• sábado, 19 de abril de 2014 10:32

    Os ovos

    Quando criança eu tinha minhas angústias. Se você acha que a infância é um tempo sem aflições, está muito engana do. É um tempo divertido em que a imaginação trabalha intensamente. Depois, quando viramos adultos, é que ficamos assim tão chatos.
    Uma das minhas angústias envolvia o coelho da Páscoa. Se o coelho é um mamífero, como poderia botar ovos? No mínimo, o coelho da Páscoa devia um ser monstruoso, contrário à sua própria natureza. Eu e alguns colegas de primário chegamos a cogitar abater um coelho para verificar o que havia lá dentro (um instinto assassino que não voltou a se manifestar, que eu saiba). Alguém, oportunamente, me explicou que o coelho fora escolhido apenas para fazer as entregas, pois é um animal muito veloz. Os ovos, evidentemente, vinham da galinha. Nossas mães e avós é que colocavam amendoins dentro das casquinhas. Ah, bom! Que alívio! Para mim e para o coelho.
    Quanto aos ovos de chocolate, soube ainda mais tarde, surgiram por lembrar a fruta do cacau (de onde vem o chocolate), que tem a forma de um ovo. E foi assim, de descoberta em descoberta, que o mito do coelho da Páscoa acabou e a minha vida ficou um pouco mais aborrecida....
    ***
    Para nós, cristãos, a Páscoa é a comemoração da ressurreição de Cristo. Mas a Páscoa é bem mais antiga, pois para os judeus ela lembra o êxodo, quando Moisés libertou o povo da escravidão do faraó. Para eles, o coelho é apenas o símbolo da fertilidade.
    Na época, diz a lenda, Deus havia mandado 10 pragas sobre o Egito. As primeiras foram água em sangue, rãs, piolhos, moscas, doenças, úlceras, fogo, gafanhotos e trevas. A décima foi a morte dos primogênitos do Egito. É bobagem a história de que a última praga seria a música sertaneja, reservada para aparecer dois milênios depois de Cristo. Nem Deus, nem Moisés, seriam tão maldosos assim.
    ***
    Em nossos dias, as pragas do Egito foram relembradas em filmes como “A Múmia”, “A Colheita Maldita” e “O Príncipe do Egito”, o que demonstra que a história continua a nos fascinar.
    Afinal, é absolutamente terrível a hipótese de sermos atacados por 10 pragas, sucessivamente. Não há faraó que resista! Tanto é que o faraó egípcio daquela época chamou Moisés e disse: “Cara, pega a tua gente e te manda! Eu não aguento mais. Desse jeito vou virar múmia antes do previsto!”.
    Ainda hoje, apesar da tecnologia, é comum acontecer fenômenos devastadores, como ataques de gafanhotos em áreas rurais, chuvas de granizo de grande intensidade, explosões vulcânicas e outros. Sempre que isso ocorre aparece alguém para lembrar a lenda das 10 pragas do Egito.
    ***
    Mas do que é mesmo que eu estava falando? Ah, sim, dos ovos. Pois um sobrinho meu, sabendo que a mãe enfrentava um rigoroso regime de emagrecimento, colocou seu enorme ovo de chocolate na geladeira e, muito esperto, advertiu:
    “Mãe, quando você quiser ganhar peso meu ovo de chocolate está na geladeira. Pode comer à vontade!”.
    E saiu de casa tranquilo...

  • sexta-feira, 11 de abril de 2014 08:03

    Radialistas

    Em Giruá, um locutor de rádio foi ameaçado por um ouvinte que não aceitou as explicações para não rodar a música “Corpo Esgualepado”, do músico gaúcho Xiru Missioneiro.
    As razões do profissional do rádio eram simples: a música solicitada não fazia parte do estilo musical do programa.
    Mas o sujeito invadiu os estúdios da rádio com uma adaga em punho, fazendo ameaças. Depois desistiu, e agora está encrenca-do com a polícia. O radialista, por seu turno, no momento da invasão o radialista já estava se vendo todo esgualepado, com certeza.
    Pelo título já dá pra ter uma ideia do conteúdo da música que o cara queria ouvir. Ela fala da visita de um gaúcho a uma médica, que dignostica problemas generalizados. O homem tem sérios problemas de saúde, e conta tudo com linguagem pouco gramatical e muito gaudéria. Veja parte do que a médica lhe disse:
    “Teu culesterol tá em quinhentos, as tuas veias tão tudo trancada, tua coluna te afroxou os quartos, a tua espinha tá descornotada”.
    Por via das dúvidas, Elói de Ávila, mantenha a porta do estúdio fechada de agora em diante...
    ***
    E por falar em radialista, dias atrás eu comentava com um amigo algo que ouvira no programa do Chiquinho Esperto, na Guaíra FM. Não recordo o assunto, mas o fato é que o meu amigo não lembrava do Chiquinho. Até o momento em que ele colocou a mão na cabeça e disse:
    “Aquele que está sempre narrando jogo de futebol? É claro que lembro!”
    ***
    Essa está registrada e é verdadeira. Na Copa dos EUA, Romário era o craque brasileiro. Antes do início de um dos jogos, o locutor Gabriel Alves, de uma rádio portuguesa, fez o seguinte comentário:
    “Romário é um jogador com baixo centro de gravidade, que roda muito bem sobre si mesmo e tem grande estabilidade nas curvas”.

