• sexta-feira, 26 de julho de 2013 15:04

    Frio

    Na Câmara de Vereadores de Porto Alegre o protesto realizado por um grupo de pelados chamou mais atenção do que as reivindicações que envolviam o transporte urbano da capital gaúcha. Esse recurso já foi utilizado em outras ocasiões, em muitos lugares do mundo. Alguém sem roupas sempre chama a atenção, é claro.

    Pois em meio àquela situação inusitada, duas mulheres observavam o movimento todo, fazendo considerações. Uma delas comentou:

    "Olha só aquele sujeito pelado e com capuz cobrindo cabeça. Ele não quer ser reconhecido..."

    E a outra, uma "experimentada" frequentadora da casa legislativa, respondeu:

    "Também não sei quem ele é. Mas posso te garantir, não é servidor da Câmara. E nem vereador..."

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    Outro comentário, desta vez partindo de um dos manifestantes ao observar o pinto do colega pelado ao seu lado:

    "Tem uma torre na Itália que é desse jeito, não é?"

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    Vivemos uma semana com temperaturas abaixo de zero em alguns momentos do dia. E o frio, evidentemente, faz as pessoas se recolherem, e encolherem sob pesadas roupas.

    Contam, na cidade, que as lojas de ferragens estão vendendo muito alicate para os homens santa-rosenses.

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    Estou desconfiado que a água que sai da torneira da minha casa está vindo diretamente do Alasca.

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    O inverno provoca uma espécie de ufanismo no gaúcho. Sofremos uma barbaridade, mas não escondemos o nosso orgulho. É como se, no inverno, definitivamente nos afastássemos do resto do país. "O inverno chegou". Adotamos uma espécie de ritualística para a chegada das frentes frias da Patagônia. Aparecem os ponchos, os casacos, as boinas.

    E se estiver por perto um visitante de outra região brasileira, aí, sim, é a glória. Insistimos em perguntar o que ele (o visitante) está achando do frio. Se ele responder que está muito assustado, o gaúcho quase tem um orgasmo.

    E o visitante é obrigado a ouvir nossos causos. Aquele inverno com geada preta, que consumiu as lavouras. E as tempestades! E os animais que morreram de frio! E o vento minuano que corta a nossa pele!

    Em síntese, queremos dizer que somos diferentes. Somos capazes de resistir a tão brutal manifestação na natureza. Só mesmo o gaúcho!... Veja como somos fortes, como somos bravos, como suportamos as adversidades.

    É uma espécie de mito que nós alimentamos com muito carinho, mesmo sabendo que em muitos locais do Paraná e de Santa Catarina as temperaturas são ainda mais baixas. Mas nem vamos falar disso. O frio faz parte da nossa cultura (mesmo que a gente quase derreta no verão). Nos orgulhamos disso, desse nosso bairrismo invernal. E curtimos o frio como nem o europeu consegue fazer: com cachaça e chimarrão...

  • sexta-feira, 19 de julho de 2013 16:42

    Antes de partir

     

    Dizem que as pessoas, quando perto da morte, revisam certos conceitos e analisam a própria vida. Geralmente, meditam sobre coisas que deixaram de fazer, e se arrependem disso. Pois uma enfermeira norte-americana pesquisou quais os principais arrependimentos dos pacientes terminais. Com grande sensibilidade, a mulher ouviu, ao longo de anos, as manifestações das pessoas que, logo após, morreram. São cinco os arrependimentos comuns nesses momentos em que olhamos para trás. Veja.

    "Gostaria de ter sido fiel a mim mesmo, e não viver aquilo que os outros esperavam de mim". É o primeiro grande arrependimento. A grande maioria vive de forma simulada, às vezes fazendo aos outros coisas que eles não lhe pediram.

    "Gostaria de não ter trabalhado tanto". Este é o dilema antigo. O trabalho compensa o tempo que poderíamos ter dedicado a viver melhor?

    "Gostaria de ter mantido contato com meus amigos". A amizade, nem precisamos comentar, é uma das gratificações da vida, e é comum o arrependimento daqueles que não curtiram plenamente os amigos.

    "Gostaria de ter me deixado ser mais feliz". São incontáveis os momentos em que afastamos a alegria, o contentamento, em nome de um comportamento social aceitável. Mais uma vez, o papel social nos afasta de nós mesmos.

