• sexta-feira, 17 de maio de 2013 10:15

    Atenda logo, tchê!

    O celular é útil, prático, nos mantém ao alcance do mundo, e, ao contrário do que muita gente pensa, não é nada barato.

    No Brasil, onde já existem 263 milhões de linhas de celular (algo próximo de 1,4 linha por habitante). É como bunda e celulite, todo mundo tem. Os números brasileiros, porém, são realmente espantosos.

    Um levantamento da UIT (União Internacional de Telecomunicações), realizado em fevereiro último, mostra que o serviço no Brasil é muito ruim, além de caro. Utilizando como parâmetro um pacote que inclui 30 ligações e 100 mensagens, o custo brasileiro é o 43º mais caro no mundo. Este pacote custa em média R$ 125,00. Nos Estados Unidos, já convertendo o custo em dólares, ficaria por R$ 72,00. Em Portugal, R$ 46,00. Na Dinamarca, R$ 16,00.

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    O chato, nessa onda incomensurável de aparelhos móveis, é o seu uso sem nenhuma cerimônia ou civilidade.

    Com frequência ouço reclamações. Na missa, no cinema, ou mesmo numa sala de aula, os aparelhinhos subitamente soam, muitas vezes com muitos decibéis.

    Dias atrás, estava eu numa fila de banco, e, de repente, tocou um celular. O ruído era de uma música funk, ruidosa e obscena (o que não é nenhuma novidade). O volume era inacreditavelmente alto. Vi o desconforto das pessoas à minha volta, e o sujeito (dono do celular) tentando localizá-lo no bolso do casaco. De dentro do bolso, primeiramente, saiu um molho de chaves, um baralho, um pente, um espelho redondo com um vistoso adesivo do Internacional, uma ficha de aposta do jogo do bicho e um maço de cigarros com o respectivo isqueiro. Depois, finalmente, surgiu o ruidoso e agressivo aparelho celular.

    Quase decorei a letra da música muito "instrutiva". Afinal, letra de funk normalmente não tem mais de duas linhas. Fácil, fácil.

    Não é preciso dizer que, atendida a ligação, a irritação das pessoas em volta era visível. Mais um fator de estresse.

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    A verdade é que o uso indiscriminado do celular está atrapalhando a vida das pessoas, mesmo que elas não percebam isso. A comunicação tornou-se banal, e incontáveis ligações são efetuadas sem o menor senso de utilidade. Também perdemos a noção de prioridade. Se estamos conectados 24 horas por dia, já não sabemos o que é realmente prioritário.

    Casos como os citados acima tornaram-se uma praga. Celulares tocando em sessão de cinema, teatro, culto religioso, reuniões de trabalho e assim por diante. Parece que todos estão à espera de ligações urgentes, inadiáveis, quando de fato estão apenas sendo chatos com as pessoas à sua volta.

    E ainda têm aqueles que, mesmo em plena conversa com amigos, estão usando seus aparelhos para verificar redes sociais. É a chatice ao extremo.

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    O curioso que essa dependência do celular já é considerada uma doença, por alguns, e tem nome: "nomofobia". É a angústia relacionada com a possível perda do celular, ou a incapacidade de ficar sem o aparelho por mais de um dia. É um tipo de ansiedade que tem relação com outros transtornos, segundo os psicólogos, que vêm encontrando um número crescente destes dependentes da tecnologia. Será mesmo necessário ficar conectado 24 horas? Aliás, seria mesmo muito bom se todas as pessoas (inclusive eu) se perguntassem: Quanto tempo consigo ficar longe do celular?

  • domingo, 12 de maio de 2013 10:26

    Todas as mães do mundo

    Não sei se a sua mamãe é uma idosa senhora, uma quarentona vibrante ou uma dessas jovens que crescem junto com

    os filhos. Mas se ela estiver por perto, dando conselhos, reclamando e ouvindo suas queixas, comemore essa sorte. Pouco importa se ela mora na casa ao lado ou numa cidade distante. Saiba que ela continua, eternamente, olhando para você.

    Isso é atávico. Pais esquecem os filhos. Mães, jamais.

    Se, como é o meu caso, sua mamãe é uma senhora de alguma idade, ainda mais notável se torna essa extraordinária fortuna, pois dentro de sua mamãe estão todas as mães do mundo.

    Dentro dela há uma jovenzinha escolhendo batons, colorindo os cabelos, medindo o tamanho da saia, cativando garotos, disposta a enfrentar o mundo, fazendo planos para um longo futuro.

