• sábado, 13 de julho de 2013 13:24

    Ainda protestando

    Deu polêmica a expressão "paço democrático", utilizada nesta coluna na semana passada. A palavra "paço" designa prédio, palácio. É frequentemente usada para designar, por exemplo, o "paço municipal", que nada mais é que a prefeitura. Às vezes se confunde com o espaço físico em frente ao prédio. O mais correto, porém, seria dizer "largo democrático" para indicar o espaço em frente ao Centro Cívico onde se reúnem os folgados de Santa Rosa para debater assuntos aleatórios, como os citados aqui no Noroeste. A palavra "largo", além de adjetivo, é também substantivo que significa um local amplo e de uso público.

    Por outro lado, nada impede a designação do próprio Centro Cívico como sendo um "paço democrático", visto que abriga eventos incontáveis de toda a comunidade. A discussão foi proveitosa, como se vê, e também prova que temos leitores naquele ponto de encontro. Pelo menos, no sábado passado, eles tiveram um tema útil para o debate.

    Pois entre os frequentadores do local há dois casos curiosos de utilização da tecnologia. Os dois amigos utilizam o celular apenas para atender uma única chamada e dizer três palavras. Um deles, ao atender a chamada, só diz: "Sim, dona Rosane". E o outro somente "Sim, dona Elisabete". Eu não entendo essa gente....

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    Entre as incontáveis manifestações públicas dos últimos tempos, algumas faixas e cartazes traziam, o que já era esperado, o bom humor do brasileiro. Pensando bem, por que um protesto não pode ser divertido? Veja algumas delas:

    "Chega de enganação! Abaixo o sutiã com bojo!"

    "Aula de caligrafia para os médicos já!".

    "Com essa tarifa, só se o ônibus tivesse wi-fi, air bag e barzinho liberado".

    "Queremos a bolsa-chimarrão! O preço da erva tá nos engasgando!"

    "Redução da passagem aérea já! Faz dois meses que não vou a Miami".

    "Odeio bala de borracha. Joga tic-tac, por favor".

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    Como já prevíamos, o Congresso rejeitou a idéia do plebiscito sugerido por Dilma. Ocorre que os "patrocínios" da campanha de 2014 já estão sendo costurados, e ninguém quer abandonar o que já contratou. Também não querem reforma política. Pelo que se viu até agora, o Congresso não percebeu o que está acontecendo, nem a situação de desconforto que está causando no país...

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    A proposta mais estapafúrdia que vi nas últimas décadas partiu da revista Veja, aquela que abriga a ala mais reacionária da imprensa brasileira. Pois acredite, a revista propôs que os beneficiários do Bolsa Família percam o direito de voto. Ainda bem que o assunto virou piada em todo o país.

    O chamado voto censitário existiu no Brasil entre 1824 e 1891. Nesse período, só podiam votar os homens (sexo masculino, bem entendido) com renda superior a 100 mil-réis (a moeda da época).

    A ridícula sugestão da Veja, que revela apenas uma mentalidade do século 19, leva-nos a estender a eliminação do direito de voto, por exemplo, também para quem compra carro com IPI zero, quem estuda em universidade pública, quem recebe financiamento com subsídio, e assim por diante.

    A gente vê cada burrice por aí...

  • sexta-feira, 5 de julho de 2013 14:42

    Gente interessante

    Santa Rosa já teve a sua "esquina democrática", a exemplo de muitas cidades Brasil afora. Ela estava localizada na confluência rua Santos Dumont com a rua que passa em frente à antiga prefeitura, bem diante da ex-banca de revistas (espaço que hoje é ocupado pelos artesãos locais).

    Lá se reuniam políticos, jornalistas, advogados e outros debatedores para comentar os assuntos em voga na cidade, especialmente nas manhãs de sábado, sempre com a presença do aguerrido Erani Müller (que foi vereador e deputado). O Erani era uma espécie de catalisador dos debates. Os tempos eram outros, e os assuntos também. Na época, a política dominava, mas de vez em quando as conversas também envolviam pescarias, especialmente quando o peixe era grande demais para caber no rio Santa Rosa.

    Hoje temos o "paço democrático", em frente ao Centro Cívico, onde se encontram figuras carimbadas em discussões sobre o fim do mundo, as passeatas nacionais e a importância do tomate na elaboração do molho de macarrão. Já vi debates acalorados sobre o motor do Chevette 1977, as estratégias de sobrevivência no casamento, o futuro do rio Uruguai e a qualidade dos vinhos vindos da região de Chiapeta. Lá estão o Borrego, o Jansen, o Lucindo, o Adalto, o Faccin, o Vescia, o Barão, o Leo Bauken e outras figuras impagáveis que tentam resolver os problemas nacionais e universais. Ao final das conversas, obviamente, não produzem nenhuma conclusão valiosa, ou, pelo menos exequível. Mas, tenho de reconhecer, eles se divertem!

