• sábado, 9 de agosto de 2014 09:21

    Uma nova poluição

    Vivemos num mundo poluído, você sabe disso. Poluição ambiental, sonora, visual, etc. Para que o mundo seja mais amigável, também concordamos (eu e você) que a vida deve ser mais calma, mais saudável, menos violenta e ruidosa. O silêncio é o que nos permite recarregar as energias, refletir e compreender a vida.

    Mas não são apenas esses aspectos externos que nos perturbam.

    Estamos diante de outro tipo de poluição, da qual às vezes não nos damos conta. E ela é terrível, está por toda a parte.

    Estou falando da proliferação desenfreada de opiniões sobre tudo e sobre todos. Com a popularização das redes sociais (especialmente o Facebook) a situação se agravou. Estamos assistindo a uma avalanche de opiniões, palpites e boatos, numa enxurrada de palavrório que, na grande maioria, são como um tonel vazio rolando ladeira abaixo. É só ruído.

    E essa saraivada de opiniões surge de forma tão veloz que não permite a ninguém a reflexão e sequer o debate sobre elas. Tudo parece urgente. Tudo desaparece velozmente.

    O que resta disso tudo? Praticamente nada.

    É mais ou menos quando você sai de uma boate, após horas ouvindo músicas estridentes. Você não lembra de nada que ouviu por lá.

    ***

    Todos se sentem convocados a opinar sobre tudo. Sobre os fatos do dia, reais ou imaginários. Sobre o comportamento do politico, a vida do artista, a descoberta científica, a nova doença, a mais recente catástrofe e a roupa provocante da vizinha do quarteirão mais próximo. E tudo é compartilhado, sejam convicções, sejam meras repetições de opiniões alheias. Os clichês são incontáveis. Os “especialistas” surgem do nada para dizer que isso está certo, que aquilo está errado.

    O direito de opinião (que não deve ser esquecido) se transforma, assim, num fenômeno esquisito, bizarro e absolutamente estonteante. Não produz resultado nenhum.

    É claro que por trás desse fenômeno existe o objetivo de ganhar dinheiro, seja das empresas de comunicação, da índústria da informática, e assim por diante.

    Nós (e nossas opiniões urgentes) nos transformamos em mercadorias.

    ***

    Muita gente já percebeu esse lado desconfortável das redes sociais. Conheço muitas pessoas que se “desconectaram”, a fim de obter um pouco de paz e tranquilidade. Elas perceberam que o nosso mundo está envolto em ruído, em barulho.

    Perceberam também que essa avalanche de informação (seguida de opiniões taxativas) traz também uma carga de ódio, violência e intolerância, sentimentos reprováveis cuja disseminação é inaceitável.

    A tentação de opinar, ou de espalhar campanhas e notícias inverídicas, é grande. Mas precisamos pensar antes de agir, antes de nos tornarmos portadores de ideias que não são nossas. Antes de espalhar rancores inúteis e frases sem sentido. O ruído está muito grande. Um pouco de silêncio, por favor!

  • sexta-feira, 1 de agosto de 2014 15:07

    Por que eles admiram o Brasil?

    O debate surgiu com a Copa. Por que os estrangeiros tem admiração pelo Brasil? Não, ao contrário do que você possa estar pensando, eles não ignoram os nossos problemas. Mas também já não dão bola para os velhos clichês, como praia, mulher bonita e futebol.

    O que, na verdade, desperta a curiosidade do mundo acerca do Brasil são outros aspectos inexistentes no resto do planeta. São nossas contradições, nossos paradoxos.

    Veja só. O Brasil é um raro país que tem uma floresta imensa, tida como o pulmão do mundo, e também o maior volume de água doce (o tesouro do futuro, dizem). Só isso já bastaria para despertar o interesse mundial.

    Temos regiões muito pobres, e outras que são mais ricas que as cidades mais ricas da Europa. O número de brasileiros com acesso à internet é maior do que a população de muitos países, mas também temos brasileiros que sequer sabem escrever. Paralelamente, o mercado editorial brasileiro é um dos maiores do mundo, inacreditavelmente.