    Dentro dela está a mulher apreensiva, temerosa, medindo as horas dos nove meses em que, magicamente, gestou alguém para ser entregue ao mundo.

    Dentro dela também há a mãe zelosa ensinando filhos a darem os primeiros passos, desenhar as primeiras letras, cuidar da bicicleta e dos cadernos, enternecida com suas ingenuidades e suas alegrias mais infantis.

    Dentro dela há a mãe que cuidou das espinhas que enfeitaram nossos rostos, que observou nossos primeiros namoros e primeiras desilusões amorosas, essas de rasgar corações, e que, de certa forma, também dilaceraram o coração delas.

    Dentro dela existe também a mulher madura, que, que divide profissão com tarefas caseiras, acompanha os estudos superiores do filho, a escolha da profissão, a formação de uma família, tal qual ela fez tempos atrás. E dessa família, é o que ela espera, virão novos seres, que ela cuidará com o mesmo zelo que dedicou a você, pois para ela a vida é sempre renovação.

    Todas as mães do mundo se reúnem dentro da nossa mãe. Como se fosse instinto, como se fosse uma missão que as torna superiores. E em cada mãe essa história se repete, pois não há mãe que não ame, de forma incondicional, só porque é assim que tem que ser. Ainda bem.

    Mãe é assim. Não termina nunca. Aliás, como dizia o Joãozinho, "mãe, só tem uma".

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    O dia das mães foi instituído no Brasil por Getúlio Vargas, aquele mesmo da CLT e do direito de voto feminino, lá nos idos de 1932.

    Mas muito antes da data se tornar uma avalanche de consumo e vendas, como conhecemos hoje, o dia das mães era comemorado nos países de língua inglesa, isso lá na Idade Média. Naquela época, os trabalhadores (geralmente agricultores ou mineiros) eram brindados com um "feriado" para que pudessem visitar suas mães, o que só acontecia uma vez por ano.

    Quase todos os países do mundo comemoram a data, o que prova que mãe é mãe em todos os lugares. Aqui no Brasil, só por mania de imitação, comemoramos na mesma data utilizada nos Estados Unidos, isto é, o segundo domingo de maio.

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    Piadinha esperta e oportuna. A professora de educação religiosa interroga os alunos para saber se todos rezavam, em casa, antes das refeições. Todos levantaram as mãos afirmativamente, menos o Joãozinho, é claro.

    "Joãozinho, por que você não reza antes das refeições".

    "Lá em casa não precisa, professora. A minha mãe cozinha muito bem."

  • sexta-feira, 3 de maio de 2013 11:04

    Leis e interpretações

    No Brasil é mais ou menos assim. Acontece uma tragédia, e logo após ouvimos uma gritaria enorme, um verdadeiro alarido, no sentido de que as leis devem ser mudadas. Ou então, o que é mais fácil, para que criemos novas leis.

    Acho que gostamos da movimentação que fatos e situações estranhas causam. Esse frenesi, esses comentários de todo tipo. E como a maioria está apenas cuidando do próprio umbigo, eis a solução mágica: a lei. Acreditamos, feito crianças, que a lei irá consertar o mundo do qual não gostamos.

    Uma boate incendeia em Santa Maria? Pois bem, vamos fiscalizar até a casa do cachorro de estimação para afastar o risco de incêndio. Um garoto matou outro numa briga de rua? Vamos reduzir a maioridade penal com urgência! E lá vamos nós, produzindo leis como quem fabrica refrigerantes.

    Chegamos ao ponto de criar leis para garantir direitos elementares, como os dos idosos, dos homossexuais, etc. Como se não tivéssemos uma Constituição. E assim vamos, acreditando que a simples existência de uma lei resolve todos os problemas. Talvez por isso é que vivemos num cipoal de mais de 100.000 leis no Brasil. É evidente que, nesse turbilhão de leis, a grande maioria delas sequer é conhecida da população.

    É claro que as leis existem para solucionar conflitos, e, em alguns casos, mudam o comportamento das pessoas. Mas é ingênuo imaginar que o texto de uma lei irá resolver questões culturais arraigadas. Em resumo, o que todos querem dizer é o seguinte. Eu vou continuar a minha vidinha, muito despreocupado. A lei fará o resto. Em breve, faremos novas leis, e assim sucessivamente. Mas a imaturidade social continuará, é claro.

     

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    E três turistas — um francês, um americano e um brasileiro — contemplavam um lago congelado na cordilheira dos Andes. Um morador do local dizia para o seu vizinho: “Duvido que você consiga convencer um desses turistas a se jogar na água gelada”. O outro aceitou o desafio e foi conversar com eles. Logo todos os três estavam dentro dágua.