    ***
    Aliás, locutor esportivo, por falar tanto, sempre comete gafes. É algo inevitável. Até o Galvão Bueno, da Globo, tem as suas. Algumas de suas mancadas ficaram famosas. Veja essas:
    “Chutou pra fora! Chutou com a perna que não era dele!”
    “O juiz vai dar 3 minutos de acréscimo. Vamos a 49...”
    “Bem, amigos da Rede Globo! Estamos aqui em Buenos Aires, no Equador...”
    ***
    Em 1969, em plena ditadura, a rádio Progresso, de Ijuí, foi fechada durante 21 dias. A ordem foi recebida das mãos de um capitão do Exército. Aliás, alguns defendiam o seu fechamento definitivo. Depois disso, a rádio voltou ao ar, porém com a presença de “interventores”. A censura tomou conta da emissora.
    Levou meses para voltar à normalidade, inclusive com mobilização de lideranças empresariais de Ijuí explicando que a rádio não tinha nada a ver com política.
    Pois contam que no dia em que a rádio voltou ao ar um locutor deu a previsão do tempo. Fazia um sol maravilhoso na cidade, mas ele anunciou: “Nesse momento, em Ijuí, tempo muito feio...”.
    Faz lembrar aquele velho dito: corro o risco, mas não perco a piada. O radialista mostrava seu bom humor, e sua crítica.

     

  • quinta-feira, 3 de abril de 2014 20:50

    A bomba

    Esta semana, nos 50 anos do golpe de 1964, a imprensa brasileira foi invadida por incontáveis matérias tratando do tema. Rever o período é algo necessário porque precisamos conhecer para que não se repita. O período de 21 anos do regime deixou pouca coisa para o Brasil além dos mortos. Mas passou, e precisamos seguir em frente, até mesmo para tentar resolver os problemas que existiam naquela época e que continuam a nos atormentar. Perdemos duas décadas, este é o saldo.

    ***

    Pois lembrei esta semana um fato que continua na memória. No final da década de 70, o Brasil caminhava para a democracia. Na época, eu era um adolescente que gostava de revista em quadrinhos, romances e jornais. Naturalmente, era curioso com o que estava acontecendo.

    Pois um belo dia a notícia correu pela cidade. A banca de revistas, situada na Avenida Rio Branco, tinha sido alvo de atentado na madrugada. Uma bomba incendiária reduzira a pó a banca que eu frequentava diariamente.

    Para a opinião pública, o fato foi represália pela venda de jornais independentes como “O Pasquim”, “Movimento”, “Cooperjornal” e outros que tratavam de temas políticos sob o ponto de vista da oposição. A ditadura estava nos seus estertores.

    O resultado é que fiquei algum tempo sem minhas leituras. E a pequena Santa Rosa da época entrou para o noticiário nacional. Afinal, os atentados vinham acontecendo em todo o Brasil. Nada foi revelado, e também não se confirmou a versão de que o crime fora encomendado por políticos locais.

    Pois dias atrás, na TV, o polêmico general Newton Cruz revelou que, realmente, os atentados a bomba eram praticados por grupos que desejavam apenas conturbar e retardar o processo de democratização do Brasil. Não conseguiram, como se vê.

     

    ***

    Mudando de assunto. É hoje a inauguração do “Ponto de Leitura”, uma parceria da ONG Cidade Interativa com o CASF (Centro Assistencial Sagrada Família), lá na Vila Agrícola.

    A Cidade Interativa entra com o acervo de livros e vídeos e o CASF com a infraestrutura para atender à numerosa comunidade do entorno, oferecendo cultura gratuitamente.

    Isto sim é uma excelente notícia!

    ***

    Hoje é 4 de abril. A data lembra o assassinato (em 1968) do líder norte-americano Martin Luther King Jr., pastor protestante e ganhador do Nobel por sua luta contra o racismo e a defesa da não violência. Luther King, morto aos 40 anos, tornou-se um símbolo da paz e da solidariedade.