    Possuímos tecnologia de satélites, mas tempos populações indígenas que vivem com hábitos da idade da pedra. Será que temos algo a aprender com elas?

    Sem grande crescimento econômico, conseguimos tirar 40 milhões de pessoas da pobreza extrema, fato inédito em todo o mundo.

    Temos estradas ruins, porém produzimos automóveis como nenhum outro país (cerca de 1 automóvel a cada 5 segundos).

    Nossa arte, especialmente a música, é objeto de admiração em todos os lugares. É como se dissessem: “com essa música, eles só podem ser alegres”.

    Ainda temos manifestações de racismo, mas somos o maior povo mestiço do planeta, que acolhe imigrantes de todos os lugares. Construímos um país mestiço embora tenhamos sido um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão.

    Nossos estudantes carecem de inserção tecnológica, mas jovens brasileiros produzem jogos eletrônicos consagrados em todo o mundo.

    Nossa produção agrícola e pecuária é gigantesca, e ainda temos muita terra para fazer produzir, coisa que já não existe por aí. E nosso comércio transaciona com todos os continentes.

    Não há país no mundo com tantas religiões. Porém o sincretismo de crenças que se formou no país ao longo dos séculos é admirável. Não há nada parecido com essa mistura de credos e a pacífica convivência entre eles.

    Temos a maior fronteira terrestre do planeta, fazendo divisa com 12 países, e não temos nenhum conflito externo! Imagine isso na Europa!

    Nenhum país do mundo tem tantas atrações naturais como o Brasil, mas a nossa indústria turística ainda é mixuruca.

    Bem, vou interromper a lista por falta de espaço...

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    São esses paradoxos que despertam a curiosidade do mundo, muito além, portanto, do aspectos exóticos. Ao longo de sua história, o Brasil sempre foi o país de “índios, negros e florestas”. Algo que o velho mundo olhava com interesse antropológico. Hoje a visão é outra. Para alguns estudiosos do desenvolvimento social, podemos ser o ícone do século XXI. Um país que pode oferecer coisas novas para um mundo cansado de guerras e desentendimentos.

     

     

  • sábado, 26 de julho de 2014 11:27

    Leituras inadiáveis

    O avião da empresa Malaysia Airlines, que teria sido abatido na Ucrânia, e que causou a morte de quase 300 pessoas, talvez trouxesse dentro de si a cura da AIDS. No avião estavam cerca de 100 pesquisadores que se dirigiam para uma Conferência Internacional que aconteceria na Austrália. A Conferência era dedicada ao estudo da AIDS.

    Entre os mortos estava o holandês Joep Lange, 60 anos, um dos maiores especialistas mundiais na matéria.

    O fato é irônico e profundamente triste. No avião estavam pessoas dedicadas a melhorar a vida, a curar doenças. Em terra, justamente o contrário.

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    João Ubaldo Ribeiro, o escritor baiano falecido na semana passada, talvez tenha sido o melhor da sua geração. Deixou uma grande obra que merece ser lida. Por isso, se você aprecia literatura, deixo aqui a sugestão.

    Obras como “O Sorriso do Lagarto”, “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro”, “Vencecavalo” e “Livro de Histórias” são leituras deliciosas que nos conduzem para um mergulho na alma brasileira. Anote e leia. Você vai gostar.

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    Talvez você não tenha percebido, mas algo estranho está acontecendo com os adolescentes brasileiros. Não, não estou falando de consume de drogas, comportamentos violentos ou coisas do gênero. Estou falando de uma surpreendente onda de novos leitores que estão surgindo silenciosamente.

    Nessa época de internet e sofisticadas tecnologias, uma geração de jovens “digitais” está consumindo livros de forma nunca vista. Estou falando de livros de papel, desses que imaginávamos fossem objeto de estimação de quem tem mais de 40 anos. Pois os adolescentes estão lendo livros de papel, veja só!

