• sexta-feira, 4 de outubro de 2013 18:00

    Coisas da cidade

    Pois estamos em pleno Encontro de Hortigranjeiros, agora em sua 30ª edição. Nesse longo período podemos vislumbrar a importância do evento que modificou a base produtiva no município e também da região.

    Três décadas atrás os produtores viviam a angústia (que ainda existe em certa medida) de escolher entre a produção extensiva da monocultura e a diversificação. Não é uma decisão confortável. Muitos ainda se perguntam qual o caminho adequado à sua sobrevivência e à geração de riqueza. Um número considerável apostou na produção diversificada, na certeza de que isso impede as grandes crises da dupla soja-trigo. O resultado está no Hortigranjeiros.

    Pouco importa se você vai até o Parque de Exposições para rechear a geladeira de sua casa ou apenas a passeio. Observar a diversidade que alcançamos já vale a pena. Três décadas do Encontro de Hortigranjeiros é motivo de enorme orgulho para todos nós.

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    Logo adiante, na próxima semana, teremos a Oktoberfest, aquele momento em que os germânicos perdem sua pose rígida e séria e partem para a brincadeira. Aliás, uma brincadeira que mistura todas as descendências étnicas, pois festa com chope já não é exclusividade deles. Conheço alguns gringos e polacos que bebem mais do que o Fritz.

    Tempos atrás eu pensei em sugerir a realização concomitante da Oktorberfest e da Festa das Etnias. Mais tarde, refletindo melhor, desisti da proposta. Fiquei imaginando o momento em que a população iria ingerir toneladas de chucrute e beberia milhares de litros de chope. Certamente a emissão de gases traria desagradáveis consequências para a qualidade do ar em Santa Rosa. Abandonei a ideia.

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    Chope é parte do cotidiano do brasileiro. lembra a história de dois amigos que sentam no bar, e são recebidos pelo garçom com aquele bloquinho de anotações na mão. "Traga-me um chope, por favor", diz o primeiro.

    O garçom anota o pedido.

    "Um chope também para mim, mas quero numa caneca bem limpa, certo?"

    Alguns minutos mais tarde o garçom retorna com os pedidos.

    "O chope da caneca limpinha, pra quem é mesmo?".

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    Os historiadores garantem que o chope surgiu há cerca de 5.400 anos. Há registros de que os sumérios, entre uma guerra e outra, consumiam o líquido fermentado. Fico imaginando o rei sumério declarando: "Uma paradinha para o chope. Continuamos a batalha amanhã".

    Consta também que o chope chegou ao Brasil em 1808, na carona da família real que fugia das tropas de Napoleão que invadiam Portugal. Sabendo que viria para um país tropical, D. João recorreu ao chope, deixando de lado o vinho. Sem querer, acabou sendo o precursor de um hábito que tomou conta do Brasil, especialmente após a descoberta da pasteurização (que deu origem à cerveja). Saúde!

  • quinta-feira, 26 de setembro de 2013 23:24

    Do cinema

    Hoje (sexta) termina o "Santa Rosa Mostra Cinema", um projeto ousado que tem como objetivo despertar o interesse e o

    debate sobre a sétima arte. Pode parecer estranho tal empreendimento numa cidade como Santa Rosa, distante dos grandes centros. No entanto, como o mundo está globalizado mesmo, uma mostra aqui ou em São Paulo pouca diferença fará. O importante é entender e apreciar o cinema.

    A tal sétima arte é, hoje, a mais influente. Marca a vida das pessoas, dissemina visões do mundo, e não há quem não se submeta ao seu fascínio, seja do ponto de vista cultural, seja afetivo. Quem não carrega, por exemplo, na lembrança, as sessões de cinema com as primeiras namoradas? Um amigo meu dizia que costumava levar ao cinema uma namorada tão feia que merecia o Oscar de "defeitos especiais".

    A cidade já teve dois cinemas (Odeon e Sideral) e hoje tem um improvisado no Centro Cívico, fato que também aconteceu em muitas cidades brasileiras. As salas ficaram menores, mais confortáveis, e assim resistem à avassaladora mediocridade da televisão. Acredite, o cinema é uma forma de resistência.

    ***

    Mas o cinema é também a arte da ilusão. Tem incrível capacidade de enganar nossos olhos. Embalados pelas imagens e pelos sons, nosso cérebro desiste de análises críticas, e passa a considerar como verdades as coisas mais absurdas.

