• domingo, 28 de abril de 2013 21:20

    A cidade e os automóveis

    O espanto das pessoas com a quantidade de automóveis circulando pelas ruas merece uma reflexão. Se por aqui já

    é um problema, nas grandes cidades já se tornou uma doença incurável. Não é preciso comentar o trânsito infernal. Você vê isso nos jornais e na TV diariamente. Mas precisamos tentar entender o problema, e de onde ele vem.

    Numa sociedade tão motorizada, é visível que o transporte público ficou em segundo plano. Não sabemos raciocinar em termos coletivos, por isso o que é individual é dominante, infelizmente. O fascínio do carro revela uma outra verdade. O carro é símbolo do que somos, ou quem parecemos ser. Por isso, quem tem um carro "é alguém". O pedestre é uma figura ignorada, depreciada. O que se vê é o desespero de todos na busca do próprio automóvel, que em poucos meses terá seu valor reduzido à metade.

    Chega ser tocante o esforço de algumas pessoas, especialmente aqueles que recebem salários minguados, em busca do seu próprio automóvel. Para eles, é como se, com o carro próprio, se igualassem à classe média e alta. É o fetiche do carro. Acreditam que o carro demonstra a sua personalidade. Ter um carro é tornar-se importante, ser percebido, passar a existir.

    Por isso essa obsessão em adquirir o carro maior, o mais vistoso e chamativo. Quem tem um carro maior, ocupa mais espaço e, intimamente, acredita que tem mais poder, mais força e mais direitos dentro do espaço destinado ao cidadão na área física das ruas e estradas. Já é bastante conhecida aquela piada irônica sobre o jovem que, fascinado por um veículo caríssimo, comentou: "Um carro desses aumenta até o tamanho do meu pênis". A frase demonstra que, para a nossa sociedade, o carro é até um elemento sensual, afrodisíaco.

    Evidentemente, isso é doentio.

    Para as cidades, então, esse tsunami de veículos é arrasador. As condições de vida se deterioram. O espaço físico, que pertence às pessoas, é literalmente tomado por máquinas poluentes. As cidades se tornam feias, poluídas e insuportavelmente barulhentas. Uma metáfora do inferno.

    Chegamos ao absurdo de ver os países dependerem da indústria automobilística. O nível de produção das montadoras vem sendo usado como referência para medir a saúde da economia. Uma distorção grave. Mas é o que está acontecendo.

    Para terminar, o mercado prevê, para este ano de 2013, a colocação de 3,5 milhões de carros nas ruas e estradas brasileiras. Cruz credo!

    ***

    O movimento "Alerta Noroeste Missões", cuja manifestação aconteceu quarta-feira última, tem algo de idealista. O objetivo maior é reivindicar obras (e a conclusão daquelas que estão paralisadas) no sistema viário da região. O movimento está cheio de razão.

    O grande problema é mesmo chamar a atenção do poder central (Porto Alegre e Brasília) para a região noroeste em que vivemos.

    Para usar um termo muito utilizado na sociologia, somos uma região periférica. O poder central está longe de nós. Não despertamos interesse. E quando há algum interesse, não há urgência.

    Por isso mesmo o movimento é legítimo e merece apoio. Por isso também ele é idealista, pois posiciona-se contra a maré histórica que concentra tudo nas grandes cidades e esvazia o campo. Vamos torcer para que o movimento se faça ouvir no centro do poder. Às vezes, a periferia também tem força.

  • sexta-feira, 19 de abril de 2013 13:22

    Coisas da Cidade

    Por problemas técnicos, a edição impressa do Noroeste do dia 12 não trouxe a crônica em que abordamos a questão
    da proposta de venda de imóveis valiosos do município. Aliás, ficamos também sem o texto do Clairto e o barulho do Bem-te-vi. Isso acontece.

    Mas, por ter constado do site (ah, vai me dizer que ainda não viu a novidade?) o texto acabou se multiplicando pelas redes sociais, onde uma galera ansiosa esperava informações e posicionamentos a respeito do assunto.

    Nos meus quase 50 anos de Santa Rosa não tinha visto tamanha expressão de repúdio. Por isso mesmo, conforta ver um grande número de pessoas que não escondem sua preocupação com o futuro da cidade. É bem lógico. Nos momentos de crescimento (como este que vivemos) é que temos de pensar o futuro com bom senso.

