• sexta-feira, 2 de março de 2018 15:54

    Para votar bem

    Este ano teremos eleições majoritárias. Presidente, governador, deputados federais e estaduais. Pelo menos, está previsto no calendário do TSE. Tem gente que jura que, por debaixo dos panos, os malandros querem adiar o pleito para 2020. Algo muito perigoso.

    Mas vou dar uma contribuição para melhorar o seu voto. Todos queremos votar bem, mas a coisa é mais complicada do que parece. Para início de conversa, veja como se compõe a atual Câmara Federal e suas bancadas mais poderosas.

    Ruralistas (207 deputados); evangélicos (197), empresarial (208), empreiteiros e construtores (226), e, ainda, a bancada dos "parentes", que são aqueles que vieram de famílias de políticos ou são filhos de políticos do passado (238 deputados). Temos ainda, a bancada BBB (bala, boi e bíblia), uma coisa bem confusa.

    Só para termos uma referência comparativa, também há na Câmara a bancada da saúde (21 deputados), a dos direitos humanos (23) e a sindical (43).

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    Veja, por exemplo, a distância entre a bancada que defende a saúde (21) e a que defende as empreiteiras (226). É um abismo...

    Essa estrutura de blocos, embora com pequenas variações, é dominante na Câmara Federal há décadas. Interesses republicanos? Duvido!

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    Ouço, seguidamente, pessoas que dizem: "Eu não voto em partido, voto na pessoa". Até parece que elas conhecem muito bem o seu candidato. Pesquisas comprovam que o brasileiro, em sua grande maioria, não lembra em quem votou nas últimas eleições. Na verdade, não conhece o político. Portanto, essa conversa do "voto na pessoa" é papo furado.

    Para votar melhor, é importante sabermos como funciona o Congresso Nacional (Câmara e Senado). Saiba que o seu político vota em blocos, seja partidários, seja de interesses. Portanto, aquele simpático deputado que você diz que "conhece", muitas vezes está votando contra o teu interesse. Lembre-se disso.

    Outra coisa importante é saber quem financia o político. Quem financia dá as ordens, certo?

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    Deputado não é um cara que anda por aí com um crachá dizendo "sou da bancada ruralista". O que define esse perfil é a forma como vota e quais projetos apresenta na Câmara. Também conta o histórico de atuação política. Alguns participam de mais de uma "bancada", votando sem muito critério.

    Quando aquele seu amigo engraçadinho diz que a culpa dos problemas do Brasil são os sindicalistas e o pessoal dos direitos humanos, mostre pra ele os números acima. Se ele for inteligente (o que eu duvido), entenderá...

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    Concluindo a conversa, você não precisa aderir a um partido político para votar corretamente. Mas é fundamental deixar de lado essa conversa de que devemos "votar na pessoa". A maioria dos eleitos não se preocupa com programas de seus partidos, mas convencem os eleitores a votar "na pessoa dele", um cara simpático, bem relacionado, com uma família exemplar. Todos se dizem "pessoas de bem".

    Mas a história vem mostrando, há um século, que ser "pessoa de bem" não resolve os problemas brasileiros. O seu voto é que resolve. Para o bem ou para o mal. E se você votar com uma visão particular e individual, estará apenas perpetuando o que já conhecemos, e que mostrei acima.

    Depois, não procure culpados imaginários...

  • sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018 08:46

    Teremos água?

    A nossa região está situada sobre o aquífero Guarani, um imenso depósito de água subterrânea que alcança o solo brasileiro, argentino, paraguaio e também parte do Uruguai. Pois o aquífero está na ponta dos debates sobre ecologia e saúde em todo o continente.

    Recentemente, a Nestlé chegou a ser acusada de tentar privatizar a água. Não foi bem isso o que disse o presidente da maior multinacional de água engarrafada do planeta. Também não chega a ser uma total verdade (mas não duvido disso) que o governo brasileiro atual estaria propondo a "venda" do aquífero, em mais um lance de privatização do patrimônio nacional.

    No entanto, é verdade que a Nestlé e a Coca-Cola estão investindo alto no negócio da água no Brasil, o que inclui a compra de inúmeras pequenas empresas produtoras de água e suas licenças de extração. Consta também que estão exportando a água brasileira como se fosse um commodity. Um negócio quase tão lucrativo quanto o petróleo.

    Em Michigan, nos EUA, a Nestlé já está envolvida em processos judiciais e, na cidade de Evert o bombeamento da água pela empresa já está secando rios e riachos, causando desespero nos moradores, conforme matéria divulgada recentemente pela revista Exame.

    A propósito, a indústria instalada pela Nestlé em Palmeira das Missões (que chegou a ser disputada por Santa Rosa) atualmente "exporta" água para São Paulo, segundo informações que recebi. Será que o negócio da água já está mais lucrativo que o leite?

    Será que a Nestlé, em Palmeira das Missões, está bombeando águas profundas no aquífero, como ficou comprovado na cidade de S. Lourenço, em São Paulo, onde chegou a construir um parque hídrico e está sofrendo a resistência da população?

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    Aliás, está na hora de uma investigação séria sobre a água vendida em garrafas pet no Brasil. Há quem afirme que se trata de água de torneira que recebe acréscimo de alguns minerais, nada mais que isso. Margem de lucro extraordinária.

    Em março acontece em Brasília o 8º Fórum Mundial da Água. Lá, o tema voltará ao debate. A água do planeta pode ser privatizada? Ou é um direito humano, já que ninguém vive sem água? Seremos tão tolos a ponto de entregar o controle da água nossa de cada dia?

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    O Musicanto está com inscrições abertas, o que deve despertar o interesse de compositores de diversas regiões do país. Festivais com o perfil do Musicanto, ou seja, um festival aberto, são raros.

    Mas este ano teremos uma nova experiência. Aliás, o nosso festival já fez experiências de todo tipo. Pois agora está inserido na programação da Fenasoja, e acontecerá a partir de 27 de abril.

    O que podemos fazer é torcer para que o festival recupere suas forças e sua notoriedade. Há quem suspeite que ele não sobreviverá a essa nova realidade, inserido numa feira de negócios. Mas há também aqueles que apostam nessa parceria para renovar o fôlego do evento.

    Veremos tudo isso em breve. Mas o simples fato de estarmos falando aqui sobre o Musicanto já é uma boa notícia...

  • sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018 14:51

    Coisas da cidade e região

    Resumo do carnaval: não existiu. Até o Clube Concórdia tentou fazer baile, com as melhores intenções, mas apenas comprovou que o carnaval nos clubes realmente desapareceu. Restaram os blocos de jovens carnavalescos que, na verdade, fizeram suas festas nas cidades próximas, e não em Santa Rosa.

    Pensando cá com meus botões, existe um movimento claro da prefeitura para desistir de todo e qualquer evento de sua iniciativa, seja na área do lazer, seja na área cultural. Estou falando daqueles eventos (de espécies diversas) que milhares de prefeituras realizam e que promovem e divulgam suas cidades. Em Santa Rosa eles desapareceram.

    O poder público desistiu de ser protagonista. Age apenas como coadjuvante. Um tímido coadjuvante de eventos que são promovidos por particulares. Não há mais evento municipal relevante.

    É um fenômeno estranho, com singelas explicações tipo "falta dinheiro" - o que é questionável - mas que não é nada bom para a cidade. Uma cidade sem eventos próprios assume a própria apatia, é o que eu acho.

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    O grito de carnaval mais ouvido em todo o país foi "fora, Temer!".

    Você queria o quê?

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    É engraçado como, no período de carnaval, sempre aparece gente dizendo coisas como "brasileiro só quer festa", "são todos vagabundos", "é por isso que o Brasil não progride", e outras asneiras.

    Você tem inteira liberdade e arbítrio para, durante o carnaval, passear, visitar parentes, ler livros, ir para o trabalho ou simplesmente ficar em casa descansando. O equívoco é querer frustrar a festa dos outros. Mesmo sem perceber, é uma atitude careta, antiquada e conservadora. Coisa de falsas beatas.

    Carnaval é festa e alegria. É festejar a vida. Admita que todos têm esse direito. É tão simples.

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    Encerrado o período da piracema (aquele em que a pesca é proibida), o feriadão de carnaval foi assustador para os peixes do rio Uruguai.