    "Gostaria de ter tido coragem de expressar sentimentos". Essa é uma doença da qual muito poucos conseguem se livrar. E muitos morrem sem jamais dizer às pessoas próximas o amor que sentem, a alegria de conviver com os parentes e amigos. A mesma coisa podemos dizer em relação aos gestos de afeto, coisa tão rara.

    Pois é isso mesmo. Ao final da jornada perdemos a capacidade de fingir e o que é bom dentro de nós aflora. Apesar da despedida tão próxima, essas pessoas têm a capacidade de reconhecer que perderam pedaços importantes da vida. Acho que vale a pena pensar sobre esses arrependimentos, antes que chegue a nossa vez de manifestá-los.

    ***

    A Câmara Federal aprovou moção de repúdio contra a espionagem americana envolvendo cidadãos e empresas do Brasil, e também apoiou a iniciativa do governo em levar o caso à análise da ONU e da OEA. Ótimo, porque é postura de integridade diante da agressão ao direito internacional que vem ocorrendo. O escândalo também envolve diversos outros países da América Latina.

    Para surpresa nossa, alguns deputados votaram contra a manifestação do legislativo brasileiro. As razões para isso são desconhecidas (teria sido o medo?). Entre esses deputados federais, alguns são nossos conhecidos, que buscam votos aqui na região. Veja alguns deles: Vilson Covatti, Luiz Carlos Heinze e Jerônimo Goergen (PP); Darcísio Perondi e Osmar Terra (PMDB); Danrlei Hinterholz (PSD). A lista completa foi divulgada pelo jornalista político Fernando Brito, no Rio de Janeiro.

    No mínimo, estranho esse comportamento.

    ***

    A polêmica da vinda de médicos do exterior chega a ser desproporcional. A "importação" de médicos é um fenômeno mundial, e ninguém fica escandalizado com isso. O Reino Unido, por exemplo, tem quase 40% de médicos vindos da Índia, Haiti, e outros países pobres, cujos profissionais buscam na Europa melhores condições financeiras. Nos Estados Unidos, a "cota" dos médicos estrangeiros chega a 25% do total de profissionais. Na Noruega, 16,3%. Evidentemente, a competência profissional deles foi devidamente aferida.

    Por aqui, parece que estamos vendo monstros. Um exagero, convenhamos.

  • sábado, 13 de julho de 2013 13:24

    Ainda protestando

    Deu polêmica a expressão "paço democrático", utilizada nesta coluna na semana passada. A palavra "paço" designa prédio, palácio. É frequentemente usada para designar, por exemplo, o "paço municipal", que nada mais é que a prefeitura. Às vezes se confunde com o espaço físico em frente ao prédio. O mais correto, porém, seria dizer "largo democrático" para indicar o espaço em frente ao Centro Cívico onde se reúnem os folgados de Santa Rosa para debater assuntos aleatórios, como os citados aqui no Noroeste. A palavra "largo", além de adjetivo, é também substantivo que significa um local amplo e de uso público.

    Por outro lado, nada impede a designação do próprio Centro Cívico como sendo um "paço democrático", visto que abriga eventos incontáveis de toda a comunidade. A discussão foi proveitosa, como se vê, e também prova que temos leitores naquele ponto de encontro. Pelo menos, no sábado passado, eles tiveram um tema útil para o debate.

    Pois entre os frequentadores do local há dois casos curiosos de utilização da tecnologia. Os dois amigos utilizam o celular apenas para atender uma única chamada e dizer três palavras. Um deles, ao atender a chamada, só diz: "Sim, dona Rosane". E o outro somente "Sim, dona Elisabete". Eu não entendo essa gente....

    ***

    Entre as incontáveis manifestações públicas dos últimos tempos, algumas faixas e cartazes traziam, o que já era esperado, o bom humor do brasileiro. Pensando bem, por que um protesto não pode ser divertido? Veja algumas delas:

    "Chega de enganação! Abaixo o sutiã com bojo!"

    "Aula de caligrafia para os médicos já!".

    "Com essa tarifa, só se o ônibus tivesse wi-fi, air bag e barzinho liberado".

    "Queremos a bolsa-chimarrão! O preço da erva tá nos engasgando!"

    "Redução da passagem aérea já! Faz dois meses que não vou a Miami".

    "Odeio bala de borracha. Joga tic-tac, por favor".

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    Como já prevíamos, o Congresso rejeitou a idéia do plebiscito sugerido por Dilma. Ocorre que os "patrocínios" da campanha de 2014 já estão sendo costurados, e ninguém quer abandonar o que já contratou. Também não querem reforma política. Pelo que se viu até agora, o Congresso não percebeu o que está acontecendo, nem a situação de desconforto que está causando no país...