    O outro morador ficou espantadíssimo.

    “Como é que você conseguiu isso”

    “Foi simples. Para o americano eu disse que a lei obrigava a entrar na água. Para o francês, disse que isso émoda por aqui. E para o brasileiro eu disse que era proibido”.

     

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    O advogado acaba de ganhar uma importante ação para o cliente, mas não consegue localizá-lo para dar a notícia. Decide, então, mandar uma breve mensagem pelo celular: “Caro João, a Justiça triunfou!”.

    Logo recebe a resposta do cliente, também breve: “Recorra imediatamente!”

     

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    E o Moisés, aquele velhinho da Bíblia que subiu a montanha para receber o texto da assim chamada “lei divina”, também era muito sábio. Com o povo reunido ao pé da montanha, começou a ler os dez mandamentos em voz alta para que entendessem todo o conteúdo. E chegou ao nono mandamento: “Não desejar a mulher do próximo”. Logo ouviu murmúrios e reclamações. Moisés, então, acalmou o povo:

    “Calma, pessoal. Isso é o que diz a lei. Vamos ver o que vai dizer a jurisprudência...”

  • domingo, 28 de abril de 2013 21:20

    A cidade e os automóveis

    O espanto das pessoas com a quantidade de automóveis circulando pelas ruas merece uma reflexão. Se por aqui já

    é um problema, nas grandes cidades já se tornou uma doença incurável. Não é preciso comentar o trânsito infernal. Você vê isso nos jornais e na TV diariamente. Mas precisamos tentar entender o problema, e de onde ele vem.

    Numa sociedade tão motorizada, é visível que o transporte público ficou em segundo plano. Não sabemos raciocinar em termos coletivos, por isso o que é individual é dominante, infelizmente. O fascínio do carro revela uma outra verdade. O carro é símbolo do que somos, ou quem parecemos ser. Por isso, quem tem um carro "é alguém". O pedestre é uma figura ignorada, depreciada. O que se vê é o desespero de todos na busca do próprio automóvel, que em poucos meses terá seu valor reduzido à metade.

    Chega ser tocante o esforço de algumas pessoas, especialmente aqueles que recebem salários minguados, em busca do seu próprio automóvel. Para eles, é como se, com o carro próprio, se igualassem à classe média e alta. É o fetiche do carro. Acreditam que o carro demonstra a sua personalidade. Ter um carro é tornar-se importante, ser percebido, passar a existir.

    Por isso essa obsessão em adquirir o carro maior, o mais vistoso e chamativo. Quem tem um carro maior, ocupa mais espaço e, intimamente, acredita que tem mais poder, mais força e mais direitos dentro do espaço destinado ao cidadão na área física das ruas e estradas. Já é bastante conhecida aquela piada irônica sobre o jovem que, fascinado por um veículo caríssimo, comentou: "Um carro desses aumenta até o tamanho do meu pênis". A frase demonstra que, para a nossa sociedade, o carro é até um elemento sensual, afrodisíaco.

    Evidentemente, isso é doentio.

    Para as cidades, então, esse tsunami de veículos é arrasador. As condições de vida se deterioram. O espaço físico, que pertence às pessoas, é literalmente tomado por máquinas poluentes. As cidades se tornam feias, poluídas e insuportavelmente barulhentas. Uma metáfora do inferno.

    Chegamos ao absurdo de ver os países dependerem da indústria automobilística. O nível de produção das montadoras vem sendo usado como referência para medir a saúde da economia. Uma distorção grave. Mas é o que está acontecendo.

    Para terminar, o mercado prevê, para este ano de 2013, a colocação de 3,5 milhões de carros nas ruas e estradas brasileiras. Cruz credo!

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    O movimento "Alerta Noroeste Missões", cuja manifestação aconteceu quarta-feira última, tem algo de idealista. O objetivo maior é reivindicar obras (e a conclusão daquelas que estão paralisadas) no sistema viário da região. O movimento está cheio de razão.

    O grande problema é mesmo chamar a atenção do poder central (Porto Alegre e Brasília) para a região noroeste em que vivemos.

    Para usar um termo muito utilizado na sociologia, somos uma região periférica. O poder central está longe de nós. Não despertamos interesse. E quando há algum interesse, não há urgência.

    Por isso mesmo o movimento é legítimo e merece apoio. Por isso também ele é idealista, pois posiciona-se contra a maré histórica que concentra tudo nas grandes cidades e esvazia o campo. Vamos torcer para que o movimento se faça ouvir no centro do poder. Às vezes, a periferia também tem força.