• sexta-feira, 22 de dezembro de 2017 16:17

    Dezembro e suas aventuras

    Além daquelas festas tradicionais, dezembro também é marcado por formaturas. Isso mesmo. Formaturas de ensino fundamental e médio (coisas que não existiam tempos atrás) e formaturas universitárias. Apesar de enfadonhas e intermináveis, as cerimônias podem nos fazer pensar sobre o eterno rodar da carroça da vida. São jovens entusiasmados, cheios de energias e planos. É bonito vê-los mergulhados em alegria e confraternização. Também descobrimos que já não somos tão jovens. O nosso nenê, que há poucos dias precisava de ajuda até para escolher um calçado, agora tem diploma, pensa por conta própria e escolhe seus amigos sem nos consultar. Que coisa!

    Fico pensando: será que meus pais tiveram essa estranha sensação? Pode até ser desconfortável, mas é inevitável. O tempo transcorre independente do nosso controle. Um dia eles, os piás, estarão esperando a formatura de seus filhos. O que também é bonito só de imaginar...

    ***

    Falando sobre o tempo e a finitude da vida, lembrei de uma frase de uma amigo, dita tempos atrás durante uma conversa descontraída:

    "A vida é sábia, e termina. Talvez seja sábia justamente porque termina. Imagine, por exemplo, gente como o deputado Eduardo Cunha e o Aécio Neves vivendo 300 anos! Impossível calcular o tamanho da desgraça".

    Pois é verdade. A vida precisa mesmo terminar em algum momento. E a renovação (vide os formandos por aí) é sempre necessária.

    ***

    O sujeito foi levado ao juiz para explicar do que estava sendo acusado:

    - É porque fui buscar os presentes de Natal antes do momento certo, doutor.

    - Como assim? Você não pode se antecipar para buscar os presentes?

    - É que eu estava buscando antes de as lojas abrirem...

    ***

    Parece invenção, coisa inacreditável, mas tempos atrás conheci um sujeito que faz parte de uma anedota. Comentei o fato com ele, e recebi a confirmação. Ele já conhecia a anedota e volta e meia era obrigado a ouvi-la. Pois vamos a ela:

    - Sabe o nome do cara que montou o primeiro presépio, lá em Belém?

    - Não sei, não.

    - O Armando Nascimento de Jesus.

    A propósito, o apelido dele é Jesuzinho. Juro.

    ***

    A propósito, você sabia que ainda hoje existe polêmica sobre o local onde nasceu Jesus? É verdade. A história clássica, e lida em todas as igrejas cristãs, diz que Cristo nasceu em Belém pois a família viajara para lá em plena gravidez de Maria. O evangelho de Mateus, escrito muito tempo depois, afirma que ele nasceu em "Belém de Judá".

    Pois há quem diga que essa afirmação buscava revestir Jesus das características previstas para o messias. Defendem que, em todo o novo Testamento, ele é chamado de "Jesus, o nazareno" ou "Jesus de Nazaré". Isto é, aquele que nasceu em Nazaré, pois naquela época não existiam sobrenomes.

    Se a polêmica persiste, é certo que não vai alterar a fé de ninguém. O bom é que, no Natal, lembremos daquela bela história e de os ensinamentos que ficaram. Estes, sim, andam bem esquecidos...

  • segunda-feira, 18 de dezembro de 2017 08:56

    Quem somos nós, os brasileiros?

    Essa é uma pergunta cuja resposta buscamos há muito tempo. Muitas reflexões resultaram em milhares de páginas. Muitas cabeças pensantes já se debruçaram sobre a nossa história e nossa sociologia, buscando entender o Brasil e os brasileiros. Talvez, para a construção sólida de um país, todos os brasileiros deveriam fazer essa pergunta e pesquisar as respostas já encontradas. Há muitos e bons livros tratando do assunto.

    Não é tarefa fácil num país que não lê. Como conhecer a nossa formação como povo e nação? Como chegamos até aqui? Quem somos, afinal? Que país é este que construímos? Qual o Brasil que desejamos no futuro? Não falo do futuro em 2018. Falo do futuro além de nós. Será que já pensamos nisso, ou ficaremos eternamente cuidando das migalhas diárias e da nossa mesquinhez?

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    Para entender a crise político-sociológica atual, duas sugestões de livros. Primeiramente, "A democracia impedida - o Brasil do século XXI", do professor Wanderley Guilherme dos Santos (Editora FGV). Depois, um dos livros mais vendidos deste ano, "A elite do atraso - da escravidão à Lava Jato", do sociólogo Jessé Souza (Editora Leya). Também é dele "A radiografia do golpe", uma análise dos fatos recentes.

    Nestas obras, a análise do Brasil dos últimos anos, marcado por ressentimentos culturais, ódios políticos e irresponsabilidades jurídicas. Vale a pena.

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    Mas isso não basta. Para entender quem somos precisamos buscar reflexões que remontam à formação do Brasil, à própria história.

    Por isso, antes de entrar em discussões sobre o que é certo ou errado, leia livros como "Os brasileiros" e "O povo brasileiro", ambos do Darcy Ribeiro. Também leia, do Gilberto Freyre, "Sobrados e mocambos" e "Casa Grande & Senzala". Do Alberto Passos Guimarães leia "Quatro séculos de latifúndio". Do mestre Sérgio Buarque de Hollanda procure "Raízes do Brasil" e "Visão do Paraíso". Também vale se aventurar na extensa "História geral da civilização brasileira", também do Sérgio, e que tem 11 volumes.

    A lista deve incluir "Os sertões", de Euclides da Cunha, e "Coronelismo, enxada e voto", de Vitor Nunes Leal. Também é ótimo o "Formação do Brasil contemporâneo", de Caio Prado Júnior.

    É bom acrescentar também Raimundo Faoro, com o clássico "Os donos do poder" e, do Boris Fausto, "História do Brasil". Sobre a história mais recente, indispensável é "Brasil: nunca mais", obra já clássica que reúne farta documentação sobre a ditadura.

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    Você já percebeu que a lista é pequena. Poderia ser muito maior. Mas são obras clássicas e fundamentais, lidas obrigatoriamente em universidades brasileiras e estrangeiras. Eles modificam a nossa cabeça.

    Mas para quem deseja entender de onde viemos, e como nosso país chegou ao Brasil que conhecemos hoje, o nosso Brasil contemporâneo, são alguns livros que não podem ignorados.

    Acho que se todos lessem esses livros (e muitos outros, é claro), o nível do debate seria outro. Mais elevado, mais qualificado. Pois (creio que concordamos nesse particular) a qualidade das discussões sobre política, história e sociologia, anda muito baixa. Pelo que tenho visto (e escutado) tem muito cego por aí querendo ser condutor de outros cegos.

    Assim, não se chega a lugar nenhum.

  • sexta-feira, 1 de dezembro de 2017 14:47

    O cheque do leite

    Essa expressão - "o cheque do leite" - é bem típica da nossa região.

    São milhares os pequenos agricultores (em boa parte do Estado) que, para complementar o orçamento doméstico, contam com o cheque do leite pago pela indústria periodicamente. Enquanto esperam pela colheita de outras plantas, como soja, milho e mandioca, o cheque do leite garante a cobertura das despesas mensais.

    É uma renda habitual, e não é incomum ouvir o agricultor dizer, lá no mercadinho da vila onde compra na caderneta: "Vou pagar com o cheque do leite".

    Pois essa realidade mudou. Nas últimas semanas conversei com diversas pessoas que simplesmente abandonaram a produção de leite. Não sabem o que fazer com os equipamentos instalados em suas propriedades, e também não têm ideia se um dia voltarão a comprar vacas leiteiras.

    Segundo algumas fontes ligadas ao setor leiteiro, mais de 20.000 produtores se retiraram da atividade entre outubro/2016 e outubro/2017.

    A queda no valor pago ao produtor é a principal razão. O mercado monopolizado é outra. Os produtores com alto grau de investimento e especialização continuam produzindo, mas os pequenos, com produção mais rudimentar, já não conseguem esperar o cheque do leite. Há outras razões em debate, como a importação do leite uruguaio, a redução da compra de leite pelo governo federal, o aumento do consumo do leite vegetal, entre outras.

    Não há solução mágica à vista, mas a mobilização dos produtores pode, sim, gerar soluções que envolvam todo o sistema. Ou seja, é algo complexo. O que não pode acontecer é fazer de conta que o problema não existe.

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    Falando em atividades do campo, é interessante observar uma importante mudança que vem acontecendo na região noroeste, especialmente nas áreas fronteiriças. A mudança na paisagem é visível em municípios próximos como Alecrim, Novo Machado, Porto Vera Cruz e em outros cuja topografia é muito acidentada. Por lá, estão desaparecendo as lavouras extensivas como soja e trigo. Aliás, em algumas áreas lavouras já não existem.

    O que vemos são áreas se transformando em mato, para futura extração de madeira, e também extensos espaços destinados à criação de gado para abate. As paisagens são verdes o ano todo.

    São regiões onde, em décadas passadas, os homens do campo se lançaram desesperadamente na monocultura (soja e trigo, especialmente). Mas a monocultura foi perversa. A renda caiu abruptamente. Os jovens desistiram. O campo se esvaziou ou restou a população envelhecida. Os que ainda estão lá já não têm forças físicas para enfrentar o trabalho na lavoura. Os municípios perderam grande parte de sua população. Nem as escolas públicas conseguem manter suas estruturas.