    ***

    A proposta mais estapafúrdia que vi nas últimas décadas partiu da revista Veja, aquela que abriga a ala mais reacionária da imprensa brasileira. Pois acredite, a revista propôs que os beneficiários do Bolsa Família percam o direito de voto. Ainda bem que o assunto virou piada em todo o país.

    O chamado voto censitário existiu no Brasil entre 1824 e 1891. Nesse período, só podiam votar os homens (sexo masculino, bem entendido) com renda superior a 100 mil-réis (a moeda da época).

    A ridícula sugestão da Veja, que revela apenas uma mentalidade do século 19, leva-nos a estender a eliminação do direito de voto, por exemplo, também para quem compra carro com IPI zero, quem estuda em universidade pública, quem recebe financiamento com subsídio, e assim por diante.

    A gente vê cada burrice por aí...

  • sexta-feira, 5 de julho de 2013 14:42

    Gente interessante

    Santa Rosa já teve a sua "esquina democrática", a exemplo de muitas cidades Brasil afora. Ela estava localizada na confluência rua Santos Dumont com a rua que passa em frente à antiga prefeitura, bem diante da ex-banca de revistas (espaço que hoje é ocupado pelos artesãos locais).

    Lá se reuniam políticos, jornalistas, advogados e outros debatedores para comentar os assuntos em voga na cidade, especialmente nas manhãs de sábado, sempre com a presença do aguerrido Erani Müller (que foi vereador e deputado). O Erani era uma espécie de catalisador dos debates. Os tempos eram outros, e os assuntos também. Na época, a política dominava, mas de vez em quando as conversas também envolviam pescarias, especialmente quando o peixe era grande demais para caber no rio Santa Rosa.

    Hoje temos o "paço democrático", em frente ao Centro Cívico, onde se encontram figuras carimbadas em discussões sobre o fim do mundo, as passeatas nacionais e a importância do tomate na elaboração do molho de macarrão. Já vi debates acalorados sobre o motor do Chevette 1977, as estratégias de sobrevivência no casamento, o futuro do rio Uruguai e a qualidade dos vinhos vindos da região de Chiapeta. Lá estão o Borrego, o Jansen, o Lucindo, o Adalto, o Faccin, o Vescia, o Barão, o Leo Bauken e outras figuras impagáveis que tentam resolver os problemas nacionais e universais. Ao final das conversas, obviamente, não produzem nenhuma conclusão valiosa, ou, pelo menos exequível. Mas, tenho de reconhecer, eles se divertem!

    Afinal, o que há de melhor a fazer com a vida numa manhã de sábado?

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    Vale a pena refletir sobre a manifestação do presidente do Uruguai, Pepe Mujica, que é uma figura ímpar entre os líderes do mundo. Mujica é conhecido por andar de ônibus, cultivar o próprio jardim e ser um hábil negociador político. Também é lembrado por ter combatido a ditadura uruguaia nas décadas de 60 e 70, regime que ajudou a derrubar. A vida austera do presidente uruguaio sempre chamou a atenção de todos. Afinal, é algo incomum ver um presidente da república pegando ônibus para chegar ao trabalho.

    Pois a imprensa internacional batizou Mujica de "o presidente mais pobre do mundo" em razão do seu estilo simples de viver. Indagado a respeito, o presidente uruguaio respondeu com a calma de sempre:

    "Eu não sou pobre. Pobres são aqueles que precisam de muito para viver. Esses são os verdadeiros pobres. Eu tenho o suficiente. Sou austero, carrego poucas coisas comigo, porque para viver não preciso mais do que tenho".

    Nesses tempos de consumo desenfreado, em que as pessoas lutam desesperadamente para trocar de carro e de celular todos os dias, em que as pessoas são tão descartáveis quando um saquinho de supermercado, a resposta de Mujica merece uma grande e verdadeira reflexão.

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    A notícia divulgada na semana passada dá conta de que a Prefeitura comprou uma área de 5 hectares, que será doada a uma empresa que virá instalar-se no município. Até aí, tudo bem. A iniciativa privada sempre tira vantagem do interesse das comunidades pelo desenvolvimento.

    O interessante é que o valor pago é de R$ 350 mil. Fazendo as contas, temos R$ 70 mil por hectare. Considerando o atual preço da soja, são 1.160 sacas de soja por hectare. Deve ser o preço de lavoura mais caro do país. Eu, hein!