    Afinal, o que há de melhor a fazer com a vida numa manhã de sábado?

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    Vale a pena refletir sobre a manifestação do presidente do Uruguai, Pepe Mujica, que é uma figura ímpar entre os líderes do mundo. Mujica é conhecido por andar de ônibus, cultivar o próprio jardim e ser um hábil negociador político. Também é lembrado por ter combatido a ditadura uruguaia nas décadas de 60 e 70, regime que ajudou a derrubar. A vida austera do presidente uruguaio sempre chamou a atenção de todos. Afinal, é algo incomum ver um presidente da república pegando ônibus para chegar ao trabalho.

    Pois a imprensa internacional batizou Mujica de "o presidente mais pobre do mundo" em razão do seu estilo simples de viver. Indagado a respeito, o presidente uruguaio respondeu com a calma de sempre:

    "Eu não sou pobre. Pobres são aqueles que precisam de muito para viver. Esses são os verdadeiros pobres. Eu tenho o suficiente. Sou austero, carrego poucas coisas comigo, porque para viver não preciso mais do que tenho".

    Nesses tempos de consumo desenfreado, em que as pessoas lutam desesperadamente para trocar de carro e de celular todos os dias, em que as pessoas são tão descartáveis quando um saquinho de supermercado, a resposta de Mujica merece uma grande e verdadeira reflexão.

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    A notícia divulgada na semana passada dá conta de que a Prefeitura comprou uma área de 5 hectares, que será doada a uma empresa que virá instalar-se no município. Até aí, tudo bem. A iniciativa privada sempre tira vantagem do interesse das comunidades pelo desenvolvimento.

    O interessante é que o valor pago é de R$ 350 mil. Fazendo as contas, temos R$ 70 mil por hectare. Considerando o atual preço da soja, são 1.160 sacas de soja por hectare. Deve ser o preço de lavoura mais caro do país. Eu, hein!

  • sexta-feira, 28 de junho de 2013 15:57

    Polêmicas

    A chave para clarear o ambiente político brasileiro parece ser a reforma política, da qual ouço falar desde a época em que eu usava fraldas e chupeta (pouco tempo atrás, portanto). Evidentemente as forças mais conservadoras do cenário político não a desejam.

    Uma reforma tem contornos imprevisíveis, e, num momento como este, pode derrubar incontáveis privilégios e deixar mais claras e limpas as eleições. Ninguém duvida que o atual sistema eleitoral e o financiamento das campanhas são os pilares de sustentação de um modelo político corrupto e viciado.

    Há dois caminhos. A reunião de 1,6 milhão de assinaturas (1% do eleitorado) para que o projeto siga o mesmo caminho do famoso projeto da Ficha Limpa. Para isso, a campanha já começou (saiba mais em "www.eleicõeslimpas.org.br"). No RS, com a articulação da OAB (e um grande número de entidades), a meta é obter 150 mil assinaturas. Acho que podemos obter muito mais.

    O outro caminho é aquele proposto por Dilma esta semana. Um plebiscito. Nesse aspecto, a presidenta foi rápida e objetiva ao mover as peças do xadrez. Se o Congresso não aprovar o plebiscito, será atropelado pelas manifestações públicas. E se aprovar, terá de engolir uma nova realidade de eleições limpas e partidos mais responsáveis. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

    De deixada a cargo do Congresso, ela não vai acontecer tão cedo. Mas as manifestações a tornaram quase inadiável. É o momento para ser aproveitado.

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    Eu, que gosto de futebol, já estava ficando com a consciência pesada de tanto ouvir dizer que a Copa vai deixar o país na miséria. É uma crítica leviana.

    Os estádios são construídos por municípios, clubes e empreiteiras. Para isso, quando necessitam, buscam empréstimo no BNDES. Alguns desses empréstimos já estão sendo pagos. O governo garante que não há recursos do orçamento da União para as arenas, nem mesmo para o estádio Mané Garricha, em Brasília.

    O dinheiro público, este sim, está sendo aplicado em obras de infraestrutura, como portos, aeroportos, estradas, telecomunicações, transporte urbano, etc. Quem visitou Porto Alegre recentemente sabe do que estou falando. As cidades-sede estão recebendo investimentos estruturais pesados. Algo em torno de 14,5 bilhões de reais.

