• segunda-feira, 24 de outubro de 2016 08:02

    Erros evitáveis

    Ficou famosa, anos atrás, uma propaganda de TV em que a atriz Carolina Dieckmann dizia, claramente, a palavra “sombrancelha”. Era um comercial de refresco em pó. Entre os publicitários criou-se até um desafio cujo objetivo era descobrir o autor do texto da peça publicitária.

    Não lembro se o descobriram. Mas o caso ficou como lição para quem trabalha na área. A revisão é indispensável. O erro fonético é comum neste caso, mas imperdoável na publicidade. Assim como seria imperdoável numa matéria jornalística ou dentro de um livro.

    O correto, é claro, é “sobrancelha”. Aliás, as da Carolina são lindas...

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    Dias atrás vi um texto de um palestrante de autoajuda que também carecia de revisão. Diversas vezes, ao longo do texto, ele usou a palavra “nomeclatura”. Aquilo doeu nos olhos e nos ouvidos. Afinal, a palavra que se refere ao vocabulário de uma determinada área de conhecimento é “nomenclatura”, com aquele “N” no meio, que muda completamente a pronúncia.

    Temos a nomenclatura jurídica, a nomenclatura das ciências biológicas e assim por diante. E a palavra “autoajuda” se escreve assim mesmo, sem hífen. Já vi este termo escrito de diversas maneiras, o que prova que a autoajuda às vezes não resolve. Também precisamos da ajuda de um dicionário, por exemplo.

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    Mas imperdoáveis, mesmo, são os erros gráficos em placas de trânsito que são fornecidas pelo poder público e que servem para orientar os cidadãos.

    Observe quando estiver em viagem. O pior deles, que se reproduz como uma praga, está nas placas que indicam distância, empregando indevidamente a crase. “Refúgio à 20 Km”. “Novo Hamburgo à 10 Km”. Ora, antes de número nunca deve ser usada a crase. É uma regrinha básica, elementar.

    Acho que o poder público não tem direito a cometer essas gafes.

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    Agora misturando língua portuguesa com política, um erro claro vem sendo reproduzido nos últimos meses, seja nas redes sociais, seja na imprensa nacional.

    Primeiramente, os adversários da presidente Dilma divulgaram cartazes com a frase “Tchau querida!”. Atualmente, a frase está assim: “Fora Temer!”. Ambas estão erradas.

    Aqui entramos no terreno do vocativo, termo pelo qual dirigimos a palavra a alguém. É um chamamento. O vocativo obrigatoriamente separa os termos por vírgula. No caso, envolve uma interjeição vocativa. Para entender é só acrescentar a interjeição “ó”.

    Por exemplo: “Volte logo, Maria”, também pode ser escrita: “Volte logo, ó Maria!”. Outros exemplos: “Ó de casa, posso entrar?”, “Ó meu Deus, o que faço agora?”, “Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve!”, “Joãozinho, saia da sala!”, “Dá-lhe, Colorado!”, “Não caia, Inter!”. A vírgula é imprescindível.

    Assim, o correto, é escrever: “Fora, Temer!”, ou então “Saia, Temer!”.

    Mas, cá entre nós, será de pouco efeito. Considerando que eles estão desmontando a educação pública e colocaram no Ministério da Educação um ministro que está mais perdido que alparcata em cancha de bocha, certamente também estão pouco interessados em questões de ortografia...