    O motivo do repúdio não é a venda em si, mas as áreas envolvidas, que todos entendem cruciais para a Santa Rosa do futuro. E, como já dito na crônica anterior, parece que não aprendemos a pensar a cidade como algo que se modifica, que de avoluma, que deve se preparar para os desafios do futuro. Pensamos apenas o problema imediato. Isso é pensar pequeno.

    A proposta, pelo que se viu, não é séria. Mas, se a cidade vacilar, o estrago será feito.

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    E por falar em cidade, tem início hoje, se estendendo até dia 27, a programação do 2º Santa Arte, uma enorme agitação envolvendo música, teatro, artes plásticas, literatura, e muito mais. Paralelamente, há a semana do Livro, para pensarmos na sua importância na formação dos seres humanos. É muito legal porque os artistas se agitam e a cidade fica mais alegre e poética.

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    A partir de 2 de maio a hora do estacionamento rotativo passa para R$ 1,00. Portanto, fiquem atentos, senhores motoristas.

    Ainda tontos com a varredura feita pela Brigada, os motoristas devem agora redobrar seus cuidados ao estacionar na zona azul.

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    O momento é de comemorarmos a escolha do Clairto Martin como patrono da próxima feira do livro. Ele merece, pois além de escrever para o Noroeste, Clairto tem uma produção literária de alta qualidade.

    E vejam que não sou de puxar o saco de ninguém. Conheço os trabalhos do Clairto, seja como poeta, seja como contista, e garanto que a escolha de seu nome dará um brilho especial à feira que acontece no próximo mês de agosto.

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    Outro que receberá uma homenagem merecida é o Paulo Madeira. Foi escolhido para receber o título de "cidadão santa-rosense", com aprovação unânime pela Câmara de Vereadores.

    Nascido em Cruz Alta, Paulo Madeira abraçou Santa Rosa com enorme carinho e dedicação. Ao longo das últimas décadas vi o Paulo participar da vida comunitária e da política, sempre com espantosa capacidade de diálogo. O título é mais do que merecido.

  • sexta-feira, 12 de abril de 2013 14:44

    Por amor a Santa Rosa

    O assunto virou comentário em todos os lugares, com sur-
    preendente intensidade. Existe uma perplexidade geral com
    a proposta que prevê a venda de áreas pertencentes ao município. Todos se perguntam: e precisa? De onde surgiu esta idéia? Quais os interesses não confessados?

    A venda do patrimônio público é uma maneira fácil de fazer caixa, mas não é a forma inteligente, especialmente quanto lembramos do futuro. Santa Rosa é uma cidade em rápido crescimento, o que é evidente. A venda de áreas, especialmente aquela localizada logo após o parcão, não tem sentido. No futuro, ela fará falta.

    Não devemos esquecer que dentro de 20, 40 ou 80 anos, a cidade ainda estará pulsando, acolhendo as novas gerações. As necessidades urbanas serão outras. E já não haverá a possibilidade de reaver as áreas que agora desejam vender.

    Alega-se que se trata de área ociosa. Ora, está ociosa porque não lhe damos destinação útil, é claro. É o reconhecimento da nossa própria incapacidade. Se está ociosa, não significa dizer que não seja útil à população, ou que não possamos lhe dar uma destinação valiosa.

    Parece, e nisso nós todos estamos incluídos, que não aprendemos a pensar a cidade como algo que se modifica, que de avoluma, que deve se preparar para os desafios do futuro. Pensamos apenas o problema imediato. Isso é pensar pequeno. É raciocínio mesquinho, lamentavelmente. Pensar o futuro é para quem ama a cidade, quem deseja o melhor para todos, de forma coletiva.

    ***

    A venda do patrimônio público deve ser, sempre, a última alternativa. É o que acontece quando você possui um imóvel. Vender para fazer caixa é ingenuidade. Ou má-fé.

    E quando se trata de patrimônio público, a proposta é ainda mais grave. Não houve discussão, não houve sequer uma reflexão sobre alternativas. Daí a perplexidade da população, plenamente justificada.

    ***

    Neste sábado, às 15 horas, começam os diálogos envolvendo entidades que trabalharão contra essa proposta. Acredite. Ainda há cidadãos sérios em Santa Rosa, preocupados com os destinos da cidade. Estarão conversando no Parcão, em busca de alternativas. Isso é cidadania. Isso sim é amar esta cidade.

    ***

    Mudando de assunto. A frase "Olha o guincho!" foi a mais ouvida na região central da cidade durante a semana. O estacionamento rotativo, que estava jogado às traças, foi reativado com a ação da Brigada Militar.

    Nada mais lógico. Se existe uma lei que instituiu a modalidade de estacionamento rotativo, e os benefícios para o trânsito são reconhecidos, nada mais natural de que fazer a coisa funcionar.

    Embora com percalços (que incluem sua viabilidade econômica), o fato é que a população aprovou o estacionamento rotativo, e reconhece seus benefícios. Existem alguns incomodados, porém o que lhes falta é apenas uma reflexão mais aprofundada sobre os problemas de trânsito da cidade. Logo eles também concordarão.

  • sexta-feira, 5 de abril de 2013 17:03

    Gerundismo cansa

    Um comercial de TV, que vem sendo veiculado há algumas semanas, tira uma onda com um modismo linguístico chamado "gerundismo". A propaganda é de uma cerveja, e o narrador, em off, diz mais ou menos isso: "O senhor, que vai estar azarando as gatinhas, vai estar levando pesco-tapas dos namorados das gatinhas, vai estar sacaneando os convidados-malas, vai estar entupindo os convidados com pão de alho..."

    Certamente você já lembrou. A propaganda faz graça com um costume vocabular recente, que virou mania e agride os nossos ouvidos.

    Essa irritante repetição de "vai estar" é o que ouvimos quando atendemos ligação de algum "call-center", por exemplo. De imediato vem a pergunta: "O senhor pode estar respondendo algumas perguntas?". Ou então: "Vou estar providenciando o seu pedido". "Vou estar transferindo sua ligação...".

    Acredito que as pessoas não percebem que estão cometendo um vício de linguagem. Dias atrás, estive numa palestra onde a palestrante (no caso, uma professora) conseguiu irritar a platéia com a sistemática repetição de frases desse tipo. Acho até que algumas pessoas acreditam que o modismo torna a sua fala mais refinada, o que é um evidente equívoco.

    A explicação mais provável é que isso veio a partir de uma tradução literal do inglês, onde esse tipo de expressão sempre existiu. Mas no português é novidade, um modismo que contaminou desde telefonistas e secretárias até altos executivos. E não se surpreenda ao entrar num táxi e ouvir: "O senhor vai estar me dizendo aonde devo ir e em qual rua vou estar entrando". Salte do táxi, imediatamente.

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    Jeferson Furtado, artista que já tem diversas obras espalhadas pela cidade (entre elas aquela da rótula do Taffarel, lembra?), é também um ciclista fanático.

    Neste momento ele está em viagem para o Pacífico, no litoral do Chile. Melhor esclarecendo. Ele está viajando para o Pacífico em sua bicicleta, o que torna a viagem particularmente inusitada e interessante.

    Nessa viagem, Jeferson leva na bagagem as cinzas do pai, o saudoso Jairo Guarani Furtado, com destino à cidade argentina onde viveu Ernesto Guevara, o "Chê", por quem Jairo tinha grande admiração. Desta vez, pois, Jeferson uniu a aventura e o gesto sentimental. Na volta, terá muito para nos contar.

    2

    Esta semana tive a oportunidade de participar de reunião, na Prefeitura, para apresentar sugestões envolvendo os ciclistas da cidade e a Av. Expedicionário Weber. A avenida, aliás, parece ter se tornado o assunto referencial para todos os cidadãos que aqui vivem.

    E não é sem motivo. É a artéria principal, a mais nervosa e mais importante. Por isso mesmo provoca tantos debates, os quais, na verdade, são sempre saudáveis. Há projetos diversos, incluindo o futuro aproveitamento da área da via férrea, que certamente não será num futuro próximo. Mas aspectos como a eliminação do canteiro central já são consenso na cidade, o que levaria a um melhor aproveitamento da pista, possibilitando também a construção da ciclovia, anseio de muita gente.

    É claro que os debates continuarão. E as obras também. Enquanto isso, quem ferve a cabeça é o Petrazzini e o Calixto, que estão com a batata quente nas mãos. Mas, temos de admitir, estão colhendo sugestões dos mais diversos setores comunitários, o que é bom.