    Esta semana, a renomada consultoria Ernest & Young garantiu que o retorno para o país será quatro vezes maior que todos os investimentos, e a preocupação, no momento, é com a gestão de tudo isso. Um exemplo disso é a rede hoteleira, que criará 20 mil novos leitos. Tanto os novos empreendimentos quanto os megaeventos necessitam de muita gente. O número de empregos ainda é motivo de polêmica. Uns dizem que ficará em 1,5 milhão. Outros, que pode chegar a 3 milhões de empregos permanentes.

    Eis aí uma ótima polêmica. E a minha consciência social fica mais aliviada. Vou poder torcer pela seleção sem constrangimentos.

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    Esse é um falso dilema que alguns oportunistas utilizam nesses momentos. "Não podemos fazer nada, pois o dinheiro deve ir para a saúde". Se esse raciocínio tivesse algum valor (coisa que não tem, pois é falso), não poderíamos ter cinemas, teatros, bibliotecas, parques, estradas, segurança, proteção à natureza, eventos artísticos, esportes de massa, pesquisa científica, universidades, aeroportos, turismo, indústria do entretenimento, áreas de lazer, e muito menos estádios e ginásios esportivos.

    Entendeu? Desenvolvimento humano é integral, ou não é.

  • sexta-feira, 21 de junho de 2013 17:04

    Luz, mais luz!

    Quase não resisti à tentação de falar sobre as manifestações públicas pelo Brasil afora. Mas me contive. Melhor esperar para ver as coisas com maior clareza, com mais luz. Até porque ninguém sabe exatamente o que está ocorrendo. Por isso mesmo, me reservo o direito de comentar os protestos mais tarde. Ou, como diria o grande Paulinho da Viola, em meio ao nevoeiro vou conduzindo o barco devagar.

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    O fenômeno das redes sociais (especialmente o Facebook) também precisa de um certo discernimento. O que tenho visto de bobagens por lá é de chocar.

    Tempos atrás, as redes sociais foram tomadas por manifestações indignadas sobre o auxílio-reclusão pago às famílias de pessoas encarceradas. Houve até gente pedindo a destituição da presidente da república por conta dessa "vergonha nacional". Conclusão: nenhum desses revoltados internautas sabia o que é o auxílio-reclusão, o que ele significa, e muito menos os valores que são efetivamente pagos. Também não sabiam que o auxílio-reclusão existe desde quando a Dilma era adolescente. Uma grande furada, foi o que assistimos.

    Mais recentemente, outra vez as redes sociais foram invadidas por manifestações coléricas sobre um projeto de lei que criaria uma "bolsa prostituta", no valor de R$ 2 mil, valor este que seria pago às profissionais do sexo para que pudessem estudar e mobiliar suas casas. Chegaram a indicar a autora do "vergonhoso" projeto de lei. É claro que a acusada teria de ser uma senadora do PT. Descobriu-se, logo a seguir, que o tal projeto nunca existiu. A mentira correu solta no Facebook, e milhares de ingênuos acreditaram!

    Também recentemente as redes sociais se encarregaram de divulgar a "notícia" de que o governo federal estaria acabando com o Bolsa Família. O boato causou comoção em diversas cidades e desentendimentos políticos diversos. Nada do que foi divulgado era verdade. Mas houve quem acreditasse...

    Em maio último os internautas se revoltaram contra uma estudante chamada Sophia Fernandes, que teria postado mensagem preconceituosa contra os nordestinos. Não faltou quem pedisse a condenação da jovem à cadeira elétrica. Logo descobriu-se que a mensagem era falsa, criada por alguém com segundas intenções. Na linguagem da internet, foi um "fake", ou seja, alguém usou o nome da jovem, criando perfil falso e divulgando mensagem xenófoba. Mais uma vez milhares acreditaram...

    Enfim, a rede social está cheia de besteirol, sem falar naquelas frases e mensagens jocosas e irônicas envolvendo Lula e Dilma, cujo conteúdo, além de não contribuir para o debate sócio-político, são claras manifestações do pensamento fascista.

    Se é possível deixar uma sugestão, aí vai ela. Não abandone a rede social, mas utilize-a com a finalidade para a qual foi criada. Encontre pessoas, comunique-se, aumente suas amizades. Mande mensagens simpáticas ou altruístas, se assim quiser. Enriqueça sua vida. Mas não seja ingênuo. Não acredite em factóides. Não seja manipulado.

    ***

    Esse comentário me fez lembrar a famosa frase, dita pelo alemão Goethe, no leito de morte: "Luz, mais luz!". A luz dissipa as trevas, não é verdade?

    Mas também fez lembrar o escritor austríaco Robert Musil, comentando como a verdade pode ser distorcida:

    "Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar; ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade".