• sábado, 12 de outubro de 2013 15:09

    Melodias e outras coisas

    Depois de agonizar por algum tempo, com sintomas de fraqueza e debilidade que se estenderam pelos últimos dois anos, o Musicanto recebeu a extrema unção na semana passada. Há quem lamente o empobrecimento cultural da cidade, que é indiscutível.
    As razões disso são muitas. A propósito, aí vai uma lista de assuntos para sua próxima reunião de família, do clube, ou mesmo do boteco da esquina.
    Não temos Musicanto, não temos Fundo de Cultura, não temos Carnaval de rua, não temos águas dançantes, não temos Centro Cultural, coisas que poderiam ser a marca e a identidade desta cidade.
    Ah, lembrando aquele candidato a vereador, também não temos berçário!...
    ***
    Mas não vivemos só de notícias tristes. É importante registrar a apresentação muito aplaudida do Coral 24 de Julho lá na Catedral de Gramado, no final de setembro último, sob a batuta esperta do maestro Alessandro Munaweg. Show para encantar o público de Gramado e seus turistas. A catedral balançou!...
    Eis aí um motivo de orgulho para Santa Rosa, numa área da música que não é apreciada em larga escala. O canto coral, assim como a música clássica, requer uma concentração (e certa iniciação) que a grande maioria rejeita. Mas é um bálsamo para a alma...
    Ouvir Michel Teló é mais fácil. Não precisa esforço. Entra num ouvido e sai pelo outro.
    ***
    A propósito, anote na sua agenda. No próximo dia 26 de outubro, sábado, acontece no Centro Cívico o “Concerto da Primavera”, reunindo corais e vozes das principais cidades gaúchas e, é claro, também o nosso 24 de Julho.
    Será uma noite para encher os olhos e balançar a sensibilidade.
    Tenho a certeza que você não vai esquecer. Ou vai?
    ***
    Pouco conheço da música clássica, e invejo essa arte quase mágica. Mas sei de algumas coisas que desejo compartilhar com você.
    O piano, por exemplo, tem aquele desenho para que os músicos tenham onde colocar o copo de uísque.
    O “Bolero de Ravel” é uma música composta por um cara chamado Ravel.
    Beethoven ficou surdo de tanto usar fones de ouvido com o seu ipod.
    O regente de orquestra sempre faz treinamento prévio como guarda de trânsito; só assim para agitar os braços daquela maneira.
    “4 estações” é uma famosa composição de Vivaldi, cujo nome ele copiou de um conhecido sabonete.
    A música medieval foi feita há muito tempo, por isso não toca nas rádios. Já a música sacra tem sido composta por gente com muitos pecados, que assim tentam limpar a barra com Deus. Pura perda de tempo.
    Os maiores compositores do Romantismo são Chopin, Tchaikovsky e Shubert. Entre os brasileiros, o mais conhecido é o Roberto Carlos, que também foi lateral esquerdo da seleção.
    Handel foi um conhecido compositor que era 50% alemão, 50% italiano e 50% inglês.
    (Meu Deus, quanta bobagem!).

  • sexta-feira, 4 de outubro de 2013 18:00

    Coisas da cidade

    Pois estamos em pleno Encontro de Hortigranjeiros, agora em sua 30ª edição. Nesse longo período podemos vislumbrar a importância do evento que modificou a base produtiva no município e também da região.

    Três décadas atrás os produtores viviam a angústia (que ainda existe em certa medida) de escolher entre a produção extensiva da monocultura e a diversificação. Não é uma decisão confortável. Muitos ainda se perguntam qual o caminho adequado à sua sobrevivência e à geração de riqueza. Um número considerável apostou na produção diversificada, na certeza de que isso impede as grandes crises da dupla soja-trigo. O resultado está no Hortigranjeiros.

    Pouco importa se você vai até o Parque de Exposições para rechear a geladeira de sua casa ou apenas a passeio. Observar a diversidade que alcançamos já vale a pena. Três décadas do Encontro de Hortigranjeiros é motivo de enorme orgulho para todos nós.