    Basta lembrar os filmes do 007, ou qualquer outro de heróis aventureiros. Neles, o herói apanha muito, mas termina liquidando seus adversários. Depois da briga, quando a mulher (tem que ser uma mulher, é claro) aplica algum mertiolate nas feridas, ele sempre reclama...

    No cinema, os carros sempre explodem, mesmo que a batida seja insignificante. E quando o bandido coloca uma bomba criminosa, ela sempre tem um relógio para dizer a hora em que vai explodir.

    Para vingar a morte de seu pai, o herói mata 130 pessoas (ou mais), e nunca responde judicialmente por isso.

    Detetive bom é aquele que está suspenso do serviço por insubordinação. E sempre começa sua investigação numa casa noturna. Ao longo do filme ele enfrenta bandidos que não matam com um simples tiro. Eles preparam o crime com veneno, gases tóxicos, bombas de efeito retardado, raios laser, ou coisa parecida que dê um tempo de mais ou menos 20 minutos para que o herói possa escapulir.

    O herói sabe fazer um avião decolar sem nunca ter entrado numa cabine de comando. E consegue abrir portas com qualquer alfinete, mesmo que sejam portas de fortalezas eletrônicas. Além disso, o seu notebook consegue acessar qualquer sistema do inimigo, mesmo que o inimigo tenha vindo de Marte.

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    E contam que o Tibúrcio foi contratado por uma empresa para traduzir títulos dos filmes importados para os cinemas do Rio Grande do Sul.

    Foi então que o filme "Uma linda mulher" virou "Uma prenda lindaça". "O exorcista" virou "Vade retro, satanás!" e "A noviça rebelde" tornou-se "A freirinha sestrosa". Quando apareceu o famoso filme "Cantando na chuva" o nosso tradutor não hesitou e anunciou, na rádio local, a estréia de "Se esguelando no aguaceiro".

    Meio esquisito, mas todos entendiam...

  • segunda-feira, 23 de setembro de 2013 07:10

    Gauchadas, o retorno

    Dizem que os CTGs estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Esta semana soube que existe CTG até nos Estados Unidos, o que prova que gaúcho que se muda para outras plagas fatalmente morrerá de saudades, a não ser que funde um CTG, aglutinando outros conterrâneos que vivem por lá. Se isso não acontecer, ele irá definhar inexoravelmente até à morte.

    Pois fico imaginando um gaiteiro se apresentando no CTG norte-americano, e apresentando para "ladies e gentlemen" uma música de sucesso: "Don’t ask me where is the Alegrete". Ou algo parecido...

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    Estar presente em regiões estranhas ao Rio Grande sempre foi motivo de orgulho por aqui. Isso faz lembrar a invasão da cidade catarinense de Lages, durante a Revolução Farroupilha, que aconteceu pouco depois da tomada de Laguna. Aconteceu em 1838, e o fato de estar "ampliando suas fronteiras" foi motivo de grandes comemorações entre os farroupilhas. Naquele momento, tudo fazia crer que o movimento se espalharia para outras regiões.

    Como sabemos, isso não aconteceu pela força das armas. Mas, de certa forma, sempre lembramos com orgulho que Lages é uma espécie de terra gaúcha em território catarinense, pois são incontáveis os gaúchos que vivem naquela bela cidade.

    ***

    E quem já foi guri (ou guria), sabe muito bem como funciona a psicologia gaúcha, seja pelas orientações da mãe, seja pelas lições do pais. A seu jeito, com algum carinho e alguns "cascudos", todos se criam e se tornam adultos, mas jamais esquecem algumas lições. Por exemplo, quando o guri aparece com notas baixas na escola, o sermão é este:

    "Desse jeito vais virar um abobado, um baita tabacudo! Tu sabes que comigo o buraco é mais embaixo! Passa pegar os livros, e ligeiro! Tu anda atirado nas cordas, tô sabendo."

    E o guri tenta argumentar:

    "Mas, mãe...."

    "Tu baixa a bola pra falar comigo! Tá querendo uma sumanta de laço? Estuda direitinho porque a prova é amanhã. E não te mixa, largartixa!"

    "Que porcaria..."

    "Baixa o facho, guri. Daqui por diante vou te levar na rédea curta!"

