• sexta-feira, 12 de setembro de 2014 16:00

    Problemas da Independência

     

    Quando D. Pedro proclamou a Independência do Brasil, a viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro exigia de cinco a oito dias no lombo de um cavalo. Ou seja, os cavalos da época eram mais rápidos que o fusca do meu tio que viveu em Cerro Largo. Certa feira levou quatro dias para chegar em Caxias do Sul. Jogou a culpa no fusca, mas os parentes juram até hoje que ele esteve em visitas diplomáticas a todas as placas de Brahma Chopp que encontrou no caminho. Mas isso é uma outra história.

    O fato é que ao voltar ao Rio de Janeiro D. Pedro perguntou ao José Bonifácio:

    “O que foi mesmo que eu fiz em São Paulo?”

    “Vossa Alteza tornou o Brasil um país independente”.

    “Meu Deus! Eu sabia que aquela cachaça não me faria bem...”

    Sabemos que antes e depois do ato da independência o clima político no país era terrível. Havia tentativas separatistas em Minas e São Paulo, e também as ameaças de invasão vindas de Portugal. Foram muitas as cartas ofensivas endereçadas a D. Pedro, dizendo para ele deixar daquela aventura, tipo “volta pra casa, guri, mamãe te perdoa”. Foi um período muito complicado.

    ***

    A nossa independência, diferentemente de outros países, não resultou numa república, e sim numa monarquia que manteve os privilégios e até a escravidão. O Congresso da época levou anos examinando a lei que aboliu o trabalho escravo. Como se vê, a lentidão começou lá. Mas logo D. Pedro enfrentaria outro problema bem conhecido nosso. Mal começou a montar o governo da nova nação, foi coberto de recados e visitas pedindo emprego para parentes, cunhados, genros e até para o primo que perdera tudo no baralho. Começava gloriosamente o nepotismo brasileiro.

    Para chefes militares, a recompensa pelo apoio ao novo governo vinha através de algum empreguinho na Corte e também com vastas extensões de terras. Algumas delas, sabemos bem, estão nas mãos de herdeiros de sétima geração até os dias de hoje.

    O mais irônico foi que D. Pedro derrotou as tropas portuguesas, mas aceitou pagar uma indenização milionária a Portugal e ainda ficar com as dívidas que a Corte portuguesa tinha com a Inglaterra. Ou seja, já surgimos endividados.

    ***

    Entre as providências imediatas tomadas por D. Pedro estão as tratativas com países amigos, incluindo os Estados Unidos, para onde teria enviado carta prometendo boas relações comerciais. “Aceitamos o McDonald’s, mas sem espionagem, por favor”.

    Preocupados com os movimentos bélicos em diversos locais do país, D. Pedro se reuniu com a equipe de governo. A sugestão era de outorgar imediatamente uma nova Constituição, o que poderia unir o país. O imperador ouviu atentamente todos os conselhos, e depois declarou:

    “Está bem. Concordo com todas as sugestões. Mas, por favor, organizem logo uma seleção brasileira de futebol. Isso sim é que vai unir esse país. E com quatro zagueiros, bem entendido? Caso contrário, estamos sujeitos a levar uma goleada de algum país europeu amigo...”