    Já existem até editoras dedicadas exclusivamente a publicar livros para esse publico. Um dos fenômenos editoriais é John Green (que escreveu “A culpa é das estrelas”). Seus livros são intensamente procurados e já venderam milhões de exemplares no país.

    Também vendem de forma espetacular os livros do gênero “fantasia”, como a série “O Senhor dos Anéis”, “Crepúsculo” e “Harry Potter”. E, supreendentemente, também são reeditados com sucesso os livros de Stephen King, o rei dos livros de mistérios.

    É um novo tipo de leitor, ligado no entretenimento e na diversão. Não estão muito preocupados com aspectos fundamentais da cultura ou mesmo com leituras do vestibular. Lêem, comentam com os amigos, emprestam seus livros, discutem e acompanham as séries.

    Mas não deixa de ser surpreendente. As listas de livros mais vendidos estão encabeçadas por esse tipo de leitura, o que desfaz o mito de que “adolescente não lê”. A realidade está provando justamente o contrário.

    Algo de errado nisso? Não creio. Adolescentes que lêem continuarão leitores na maturidade, e isso é muito bom. Censurar essas leituras é repetir o que faziam os pais antiquados quando recriminavam a leitura de histórias em quadrinhos. A imaginação deles aflora, e isso lhes será útil o resto da vida. E viva a leitura e a imaginação!

  • sexta-feira, 18 de julho de 2014 14:31

    Projeto interessante

    Veja só que projeto interessante. Todos sabemos da desoneração tributária na indústria automobilística. Depois da isenção do IPI, nossas ruas e estradas se encheram de carros, e o resultado todos conhecemos: trânsito caótico, congestionamentos, poluição, estresse e acidentes.

    Pois existe no Brasil uma rede de pessoas (alimentada pela internet) com nome de “Bicicleta para Todos”, que deseja zerar os impostos sobre bicicletas. O Brasil é o terceiro produtor mundial de bicicletas. Mas a infraestrutura das cidades não sabe disso.

    As bicicletas produzidas na Zona Franca de Manaus já estão isentas. Mas as produzidas no resto do país não tem qualquer incentivo. Alguns estados já reduziram o ICMS, o que é uma boa notícia. Segundo a entidade, a carga tributária sobre a bicicleta chega a 40% em alguns estados da federação. Considerando que a grande massa de usuários de bicicletas são pessoas que ganham salários reduzidos, teríamos também um benefício social.

    E, como sabemos, bicicleta significa mais saúde e menos poluição. Tomara que a Câmara dos Deputados, onde tramita o projeto, seja sensível.

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    O resumo da Copa pode ser feito em duas frases. Fomos ruins naquilo em que nos julgávamos excelentes, o futebol. E fomos excelentes naquilo em que nos considerávamos ruins, a organização.

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    Quanto à vitória da Alemanha (que deixou contentes alguns “alemóns” conhecidos meus), todos são unânimes. Planejamento é fundamental, e não apenas no futebol. No seu trabalho, na economia, no governo, na educação dos filhos e até na disputa de um torneio de canastra. O resto é improviso.

    Por incrível que pareça, aplicamos bem o planejamento na Copa propriamente dita, e esquecemos de aplicá-lo no time. Deu no que deu.

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    Dias atrás, num bate-papo, falávamos dessas pessoas que utilizam as redes sociais para lembrar-nos de que elas sempre estão certas. Por exemplo, se alguém diz “o João é um idiota”, esse alguém simplesmente acabou com qualquer raciocínio. Como tecer algum argumento contrário? A pessoa que espalha esse tipo de frase já está nos dizendo que não deseja qualquer debate acerca da sua afirmativa. Papo encerrado.

    Pois foi assim que lembrei de um pensamento do publicitário Nizan Guanaes para uma turma de formandos, anos atrás. Em tempos de redes sociais em que a arrogância substitui o diálogo, vale relembrar:

    “Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tenha consciência de que cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra.”

    Ou seja, sempre duvide de quem tem muitas certezas e poucas interrogações.