    Vale lembrar a data porque hoje, no Brasil e no mundo, ainda há energúmenos que manifestam suas opiniões racistas sem qualquer vergonha. É triste.

    Confesso que não compreendo como funciona o cérebro de pessoas que manifestam seu ódio contra índios, negros, mulheres, homossexuais, judeus e religiosos de matizes diversos.

    Deve haver um problema, alguma carência de neurônios, sei lá.

    Após milênios de processo civilizatório, a existência desses preconceitos mostra que ainda temos muito a caminhar. Ou então que a civilização não alcança a todos de modo igual. Enquanto a inteligência humana avança, alguns ficam para trás. Talvez seja isso.

  • sexta-feira, 28 de março de 2014 20:32

    Leituras e abraços

    Você gostaria de ver seus filhos lendo, familiarizados com a leitura e o texto, esclarecidos e capazes de enfrentar os problemas da vida? A resposta é óbvia. Ver os filhos como bons estudantes e bons profissionais é o sonho de todos os pais.

    Dias atrás li um artigo interessante do jornalista Alessandro Martins, que elencou os fatores que, durante a vida dele na casa dos pais, o transformaram em um leitor assíduo. Concordo com ele e acrescento alguns pontos, para que você possa refletir. Acho que sou apreciador de livros por conta de fatos que aconteceram na minha infância. Os pais que realizam bem essa tarefa seguem regras muito simples. A lista é pequena mas eficaz. Veja só.

    (A) Pais inteligentes presenteiam os filhos com livros (esse gesto transforma a leitura em um valor, algo a ser apreciado e estimado).

    (B) Levam os filhos a livrarias e bibliotecas, e associam esses passeios com coisas divertidas e prazerosas (ler não é sofrimento; ao contrário, pode ser uma diversão que as crianças ignoram porque ninguém as lembra disso).

    (C) Não têm preconceito contra gibis (revistas em quadrinhos também são leitura, despertam a curiosidade e a imaginação).

    (D) Contam histórias aos filhos (tarefa difícil mas necessária; desperta a imaginação e mostra que compartilhar conhecimento fortalece a família).

    (E) Levam os filhos ao cinema (milhares de filmes têm origem nos livros, e podem estabelecer laços entre o que o escritor criou e o que foi transposto para a tela).

    (F) Nunca obrigam os filhos a ler (a leitura deve cativar, e não transformar-se num compromisso pesado e desagradável).

    (G) Têm livros em casa (nada mais hipócrita do que exigir leituras do filho e este não encontrar livros na própria casa).

    ***

    Eu poderia acrescentar outro conselho fundamental: “desligue a TV”. Mas esse é assunto para outra conversa.

    Só para encerrar o assunto, lembro que introduzir os filhos no mundo da linguagem é uma tarefa dos pais. Não pode ser transferida. É ingenuidade acreditar que, mais tarde, quando forem adultos, os filhos se tornarão leitores. Aí já será tarde demais.

    No caso cabe muito bem aquele ditado: “Conselhos ajudam, mas o exemplo arrasta”. Se você lê, seu filho lerá. Não precisa insistir, dar ordens ou coisas do gênero. Seu exemplo é tudo.

    ***

    Agora, outro assunto. A revista oficial da Fifa na internet publicou uma lista de “dicas” para os estrangeiros que visitarão o Brasil durante a Copa. Houve algumas reclamações. Não porque a lista fosse ofensiva, mas era bem-humorada e irônica.

    Não vi nada de mal na lista, mas lembro que uma das informações prestadas aos estrangeiros era que o brasileiro “fala com as mãos e encosta nas pessoas quando conversa”.

    Entendi isso como um elogio. Na Europa, sim, as pessoas são frias, distantes, isoladas umas das outras. Os cumprimentos sempre são formais. Criar intimidade, então, nem se fala! Um europeu passeando pelo Brasil sempre estranha esta característica calorosa dos brasileiros. Alguns até se sentem constrangidos com a proximidade “inconveniente”.

    Penso que devemos pensar de outra maneira. Ser “caliente” é uma característica latina e bem brasileira. Devemos nos orgulhar dela.

    Um aperto de mão, um abraço, um tapinha nas costas e até um beijo na face são coisas maravilhosas. Rompem a “aura” que nos protege dos outros, desmontam a carapaça que construímos à nossa volta. Esses gestos afetivos nos tornam mais gentis e carinhosos, nos fazem mais humanos.

    Nesse particular, os europeus não têm nada a nos ensinar. Ao contrário, nós temos muito a lhes mostrar em termos de afeto.