  • segunda-feira, 8 de setembro de 2014 10:25

    Os rios que voam

    A expressão é poética, mas na verdade é pura ciência. “Os rios que voam” virou tema de cientistas, ambientalistas e de muita gente que se interessa pelo clima. Por isso, merece comentário.
    A partir da Amazônia formam-se correntes de ar carregadas de umidade que viajam em direção ao centro-oeste, sudeste e sul do Brasil. São elas que estabelecem os regimes hídricos dessas regiões. Em outras palavras, o clima de Santa Rosa, por exemplo, tem tudo a ver com essas camadas de vapor dágua que vêm da Amazônia.
    Não preciso dizer que isso tem relação direta com as chuvas que irrigam as lavouras e abastecem as hidrelétricas e as vertentes. Se essas correntes são desviadas por algum fenômeno climático, temos estiagem.
    A expressão “rios que voam” foi criada pelo cientista suíço Gérard Moss, que desde 2009 vem monitorando o movimento dessas nuvens. Diz ele que cada metro quadrado do planeta evapora 3 litros de água por dia. Um metro quadrado de floresta evapora 5 metros. Ou seja, para o clima a floresta é mais importante que o próprio oceano.
    Toda essa conversa apenas confirma o que já sabíamos. O mundo é interdependente. O que acontece a milhares de quilômetros daqui pode influenciar a nossa vida. E preservar a Amazônia pode evitar catástrofes em grande parte da América Latina, inclusive em Santa Rosa.
    ***
    O Brasil passou décadas discutindo o divórcio. Os casais se separavam, formavam novas famílias, e a lei continuava a dizer que não podiam se divorciar. É a situação típica em que a realidade avança e a lei continua arcaica. As pessoas consolidam relações humanas não obstante os atrasos legais.
    Agora estamos discutindo a possibilidade do casamento entre homossexuais. Virou até briga envolvendo candidatura à Presidência. Parece que estamos vendo o filme novamente. O fato é que as pessoas seguem sua orientação sexual, erguem lares, partilham patrimônio e até constituem família mediante adoções. Mas a lei insiste em ignorá-los.
    O pastor Malafaia, raivoso de mentalidade medieval, adotou como estratégia atacar os homossexuais. A técnica é conhecida historicamente. Para manter o meu rebanho unido eu preciso de um grupo “inimigo”. No caso, os gays.
    Talvez ele pretendesse atacar outros grupos, como os negros, os ateus ou os comunistas, mas para isso ele não conseguiria a simpatia de suas ovelhas. Pelo menos, soaria politicamente incorreto. Por isso, agredir pessoas de orientação sexual diferente é fácil. Mas é coisa muito atrasada.
    O pior é levar esse tipo de debate para a eleição presidencial, como se o Estado tivesse o dever de decidir com quem você vai para a cama. Chega a ser ridículo. Como se não tivéssemos questões realmente importantes para resolver. Quando vejo esse tipo de “líder religioso” emitir suas opiniões eu lembro imediatamente de seitas como a Ku-Klux-Klan, que fazia de terror o seu único argumento.
    É o que dá misturar política e religião. É sempre um retrocesso.

  • sábado, 30 de agosto de 2014 08:58

    Coisas da cidade

    Se a restauração do asfalto da Av. Expedicionário Weber era inadiável, por outro lado perde-se uma grande oportunidade de fazer a redução do canteiro central. A avenida estará renovada, é claro, mas continuará sendo um gargalo do nosso trânsito.

    Temos que considerar que numa via central como a Expedicionário Weber aquele enorme canteiro, na atualidade, apenas atrapalha. Sem ele, o fluxo de automóveis seria mais ágil, beneficiando a todos.

    Acreditei que, pelo significativo valor que está sendo aplicado em asfalto, o “conserto” da avenida seria completo. Ficou pela metade.

    ***

    A venda da área do Ginásio Municipal é mesmo polêmica. Nesse debate, coloco-me entre aqueles que não desejam a entrega do local por duas razões básicas. Primeiro: o valor a ser recebido não faz cócegas no orçamento anual da Prefeitura. A questão financeira, portanto, é inexpressiva. Segundo: jamais o Município conseguirá área tão nobre na cidade baixa.

    Em síntese, a venda não serve para nada. Aliás, pode até trazer dificuldades que hoje não existem.

    Entre as sugestões que circulam por aí, é mesmo interessante pensarmos numa subprefeitura naquele local, com atendimento básico à população que hoje tem de se deslocar até Cruzeiro, onde nem mesmo estacionamento encontra.

