• sexta-feira, 30 de agosto de 2013 17:30

    Armadilhas da língua portuguesa

    Não passa despercebida a reação à vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, que beira a mais ensandecida raiva.

    Os cubanos vão atuar em 700 municípios que não têm médico. Eles já atuaram em muitos países do mundo em missões humanitárias, e são mundialmente aplaudidos por isso. Se são chamados é porque são competentes, certo? Muitos estudantes brasileiros cursam medicina em Cuba. Aliás, estudantes do mundo inteiro estudam lá. Até Santa Rosa já contou com a ajuda deles, lembra?

    A raivosa reação vem de um profundo preconceito. Médicos cubanos são pobres. Na maioria são negros. E têm princípios humanitários muito fortes. O preconceito está evidente.

    E, em meio a tanta raiva e manifestações racistas, fica uma pergunta que ninguém quer responder. O que pensa disso a população desassistida de 700 municípios do interior do Brasil?

    ***

    É tão comum que muitas vezes nem percebemos. Falando ou escrevendo cometemos erros ora insignificantes, ora gritantes. São armadilhas da linguagem, que encontramos no rádio ou no jornal. E em alguma delas sempre caímos. Na conversa de esquina, então, nem se fala.

    Dias atrás um conhecido músico dizia, numa rádio local, que tinha muitos "projetos para o futuro". Certamente, ele não faria projetos para o passado, certo?

    E na semana passada, com toda aquela chuvarada, alguém deve ter encontrado "goteiras no teto" da casa. Encontraria no assoalho, por acaso?

    E quando tem algum assunto a resolver, você vai até a "Prefeitura Municipal"? Saiba que o municipal está sobrando. Não existe prefeitura estadual. Também é redundante falar em "erário público", porque a palavra erário significa "tesouro público". Simples, simples.

    No desfile da Semana da Pátria você verá um destacamento militar comandado por um "General do Exército"? Saiba que general é sempre do exército. Não existe general na Marinha ou na Aeronáutica.

    E o jornal esportivo informa que o Dunga, técnico do Internacional, vai "manter o mesmo time" para o jogo do domingo. Ele poderia manter outro time? Impossível!

    "Um sorriso nos lábios" também é redundância. A minha clavícula, por exemplo, nunca sorriu. "Ganhar grátis" é outra. "A viúva do falecido", então, nem precisa comentários.

    Veja mais algumas: "habitat natural" (todo habitat é natural). "Pequenos detalhes" (se são detalhes, são pequenos). "Elo de ligação" (elo significa ligação). "Monopólio exclusivo" (monopólio é sempre exclusivo). "Baseado em fatos reais" (todo fato é real). Ambos os dois. Conclusão final. Encarar de frente.

    Cair nessas armadilhas não é nenhum crime, nenhum desastre. Mas deixam a frase doendo no ouvido. Só isso. A melhor delas, envolve o Joãozinho, é claro. Na aula de História, ele explicou à professora:

    "Tiradentes morreu porque decapitaram a cabeça dele, profe!".

    "Joãozinho, se decapitaram é porque foi a cabeça. Não poderiam decapitar o pé do Tiradentes, certo? Você tem mais alguma coisa a dizer a respeito?"

    "Pô, professora! Decapitaram o cara e a senhora ainda quer mais detalhes!? Que coisa mais sinistra!"

  • sexta-feira, 23 de agosto de 2013 10:15

    Perigo à vista, de novo

    A Câmara de Vereadores realiza hoje, às 19 horas, audiência pública para debater o projeto de lei de doação de parte da área verde que dá continuidade ao Parcão. O projeto de lei nº 57 foi encaminhado pelo Prefeito, que deseja doar 850m² à União, para construção de uma nova sede para a Receita Federal.

    A desconfiança geral é que se trata de estratégia de fatiamento da área. Hoje doa-se um pedaço, amanhã outro, mais tarde vende-se outro pedaço. E assim, de fatia em fatia, a cidade perde uma área fundamental para seu futuro.

    Quem se debruça sobre a questão, chegará a uma conclusão inevitável: não há bom senso no projeto. Primeiramente porque, se você imaginar Santa Rosa dentro de 20 anos, é evidente que aquela área fará muita falta. Corremos o risco de, em breve, chorar sobre o leite derramado (para usar um ditado bem popular).

    Não há bom senso também porque a União não precisa de doações do Município. O mais lógico seria justamente o contrário. A União já possui áreas na cidade. Algumas, muito bem localizadas.

    Temos que lembrar, ainda, o último domingo no Parcão. Uma multidão estava lá, curtindo o sol, convivendo, aproveitando o espaço público para encontro e diversão.

    Imagine a mesma situação no prazo de 10, 20 anos! Não sabemos o que fazer com aquela área? Será que somos tão pequenos, tão sem imaginação?

    ***

    A área que pretendem doar é a mais central da cidade. Se observarmos a expansão urbana da última década, aquela área é, hoje, mais central do que o prédio dos Correios, por exemplo. É o coração da cidade!

    Significa dizer que o planejamento urbano foi para o espaço. Uma cidade em rápido crescimento, e sem o menor planejamento urbanístico, é isso o que temos, lamentavelmente.

    Também lembremos que a área foi comprada com dinheiro do município, e custou caro. Aliás, com o nosso dinheiro. E agora, incrivelmente, querem doá-la! Isso não é meio vexatório?

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    O executivo municipal encaminhou o projeto em regime de urgência, e será votado já na próxima segunda-feira. Regime de urgência para doação de área? Eu nunca tinha visto isso no processo legislativo.

    Tamanha pressa, com todo o respeito, dá margem a inúmeras suspeitas, a inúmeras desconfianças.

    ***

    A Feira do Livro foi mesmo belíssima. Só o alarido da criançada na praça já justificaria o evento. A venda foi excelente. Havia um clima de festa no ar. Por isso, não tenho dúvidas, quem lá compareceu saiu um pouco mais feliz. Uma criança que convive com livros será um adulto diferente, melhorado.

    Mas uma feira desse porte envolve muita gente, que merece aplausos. Desde a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, passando pela ASES e pelo patrono Clairto Martin, até as professoras de inúmeras escolas que para lá levaram seus alunos.

    O esforço valeu a pena. A feira está madura, melhorando a cada ano.

    Finalmente, se posso deixar uma sugestão, no próximo ano devemos ter estande de livros para o público adulto, pois lamentavelmente temos uma crença de que apenas jovens devem ler. Adultos abandonam a leitura, de forma inexplicável. Mas é inegável que eles também precisam dos livros. E como!

  • sexta-feira, 16 de agosto de 2013 17:06

    Coisas da cidade

    Pois é. Depois não sabem porque a classe política anda tão desacreditada e alvo preferido das manifestações públicas país afora.

    Por aqui a situação não é diferente. Nossos políticos, pelo que estamos vendo, são muito parecidos com os do resto do país. A cidade, atônita, soube esta semana que a área verde que dá continuidade ao Parcão está outra ver na berlinda. Pouco tempo atrás falou-se em venda pura e simples. Agora querem doar parte da área para a Receita Federal (quase 850 m²). É o projeto de lei nº 57, de iniciativa do governo municipal. É de espantar.

    E cabe perguntar: doação para a Receita Federal? A União precisa de doações? Ninguém por aqui tem imaginação alguma sobre o destino daquela área? Que falta de planejamento, que falta de perspectiva, que falta de visão de futuro!

    Isso sem falar na indiferença com o pensamento e a vontade da população da cidade. Pensando bem, "indiferença" é uma palavra muito leve. O que está havendo é desconsideração mesmo.

    Senhores, não reclamem das manifestações que virão por aí...

    ***

    O mau tempo prejudicou a ExpoCruzeiro mais uma vez. Já virou rotina. Acho que se os organizadores agendarem a feira para o dia 25 de dezembro, vamos ter neve em Santa Rosa no Natal pela primeira vez. Ou, pelo menos, em Cruzeiro com certeza.

    ***

    Hoje tem baile, na AABB, comemorando os 35 anos da subseção da OAB em Santa Rosa. Tudo começou com o Cláudio Piovesan Camargo, que também participou de momentos importantes da cidade. Foi dele, por exemplo, a ideia de padronização dos passeios nas ruas da cidade, o que melhorou muito o visual urbano de Santa Rosa.

