal Carlos Denardin desabou num temporal, quase dois anos atrás. O buraco ainda está lá, visível para quem transita pela Avenida América.

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    Não é preciso longo discurso para dizer que a primeira impressão que temos de uma cidade é a sua via de acesso. Pequena ou grande, ao entrarmos numa cidade somos influenciados por essa primeira impressão.

    Pois bem. Nesse quesito Santa Rosa está muito mal.

    Nossos trevos de entrada (pelos meus cálculos são seis) estão em completo abandono. Visitantes ocasionais ficam assustados. Em que cidade estamos entrando? Será que toda a cidade é assim, abandonada e em ruínas?

    A frase pode ser exagerada, mas tente se colocar na pele de um visitante que chega a Santa Rosa pela primeira vez. No mínimo, levará um susto...

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    A polêmica mais recente envolve a proposta do “Monumento à Soja”, ao custo de R$ 1,56 milhão, cujo projeto já estaria em andamento.

    Houve bronca dos artistas locais, que não foram consultados, ou foram consultados quando tudo já estava definido. Outros questionam o proveito de tal monumento e sua efetiva representatividade para a cidade.

    Sem entrar nesse mérito, acho a idéia do monumento meio patética. Alguém mais irreverente já propôs que seja erguido um monumento à mandioca, que surgiu por aqui antes da soja. Seria curioso, mesmo.

    A questão parece ser outra. Mais simpática e efetiva seria uma homenagem ao colono, que desbravou a mata, implantou a cidade e, bem mais tarde, recebeu a soja, sempre em sua pequena propriedade. O que você acha?

     

     

  • sábado, 15 de março de 2014 20:27

    As bruxas

    Contam os historiadores que, entre o século XIII e o século XIX, cerca de 1 milhão de mulheres foram executadas na Europa sob acusação de bruxaria. Bastava ser pobre, viúva ou abandonada pelo marido para surgirem as acusações. Os julgamentos eram sumários e a forca e a fogueira logo estavam prontas. A acusação de bruxaria era, é claro, uma mera desculpa para a brutalidade incontida.

    A história da mulher, ao longo dos séculos, é uma interminável narrativa de violência, segregação, humilhação e preconceito. O mais estranho é que ainda hoje convivemos com resquícios desse comportamento animal.

    O mundo, hoje, está repleto de desvios de comportamento que têm origens na história, na cultura e até na formação educacional e psicológica dos indivíduos. Racismo, homofobia e xenofobia são fenômenos que podemos encontrar em qualquer lugar.

    Porém, nada é tão anacrônico, nada é tão atrasado quanto o sexismo (no caso, o machismo), pois ele é a melhor caracterização da pessoa que não consegue conviver nem com ele próprio e que, talvez por isso, não consegue compreender os seres da sua própria espécie.

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    Gosto de uma frase cujo autor não lembro nesse momento (fico devendo essa informação). Mas a frase é a seguinte, lembrando a conhecida frase bíblica:

    “Só existe uma razão para amarmos os outros seres humanos. Somos da mesma espécie, e estamos vivos”.

    Em outras palavras, não precisamos de razões de cunho religioso, pois às vezes as religiões também alimentam o ódio. O fundamental é entender quem somos. E, também, aceitar que em breve não estaremos mais aqui. Talvez assim sejamos capazes de amar os outros (todos os outros!).

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    Para compreender a história da mulher (que é também a história humana), vale uma dica de leitura. “O Segundo Sexo”, da francesa Simone de Beauvoir, é um livro extraordinário obra que analisa a aventura civilizatória e, é claro, o longo e doloroso processo de emancipação feminina.

    A erudição da autora é algo incomum, e a leitura marca-nos como ferro em brasa. A edição brasileira é antiga e pode ser encontrada em muitas bibliotecas.

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    O certificado de filantropia da Emater foi renovado até 2017. Um grande alívio em razão da ameaça que pairava sobre a entidade. Agora, serão feitos ajustes jurídicos que permitam a renovação definitiva.

    Para nós, que vivemos numa região caracterizada pelas pequenas propriedades agrícolas, a Emater é crucial. Sem ela, cerca de 250 mil famílias ficariam sem assistência. Para quem vive na colônia a Emater é uma espécie de entidade protetora e amiga. Suas orientações técnicas são sempre apropriadas e, não raro, o técnico se torna um amigo da família do agricultor, criando relações da mais pura confiança.

    Nesse episódio, vimos um raríssimo envolvimento de toda a comunidade gaúcha. Lideranças de todas as frentes se uniram em defesa da Emater (que também significa defesa da nossa economia).

    Essa mobilização do Rio Grande em favor da Emater prova que a união tem força, sim.