  • sexta-feira, 14 de outubro de 2016 10:15

    Dia do Professor


    Desde aquela época, o Brasil discute se realmente investir em educação é um projeto para o país, ou se o tema é algo que deve aparecer apenas nos períodos eleitorais. Tenho a convicção que o Brasil ainda não decidiu apostar de forma decisiva em educação.
    Às vezes as pessoas citam países como Coréia, Japão, Dinamarca, Suécia e Finlândia como exemplos de países que decidiram seu futuro através da educação. Mas isso é coisa de gente que pensa muitos anos à frente, gerações à frente.
    Brasileiro não é capaz de planejar tão longe assim. No máximo, o próximo ano. Talvez por isso não nos preocupamos com as próximas gerações. Mas, em compensação, fazemos discursos bem feitinhos em defesa da educação.
    É só.
    Lembro de uma frase famosa do antropólogo e educador Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise. É um projeto”.
    É fácil compreender o que ele queria dizer. A educação não é algo decisivo e não tem investimentos pesados. Melhor alimentar a indigência educacional, pois ela reproduz eternamente a submissão e a pobreza. Não formamos cidadãos. Formamos massa de manobra. Desde o império.
    E quanto à valorização do professor, o homenageado da semana, é outra questão que o Brasil ainda não decidiu nada a respeito...
    ***
    Mudando de assunto,veja que ideia interessante. No âmbito da CEEE, distribuidora de energia que atende parte do Estado, está em vigor um convênio interessante, voltado para a economia de eletricidade. Mediante convênio com uma rede de lojas de departamentos, lâmpadas e eletrodomésticos são substituídos por novos, com acentuada redução de consumo e com descontos de 50% no valor da mercadoria.
    Medida inteligente. Uma geladeira nova, por exemplo, consome cerca de 1/4 da energia consumida por um equipamento antigo.
    ***
    E por falar em energia, o jornal Correio do Povo, na edição do último fim de semana, dedicou quatro páginas aos moradores de Porto Mauá, que vivem a eterna expectativa da barragem.
    O título da matéria é primoroso: “Vidas em suspenso”.
    Como não há definição a respeito, inclusive com determinação judicial que suspendeu os estudos da barragem, a vida dos moradores fronteiriços virou uma bagunça. Ninguém pode fazer investimentos em suas propriedades (o bom senso desaconselha, é claro). E ninguém consegue fazer planos para o futuro.
    Por outro lado, a administração do município também vive momentos desagradáveis. Diversas verbas, que viriam dos governos estadual e federal, simplesmente “desapareceram”. As verbas não vêm porque, afinal, quem investiria em regiões urbanas que serão alagadas?
    Até mesmo a reconstrução de casas atingidas por enchentes está parada, pois o dinheiro não veio. O município vive a aflição do futuro incerto.

  • segunda-feira, 10 de outubro de 2016 08:02

    Rescaldo eleitoral

    O disco "Circare", do amigo Cláudio Joner, músico reconhecido em todo o Estado, merece uma melhor acolhida por parte da cidade.

    Feito com esmero (inclusive na parte gráfica), o disco contém músicas novas e algumas releituras, e conta ainda com participação de alguns músicos consagrados, dando um brilho especial às canções.

    Se você ainda não adquiriu o disco, está perdendo tempo e boa música.

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    Passada a emoção do voto, é hora de algumas reflexões.

    Embora estejamos em tempos turbulentos, algumas regras são permanentes e devem ser lembradas. Por exemplo, o sistema de "freios e contrapesos", que estabelece o equilíbrio entre Legislativo e Executivo. Por isso, o poder é sempre limitado.

    O Brasil tem quase 60 mil vereadores. Mas a população, de modo geral, não percebe a sua importância. Na verdade, o vereador é uma função desprestigiada. Mas isso está errado. O vereador é base do sistema político. É ele que conhece a vida concreta do cidadão.

    Acompanhar o vereador, conhecer o seu trabalho e cobrar dele as políticas necessárias à cidade. Tudo isso deveria fazer parte da vida de qualquer cidadão, mas a realidade é bem outra. O desprestígio do vereador contribui para a fraqueza política das instituições e da própria democracia, sem falar dos casos em que o Legislativo se submete à vontade do Executivo de forma indiscriminada.

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    O debate que se segue à eleição envolve os 35 milhões de votos nulos e brancos. O que eles significam? Pois bem. Voto em branco é voto indiferente. Voto nulo é voto de protesto. Eles não alteram o resultado eleitoral, apenas significam que os eleitos recebem menos votos.

    Mas esse volume espanto de pessoas que não escolheram seus candidatos pode significar, na visão de alguns analistas, um alerta para a classe política. Se milhões de pessoas se negam a escolher um representante (por indiferença ou por nojo), algo está errado e necessita de análise mais aprofundada pelos políticos.

    No meu ponto de vista, duvido muito que eles estejam dispostos a fazer esta reflexão.

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    Vender o voto não significa apenas trocá-lo pela notinha do botijão de gás, pela fatura da energia elétrica ou pelo sacolão reservado pelo candidato junto ao mercadinho do bairro.

    Primeiramente, quem vende o voto não tem direito a cobrar nada do eleito. Afinal, ele já comprou o mandato, e "pagou" por ele. O eleitor e o eleito estão quites.

    Mas se você vota em alguém esperando um emprego público (para você ou para um parente próximo), isso também é uma venda de voto. Afinal, você está abdicando do direito político em troca de favor econômico.

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    A cidade de Espumoso, na região do Planalto, decidiu fazer uma experiência radical. Nenhum vereador conseguiu a reeleição. Com a substituição total da Câmara, a cidade espera novos ares. No mínimo, interessante.

  • sábado, 24 de setembro de 2016 11:22

    Bem capaz!

    O traço que mais distingue o gaúcho é a linguagem. Mais do que os trajes típicos, mais do que hábitos como o chimarrão e o churrasco. Estou certo que alguns leitores vão discordar — o que muito respeito — mas tenho razões para pensar assim. Tempos atrás um “estrangeiro”, nascido no norte do Paraná, ficou muito espantado quando ouvia, nas esquinas da cidade, as pessoas dizerem: “Bem capaz!”. Confesso que foi uma dificuldade explicar o que isso significa.

    “Você não entendeu? Capaz?!”

    O “capaz” pode ser, portanto, uma exclamação interrogativa, como a acima. Pode também ser uma expressão puramente negativa:

    “Bem capaz que aquele político é honesto!”

    Ou ainda afirmativa como resposta:

    “Capaz que não!”

    Na verdade, o “bem capaz!” serve para qualquer coisa. Serve para confundir sentimentos dos ouvintes, quando você não quer dar uma opinião definitiva. Ou até um simples deixa pra lá, por exemplo, quando alguém esbarra em você e pede desculpas e você responde:

    “Capaz, guri!”

    Muitas vezes a expressão é usada como exclamação e espanto:

    “Viu que a vizinha tá traindo o marido?”

    “Capaaazzz!!!”

    No caso, o espanto se confunde com uma vontade danada de fofocar. E também temos a negativa que se confunde com aprovação:

    “Deixa eu te dar um beijo?”

    “Bem capaz!”

    Se você for um estrangeiro, deve tacar um beijo na moça. Afinal, você não é obrigado a conhecer todos os sentidos com que o gaúcho usa a expressão. E se ela responder: “Sai, piá! Tu é muito metido!”, você pode simplesmente responder, fazendo cara de anjo satisfeito:

    “Capaz...”

    ***

    Não estou falando de sotaque, que temos de sobra. Quando dizemos que o nordestino fala cantado, tenha a certeza de que eles pensam o mesmo de nós. Portanto, falamos o português com sotaque influenciado pelo espanhol. Nada de mais nisso. É até bonito, mas é sotaque.

    Estou falando do vocabulário. Tente explicar para nossos patrícios de outras plagas o que significa “na bucha”, “cheio de nove-horas”, “bodoso”, “revertério”, “cu doce” e “pau de virar tripa”. Com algum esforço você consegue. O fato é que expressões desse tipo fazem parte do nosso cotidiano e sequer percebemos que elas são exclusivamente nossas. Estão no nosso inconsciente.

    ***

    No futebol não é diferente. Dar pontapés é “abrir o açougue”. Estádio ruim é “chiqueiro”. Gol feito meio por descuido é “de chiripa”. Ganhar a partida com muitos gols é “lavada” ou “vareio”, e juiz desonesto “garfeia”.

    No Rio Grande, gandula é “marrecão”, uniforme é “fardamento”, agasalho é “abrigo”, jogo difícil é jogo “encardido”, arco é “goleira”. E quando o atleta é atingido pela bola na virilha, com muita força, o torcedor comenta, sem muita ênfase: “Coitado! Levou um selaço nos bagos”.

    Vá entender!