    ***

    Logo adiante, na próxima semana, teremos a Oktoberfest, aquele momento em que os germânicos perdem sua pose rígida e séria e partem para a brincadeira. Aliás, uma brincadeira que mistura todas as descendências étnicas, pois festa com chope já não é exclusividade deles. Conheço alguns gringos e polacos que bebem mais do que o Fritz.

    Tempos atrás eu pensei em sugerir a realização concomitante da Oktorberfest e da Festa das Etnias. Mais tarde, refletindo melhor, desisti da proposta. Fiquei imaginando o momento em que a população iria ingerir toneladas de chucrute e beberia milhares de litros de chope. Certamente a emissão de gases traria desagradáveis consequências para a qualidade do ar em Santa Rosa. Abandonei a ideia.

    ***

    Chope é parte do cotidiano do brasileiro. lembra a história de dois amigos que sentam no bar, e são recebidos pelo garçom com aquele bloquinho de anotações na mão. "Traga-me um chope, por favor", diz o primeiro.

    O garçom anota o pedido.

    "Um chope também para mim, mas quero numa caneca bem limpa, certo?"

    Alguns minutos mais tarde o garçom retorna com os pedidos.

    "O chope da caneca limpinha, pra quem é mesmo?".

    ***

    Os historiadores garantem que o chope surgiu há cerca de 5.400 anos. Há registros de que os sumérios, entre uma guerra e outra, consumiam o líquido fermentado. Fico imaginando o rei sumério declarando: "Uma paradinha para o chope. Continuamos a batalha amanhã".

    Consta também que o chope chegou ao Brasil em 1808, na carona da família real que fugia das tropas de Napoleão que invadiam Portugal. Sabendo que viria para um país tropical, D. João recorreu ao chope, deixando de lado o vinho. Sem querer, acabou sendo o precursor de um hábito que tomou conta do Brasil, especialmente após a descoberta da pasteurização (que deu origem à cerveja). Saúde!

  • quinta-feira, 26 de setembro de 2013 23:24

    Do cinema

    Hoje (sexta) termina o "Santa Rosa Mostra Cinema", um projeto ousado que tem como objetivo despertar o interesse e o

    debate sobre a sétima arte. Pode parecer estranho tal empreendimento numa cidade como Santa Rosa, distante dos grandes centros. No entanto, como o mundo está globalizado mesmo, uma mostra aqui ou em São Paulo pouca diferença fará. O importante é entender e apreciar o cinema.

    A tal sétima arte é, hoje, a mais influente. Marca a vida das pessoas, dissemina visões do mundo, e não há quem não se submeta ao seu fascínio, seja do ponto de vista cultural, seja afetivo. Quem não carrega, por exemplo, na lembrança, as sessões de cinema com as primeiras namoradas? Um amigo meu dizia que costumava levar ao cinema uma namorada tão feia que merecia o Oscar de "defeitos especiais".

    A cidade já teve dois cinemas (Odeon e Sideral) e hoje tem um improvisado no Centro Cívico, fato que também aconteceu em muitas cidades brasileiras. As salas ficaram menores, mais confortáveis, e assim resistem à avassaladora mediocridade da televisão. Acredite, o cinema é uma forma de resistência.

    ***

    Mas o cinema é também a arte da ilusão. Tem incrível capacidade de enganar nossos olhos. Embalados pelas imagens e pelos sons, nosso cérebro desiste de análises críticas, e passa a considerar como verdades as coisas mais absurdas.

    Basta lembrar os filmes do 007, ou qualquer outro de heróis aventureiros. Neles, o herói apanha muito, mas termina liquidando seus adversários. Depois da briga, quando a mulher (tem que ser uma mulher, é claro) aplica algum mertiolate nas feridas, ele sempre reclama...

    No cinema, os carros sempre explodem, mesmo que a batida seja insignificante. E quando o bandido coloca uma bomba criminosa, ela sempre tem um relógio para dizer a hora em que vai explodir.

    Para vingar a morte de seu pai, o herói mata 130 pessoas (ou mais), e nunca responde judicialmente por isso.

    Detetive bom é aquele que está suspenso do serviço por insubordinação. E sempre começa sua investigação numa casa noturna. Ao longo do filme ele enfrenta bandidos que não matam com um simples tiro. Eles preparam o crime com veneno, gases tóxicos, bombas de efeito retardado, raios laser, ou coisa parecida que dê um tempo de mais ou menos 20 minutos para que o herói possa escapulir.