    Faltou alguém para organizar o "trânsito" dos barcos de pescadores que, esfomeados, se lançaram sobre o rio em busca de algum peixe, saudosos de aventuras fluviais. O som constante era dos motores de barcos que subiam e desciam o rio, como se estivessem à caça de algum surubi fujão.

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    Na semana passada, aqui perto, em Roque Gonzales, foram apreendidas dezenas de embalagens de agrotóxicos provenientes do Uruguai. São produtos proibidos no Brasil, e que, via contrabando, estão aparecendo nas regiões de plantio aqui do noroeste. Se eles estão por aí, certamente há quem os compre, descuidando da própria saúde e colocando em risco a saúde coletiva.

    Não custa, pois, repetir aqui os sábios conselhos: compre veneno só de empresas credenciadas, siga rigorosamente as instruções de manuseio, utilize quando estritamente necessário e estoque com o máximo cuidado.

    Pelo visto, ainda temos agricultores descuidados por aí.

  • sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018 09:19

    Quem ama Pabllo Vittar?

    Um amigo lamenta o “nível” musical brasileiro neste início de 2018, dizendo que os sucessos do verão, como Anitta, Pabllo Vittar e Maiara & Maraísa são porcarias insuportáveis. Diz também que no passado a qualidade dos nossos artistas era outra.

    Concordo apenas em parte.

    Ouvir músicas como “50 reais” é de intoxicar os ouvidos e a sensibilidade. Ninguém duvida disso. Sei de gente que ouve esse tipo de música o dia todo. Algum problema eles têm, mas não imagino o que seja. Pabllo Vittar, Jojo Toddynho, Simone & Simaria e Gustavo Lima são sucessos atualmente, acredite.

    Mas isso não significa que, no passado, o “nível” era melhor ou que a vida cultural era mais significativa.

    Acontece que vivemos numa sociedade de consumo. Músicas e artistas, portanto, são considerados mercadorias. O objetivo é vender o máximo, no menor tempo. Depois, são descartados. Vão para o lixo. São os artistas da temporada.

    Por isso fica essa estranha sensação. Lembramos de boas músicas do passado e chegamos a dizer que no “nosso tempo” as coisas eram melhores. Acontece que lembramos do que ficou, do que permaneceu, do que tinha reais qualidades, e esquecemos a baixa qualidade que também havia. Isso sempre aconteceu. O que é bom permanece. O que é porcaria vai para o lixo. É uma espécie de decantação que às vezes não percebemos.

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    Você lembra, por exemplo, de artistas que tiveram sucesso estrondoso há pouco tempo, como Fat Family, banda KLB, Pepê e Nenem, Kelly Key, Felipe Dylon, Jean & Marcos e João Lucas & Marcelo?

    Pois é. Fabricado o sucesso, e alcançado o faturamento desejado, eles foram literalmente descartados. Isso se chama “indústria cultural”. O próprio nome já diz. É uma indústria, e precisa renovar rapidamente seus “produtos” para vender bastante.

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    Quando se fala de produção cultural, temos que entender um detalhe importante. As músicas dos artistas que mencionei acima não exigem qualquer capacidade de interpretação. São muito simples. Na verdade, não têm nada a nos dizer. Não precisamos de capacidade de análise ou interpretação. Por isso seu sucesso é instantâneo e sob encomenda.

    Isso acontece com frequência. Não há pecado algum em gostar de Pabllo Vittar ou Anitta. O pecado está em achar que isso tem alguma importância cultural para a sociedade.

    Uma música, um livro, um filme ou uma peça de teatro que nos pedem um nível de conhecimento e análise mais complexo geralmente não fazem sucesso imediato. Leva um tempo para percebermos sua importância e sua complexidade.

    É por isso que lemos um livro escrito no século 18, ouvimos uma música da década de 50 e lembramos de um filme visto em 1985. Significa que eles têm algo a nos dizer. São desafiadores. Nos provocam. São permanentes. Conduzem-nos a pensar, a interpretar.

    Sempre foi assim, repito.

    É mais confortável ficar jogado no sofá e receber informações fáceis. Isso chama-se indústria cultural, e nela você é apenas um consumidor.

    Porém, quando uma obra de arte nos desafia para uma interpretação complexa, aí sim estamos vivendo uma experiência cultural significativa. É outra coisa...