    E quando tem visita em casa, a recomendação carinhosa é para que o guri se comporte como gente grande, não faça bagunça e demonstre boa educação. Lembra disso? Pois é. O piá deve comportar-se, apesar do desejo de sair correndo atrás de uma bola, mostrando seus talentos. E se futucar o nariz diante das visitas, a reprimenda vem mais tarde, inevitavelmente.

    "Aquilo não se faz, guri".

    "Tava coçando, mãe".

    "Foi muito feio".

    "Feio mesmo, mãe?"

    "Muito, muito feio. Feio como soltar pum em velório e botar a culpa no morto".

    Com tanto zelo, a psicologia gaúcha, que eu saiba, jamais produziu adultos desorientados. Não que a psicologia clínica seja desmerecida. Mas podemos concordar que, às vezes, um três listras cumpre bem a sua função...

  • quinta-feira, 12 de setembro de 2013 22:58

    Gauchadas

    Muito perto de nós, na divisa entre Paraguai e Argentina, existe uma gigantesca barragem batizada de Yacyretá. Fica

    pouco adiante de Posadas. Pois com os debates envolvendo mais duas barragens no rio Uruguai, afloraram manifestações no outro lado rio, com denúncias que desconhecíamos.

    Entre estas, estão danos ambientais, problemas de saúde pública, geração de energia ineficiente e divergências acerca das indenizações aos desalojados.

    Para eles, a experiência amarga de Yacyretá pode se repetir no rio Uruguai.

    Nas províncias argentinas atingidas pela represa Garabi-Panambi é crescente o movimento que busca a realização de um plebiscito antes do início das obras. Via de consequência, um plebiscito no lado de lá implicará também num plebiscito no lado de cá, o que pode determinar mudança nos planos envolvendo as barragens.

    Por lá, o movimento já conta com apoio de lideranças comunitárias e políticos. E, entre os pesos pesados, está o Prêmio Nobel Pérez Esquivel.

    Debates acirrados estão por vir...

    ***

    Deu na imprensa que a Brava Linhas Aéreas interromperá seus vôos para Santa Rosa nesta sexta. A informação prestada é de que o avião estragou, e seu conserto só é possível na Europa. Não há aviões para substituição.

    Para quem recebeu concessão de vôos, a explicação é muito estranha.

    ***

    Em tempos de Semana Farroupilha, o orgulho gaúcho anda à solta. E algumas características são só nossas, que o digam os visitantes "estrangeiros", esses parentes de Santa Catarina e Rio de Janeiro que às vezes aparecem por aqui.

    Para eles, algumas características do gaúcho são inexplicáveis.

    Esse negócio de andar com a térmica e a cuia a tiracolo, todo dia e em qualquer lugar, como se explica? O gaúcho, porém, justifica: "Chimarrão é bom pra clarear as idéias e a urina".

    O gaúcho é o único ser que adora o 20 de setembro e quase não lembra do 7 de setembro, além de saber de cor o Hino-Riograndense.

    Gaúcho acha que sabe tudo de vinho, e que a melhor cerveja do mundo é a Polar, garantindo, inclusive, que a Oktoberfest de Santa Cruz é muito melhor do que aquela de Munique, na Alemanha.

    Adora fazer um "chibo" em Rivera. Por aqui, fronteira com a Argentina, o chibo acontece em Oberá ou Posadas. As compras, às vezes, nem valem a pena, mas garantem conversa para a semana toda.

    Todo domingo faz churrasco, e a sobra vira carreteiro. É infalível. Se for inverno, depois da comida tem a "lagarteada", de preferência comendo "bergamota".

    Gaúcho é chimango ou maragato, gremista ou colorado, PT ou anti-PT. Não existe meio termo por estas bandas. Em toda família tem alguém que foi filiado ao PTB, e "íntimo do Brizola".

    Chama o pão francês de "cacetinho" e, quando se embriaga, diz que tomou um "balaço". O filho chama-se "piá" e a esposa é a "mãe". O cavalo sempre é "pingo".

    De música, conhece o Teixeirinha e entoa o "Canto Alegretense" e "Querência Amada" com lágrimas nos olhos. Quando lhe perguntam se fala espanhol, ele responde: "Hablar, no hablo. Pero sapieco um poquito". Vá entender!