    O herói sabe fazer um avião decolar sem nunca ter entrado numa cabine de comando. E consegue abrir portas com qualquer alfinete, mesmo que sejam portas de fortalezas eletrônicas. Além disso, o seu notebook consegue acessar qualquer sistema do inimigo, mesmo que o inimigo tenha vindo de Marte.

    ***

    E contam que o Tibúrcio foi contratado por uma empresa para traduzir títulos dos filmes importados para os cinemas do Rio Grande do Sul.

    Foi então que o filme "Uma linda mulher" virou "Uma prenda lindaça". "O exorcista" virou "Vade retro, satanás!" e "A noviça rebelde" tornou-se "A freirinha sestrosa". Quando apareceu o famoso filme "Cantando na chuva" o nosso tradutor não hesitou e anunciou, na rádio local, a estréia de "Se esguelando no aguaceiro".

    Meio esquisito, mas todos entendiam...

  • segunda-feira, 23 de setembro de 2013 07:10

    Gauchadas, o retorno

    Dizem que os CTGs estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Esta semana soube que existe CTG até nos Estados Unidos, o que prova que gaúcho que se muda para outras plagas fatalmente morrerá de saudades, a não ser que funde um CTG, aglutinando outros conterrâneos que vivem por lá. Se isso não acontecer, ele irá definhar inexoravelmente até à morte.

    Pois fico imaginando um gaiteiro se apresentando no CTG norte-americano, e apresentando para "ladies e gentlemen" uma música de sucesso: "Don’t ask me where is the Alegrete". Ou algo parecido...

    ***

    Estar presente em regiões estranhas ao Rio Grande sempre foi motivo de orgulho por aqui. Isso faz lembrar a invasão da cidade catarinense de Lages, durante a Revolução Farroupilha, que aconteceu pouco depois da tomada de Laguna. Aconteceu em 1838, e o fato de estar "ampliando suas fronteiras" foi motivo de grandes comemorações entre os farroupilhas. Naquele momento, tudo fazia crer que o movimento se espalharia para outras regiões.

    Como sabemos, isso não aconteceu pela força das armas. Mas, de certa forma, sempre lembramos com orgulho que Lages é uma espécie de terra gaúcha em território catarinense, pois são incontáveis os gaúchos que vivem naquela bela cidade.

    ***

    E quem já foi guri (ou guria), sabe muito bem como funciona a psicologia gaúcha, seja pelas orientações da mãe, seja pelas lições do pais. A seu jeito, com algum carinho e alguns "cascudos", todos se criam e se tornam adultos, mas jamais esquecem algumas lições. Por exemplo, quando o guri aparece com notas baixas na escola, o sermão é este:

    "Desse jeito vais virar um abobado, um baita tabacudo! Tu sabes que comigo o buraco é mais embaixo! Passa pegar os livros, e ligeiro! Tu anda atirado nas cordas, tô sabendo."

    E o guri tenta argumentar:

    "Mas, mãe...."

    "Tu baixa a bola pra falar comigo! Tá querendo uma sumanta de laço? Estuda direitinho porque a prova é amanhã. E não te mixa, largartixa!"

    "Que porcaria..."

    "Baixa o facho, guri. Daqui por diante vou te levar na rédea curta!"

    E quando tem visita em casa, a recomendação carinhosa é para que o guri se comporte como gente grande, não faça bagunça e demonstre boa educação. Lembra disso? Pois é. O piá deve comportar-se, apesar do desejo de sair correndo atrás de uma bola, mostrando seus talentos. E se futucar o nariz diante das visitas, a reprimenda vem mais tarde, inevitavelmente.

    "Aquilo não se faz, guri".

    "Tava coçando, mãe".

    "Foi muito feio".

    "Feio mesmo, mãe?"

    "Muito, muito feio. Feio como soltar pum em velório e botar a culpa no morto".

    Com tanto zelo, a psicologia gaúcha, que eu saiba, jamais produziu adultos desorientados. Não que a psicologia clínica seja desmerecida. Mas podemos concordar que, às vezes, um três listras cumpre bem a sua função...