    ***

    E a Feira do Livro está em andamento. Nem vou retomar aquela velha discussão sobre o nível de leitura do povo brasileiro. Mas sem perder de vista a questão, vi esta semana um estudo da Universidade de Harvard, aquela lá dos gringos, acerca das características dos bons estudantes. Psicólogos e pedagogos conseguiram definir 5 características que diferenciam os estudantes bem sucedidos de seus colegas. Muito interessante.

    Primeira característica: os alunos eficientes driblam a bagunça da sala de aula. Isto é, conseguem concentração e foco, a despeito da baderna reinante à sua volta.

    Segunda: aprendem a aprender. Os bons alunos criam método próprio de estudo, que envolve disciplina e discernimento sobre o que é realmente importante na matéria em estudo. Lêem muito e de forma direcionada.

    Terceira: dominam a internet. É isso mesmo, a internet como fonte de conhecimento já supera há muito as velhas enciclopédias. Saber utilizar a rede mundial de computadores é uma habilidade altamente proveitosa.

    Quarta: planejam o futuro. Eles têm perspectiva, projetos, planos. O estudo é visto como elemento vital da formação do cidadão, do ser humano, de um futuro.

    Quinta: são motivados pela família. Esta última característica comprova que o aluno excelente tem atrás de si uma família que provoca, estimula, desafia e aplaude.

    Disso, nós já sabíamos, não é?

  • sábado, 10 de agosto de 2013 00:25

    Guerra subterrânea

    Por trás do bate-boca envolvendo a quantidade de médicos no país, há uma guerra surda, que poucos percebem.

    A rede de planos privados de saúde cresceu ao longo dos anos em razão das carências do SUS. Essas empresas, que possuem milhões de clientes, têm faturamentos gigantescos. As maiores são a Bradesco Saúde, a Amil, a Unimed, a Intermédica, a Sul América e a Golden Cross. Ninguém sabe ao certo quantos médicos dependem dessas empresas para sua subsistência. Possivelmente, centenas de milhares.

    Pois a histeria contra a contratação de novos médicos, o que inclui estrangeiros, tem muito a ver com essa realidade. Se as mudanças no SUS alcançarem bons resultados, é evidente que essas redes privadas sofrerão impacto financeiro. Nenhuma delas (e muitos médicos a elas vinculados) está minimamente interessada na melhoria do sistema de saúde público.

    Saúde é um negócio, dizem. Aliás, o certo é dizer "doença é negócio".

    Uma eficiente rede pública do SUS será um banho de água fria no ótimo (espetacular!) negócio que são os planos privados. Olhando sob esta perspectiva, dá para entender a artilharia que está sendo direcionada contra as mudanças no sistema público de saúde.

    Muita gente, de forma dissimulada, e até inventando argumentos toscos, trabalha pelo seu fracasso...

    ***

    O Noroeste noticiou em página cheia, na última edição. Mas vale a pena salientar, como destaque positivo, repetindo a informação digna de destaque. A extrema pobreza (uma velha chaga brasileira) foi reduzida de 10,38% para 0,55% nos últimos dez anos aqui em Santa Rosa.

    Isso sim é fato para ser comemorado. Deveríamos fazer festa em praça pública.

    O índice melhorou muito em todo o país, mas particularmente em Santa Rosa já estamos com indicadores melhores do que os países do primeiro mundo. Está na hora de deixarmos de lado o nosso complexo de vira-latas, aquela história de que tudo de ruim acontece no Brasil. Isso é história do passado.

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    Também a renda "per capita" na cidade cresceu 100% nos últimos vinte anos. Isso não é brincadeira. Não é sem razão que, em consequência disso, a expectativa de vida também tenha crescido muito.

    O complicador (bom complicador, entenda-se) é que, quando o padrão econômico melhora, as demandas se multiplicam. Com renda mais elevada, a população quer casa própria, automóvel, celular, computador pessoal, rede de banda larga, asfalto, e por aí vai. A pressão sobre a administração pública aumenta.

    O inchaço do trânsito local, com automóveis se multiplicando a olhos vistos, é a prova incontestável do que estamos falando.

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    A Câmara de Vereadores lotou na última segunda-feira para a homenagem ao Paulo Madeira. O mais novo "Cidadão Santa-rosense" não cabia em si com tanta alegria. E, para arrematar, lá na casa da etnia italiana, uma roda de samba. Afinal, uma homenagem ao Madeira sem samba seria inconcebível...