    Para os que estudam os fenômenos econômicos, certamente é uma lição histórica. A monocultura extensiva e predatória (que hoje chamamos simplesmente de "agro") é cruel e cospe os seres humanos do seu interior. Força a especialização, a concentração de renda em grandes grupos, e pouco interesse tem pelas populações. É incompatível com a pequena produção familiar.

    Mas os agricultores resistem buscando alternativas, mostrando que a criatividade pode gerar outras fontes de renda, fora do circuito agro-exportador. Talvez seja uma solução sábia. Talvez por aí voltemos a encontrar a segurança alimentar, a comida com qualidade. Talvez no futuro retomemos o caminho da agropecuária capaz de manter o homem no campo. Num campo mais verde, diga-se de passagem.

     

  • sábado, 18 de novembro de 2017 11:56

    Os suecos não são bobos

     

    Não gosto de fazer comparações do tipo “lá na Europa é que as
    coisas funcionam”. Ou então aqueles comentários do tipo “se fosse nos EUA seria diferente”. São comentários meramente auto-depreciativos, também conhecidos como viralatismo brasileiro.

    Mas às vezes é preciso prestar atenção. Por exemplo: a visita do ministro da Educação da Suécia, Gustav Fridolin, não despertou o interesse de ninguém. Mas deveríamos ouvir com atenção o cara que é responsável pela educação num país que é exemplo para o mundo todo. Alguma coisa interessante ele deve ter para nos contar, pois estamos apenas ouvindo o nosso ministro da educação, Mendonça Filho, político tradicional, herdeiro de agroindústrias e envolvido em escândalos na eleição de 2014. De educação entende pouco ou nada. Ninguém sabe o que está fazendo lá.

    Mas voltemos ao sueco. Ele esteve em Porto Alegre na semana passada. Veio participar da feira do livro e passeou pela cidade... de bicicleta!

    As crianças suecas começam a aprender programação de computador no 1º ano do ensino fundamental. Um dos focos do sistema de ensino é que os alunos saibam discernir o que é certo ou falso na internet, e entendam tecnologias desde cedo. O ensino é gratuito para todos, da pré-escola até a universidade.

    Atualmente o governo sueco está empenhado em formar mais professores. O resultado é que eles, os professores, permanecem na profissão, pois são valorizados. A Suécia é que deseja isso. Não é opção deste ou daquele governante.

    A leitura é o projeto número um para todos. Isso inclui a família do estudante, que deve participar e se envolver com a leitura. Entender a sociedade depende da leitura. Não há desenvolvimento sem livros, é o que dizem os suecos.

    A sociedade sueca e sua escola têm como meta a redução da desigualdade, pois a desigualdade corrói a economia. Coisa fácil de entender. Outro valor é a democracia, estudada e valorizada por eles desde crianças. A temática “democracia” faz parte dos currículos, e isto é visto com absoluta naturalidade (imagine uma coisa dessas num país de golpistas como o Brasil). Os suecos acreditam que a escola deve mudar a sociedade, e não apenas reproduzi-la. Apostam assim num futuro em permanente evolução, garantindo uma sociedade onde todos gostam de viver.

    Uma lição e tanto! Esses suecos não são bobos.

    ***

    O CONTRAN regulamentou alguns dispositivos do Código de Trânsito que falam das multas a serem aplicadas a pedestres e ciclistas. Aquelas envolvendo os condutores de veículos são bem conhecidas e estão vigentes há anos.

    A partir de 2018, portanto, poderão ser aplicadas multas, por exemplo, para o pedestre que cruza a via fora da faixa. Também para o ciclista que circula na contramão ou sobre o passeio. Basicamente, o Código define onde pedestre não pode circular ou permanecer, sob pena de multa. Para o ciclista, diz que ele só pode circular onde permitido. As multas vão de R$ 44,19 até R$ 130,16.

    Pensando bem, não tenho a menor ideia de como eles vão aplicar as multas. Pelo que eu sei, pedestre e bicicleta não têm placa. Então, a saída pode ser vincular a multa ao CPF do cidadão infrator? A multa vai virar dívida ativa? E se o ciclista desaparecer antes de informar o seu CPF? Como a bicicleta será guinchada?

    Confesso que não sei. No mínimo, alguma confusão. Mas pode ajudar para uma maior consciência do trânsito, especialmente para aqueles que não estão sentados ao volante. Trânsito é convívio, precisamos entender isto.

    Pensando bem, aqui na cidade até cairia bem uma multa para quem cruza a faixa de pedestre digitando no celular. Ou para quem não sabe usar a seta de direção. Ou para pedestres descansados ou imprudentes, desses que subitamente se lançam sobre a rodovia. Seria bastante pedagógico.