    ***

    Por outro lado, a obsessão pela venda do patrimônio público já beira caso clínico. Quem explica essa mania?

    ***

    A propósito, quantos imóveis ociosos possui o Município? E os aluguéis pagos pelo Município, quantos são?

    ***

    O Musicanto ressurge das cinzas, com formato de “multifeira cultural”. Se bem entendi, será uma mostra cultural envolvendo diversas manifestações artísticas, e não apenas musical. Fica mantida a proposta que surgiu no ano passado, com uma noite dedicada gaúcha, outra à latino-americana e outra à música brasileira.

    O empenho do Cláudio Joner é elogiável, pois aposta em algo inédito e de sucesso incerto. É o que veremos entre 12 e 15 de novembro.

    Sabemos que a ausência de competição impede o surgimento de novos talentos. Por isso ela é o ponto de interrogação desse Musicanto. O público vai gostar do novo modelo? Também não sei responder. Mas, de todo modo, é muito bom ouvir falar em Musicanto outra vez. Embora tenha sido marcado sempre por polêmicas, acredito que o festival está na memória dos santa-rosenses. Uma memória afetiva, carinhosa.

    Pode até voltar a ser motivo de orgulho para a cidade. Seria muito bom para a nossa autoestima.

     

     

     

  • sábado, 23 de agosto de 2014 16:11

    O leite nosso de cada dia

    O leite, vindo diretamente da vaca, foi uma das experiências bonitas dos meus tempos de guri. Após tirar o leite diretamente das fartas tetas da vaquinha, era só colocar um pouco de canela em pó e saboreá-lo. Já não se faz mais isso, pois a prática pode trazer algum risco de contaminação, dizem por aí.

    Mas o leite, presente na mesa todas as manhãs, era obrigatório (aliás, continua sempre presente). A insistência dos pais transformou o leite em sinônimo de infância. Beber leite representava ossos fortes e alimento para as energias gastas pela gurizada. Quem de nós não lembra?

    Pois nos últimos meses o farto noticiário sobre adulteração do leite que encontramos nas gôndolas dos supermercados chocou a todos. Leite com formol, leite com álcool, leite com soda cáustica e água oxigenada. O Rio Grande, grande produtor de leite, é alvo da mais terrível desconfiança.

    Não tenho dúvidas de que esse problema será superado em breve, seja pela alteração nas práticas das indústrias, seja por força das punições aplicadas pela Justiça. Mas até lá vamos conviver com a desconfiança, com a suspeita que tirou do leite nosso de cada dia o seu encanto. Parece até que roubaram parte da nossa infância...

    ***

    E a empregada informa a patroa:

    “Dona Maria, a pia da cozinha entupiu de novo!”

    A patroa prontamente responde:

    “Derrame um pouquinho de leite longa vida!”

    ***

    O ano de 2014 é registro importante para a região Noroeste. Ele marca os 190 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Na verdade, os primeiros a chegarem vinham de algo chamado “Confederação alemã”, pois na época a Alemanha que conhecemos hoje sequer existia.

    A colônia alemã de São Leopoldo foi criada em 1824, após tentativas sem êxito em outros lugares do Brasil. Até na Bahia tentaram criar uma colônia antes dessa data, mas descobriram que as bandinhas não conseguiriam tocar axé e desistiram.

    Para a nossa região eles só viriam mais tarde. Os que aqui chegaram para derrubar as matas eram parentes dos que estavam estabelecidos na “Colônia Velha”. A contribuição deles para a nossa região é enorme. Influenciaram a nossa língua, diversificaram a produção e determinaram muitos elementos da nossa arquitetura.

    Isso sem contar o chucrute e a cerveja, marcas registradas dos germânicos, e o dialeto trazido da região próxima da França. Aliás, a Alemanha até hoje possui dezenas de dialetos que mais parecem línguas distintas. Mas o que soa estranho é que, apesar dessa importância toda, as comemorações por aqui são muito tímidas. Será que estou enganado?