• sexta-feira, 3 de maio de 2013 11:04

    Leis e interpretações

    No Brasil é mais ou menos assim. Acontece uma tragédia, e logo após ouvimos uma gritaria enorme, um verdadeiro alarido, no sentido de que as leis devem ser mudadas. Ou então, o que é mais fácil, para que criemos novas leis.

    Acho que gostamos da movimentação que fatos e situações estranhas causam. Esse frenesi, esses comentários de todo tipo. E como a maioria está apenas cuidando do próprio umbigo, eis a solução mágica: a lei. Acreditamos, feito crianças, que a lei irá consertar o mundo do qual não gostamos.

    Uma boate incendeia em Santa Maria? Pois bem, vamos fiscalizar até a casa do cachorro de estimação para afastar o risco de incêndio. Um garoto matou outro numa briga de rua? Vamos reduzir a maioridade penal com urgência! E lá vamos nós, produzindo leis como quem fabrica refrigerantes.

    Chegamos ao ponto de criar leis para garantir direitos elementares, como os dos idosos, dos homossexuais, etc. Como se não tivéssemos uma Constituição. E assim vamos, acreditando que a simples existência de uma lei resolve todos os problemas. Talvez por isso é que vivemos num cipoal de mais de 100.000 leis no Brasil. É evidente que, nesse turbilhão de leis, a grande maioria delas sequer é conhecida da população.

    É claro que as leis existem para solucionar conflitos, e, em alguns casos, mudam o comportamento das pessoas. Mas é ingênuo imaginar que o texto de uma lei irá resolver questões culturais arraigadas. Em resumo, o que todos querem dizer é o seguinte. Eu vou continuar a minha vidinha, muito despreocupado. A lei fará o resto. Em breve, faremos novas leis, e assim sucessivamente. Mas a imaturidade social continuará, é claro.

     

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    E três turistas — um francês, um americano e um brasileiro — contemplavam um lago congelado na cordilheira dos Andes. Um morador do local dizia para o seu vizinho: “Duvido que você consiga convencer um desses turistas a se jogar na água gelada”. O outro aceitou o desafio e foi conversar com eles. Logo todos os três estavam dentro dágua.

    O outro morador ficou espantadíssimo.

    “Como é que você conseguiu isso”

    “Foi simples. Para o americano eu disse que a lei obrigava a entrar na água. Para o francês, disse que isso émoda por aqui. E para o brasileiro eu disse que era proibido”.

     

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    O advogado acaba de ganhar uma importante ação para o cliente, mas não consegue localizá-lo para dar a notícia. Decide, então, mandar uma breve mensagem pelo celular: “Caro João, a Justiça triunfou!”.

    Logo recebe a resposta do cliente, também breve: “Recorra imediatamente!”

     

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    E o Moisés, aquele velhinho da Bíblia que subiu a montanha para receber o texto da assim chamada “lei divina”, também era muito sábio. Com o povo reunido ao pé da montanha, começou a ler os dez mandamentos em voz alta para que entendessem todo o conteúdo. E chegou ao nono mandamento: “Não desejar a mulher do próximo”. Logo ouviu murmúrios e reclamações. Moisés, então, acalmou o povo:

    “Calma, pessoal. Isso é o que diz a lei. Vamos ver o que vai dizer a jurisprudência...”

  • domingo, 28 de abril de 2013 21:20

    A cidade e os automóveis

    O espanto das pessoas com a quantidade de automóveis circulando pelas ruas merece uma reflexão. Se por aqui já

    é um problema, nas grandes cidades já se tornou uma doença incurável. Não é preciso comentar o trânsito infernal. Você vê isso nos jornais e na TV diariamente. Mas precisamos tentar entender o problema, e de onde ele vem.

    Numa sociedade tão motorizada, é visível que o transporte público ficou em segundo plano. Não sabemos raciocinar em termos coletivos, por isso o que é individual é dominante, infelizmente. O fascínio do carro revela uma outra verdade. O carro é símbolo do que somos, ou quem parecemos ser. Por isso, quem tem um carro "é alguém". O pedestre é uma figura ignorada, depreciada. O que se vê é o desespero de todos na busca do próprio automóvel, que em poucos meses terá seu valor reduzido à metade.

    Chega ser tocante o esforço de algumas pessoas, especialmente aqueles que recebem salários minguados, em busca do seu próprio automóvel. Para eles, é como se, com o carro próprio, se igualassem à classe média e alta. É o fetiche do carro. Acreditam que o carro demonstra a sua personalidade. Ter um carro é tornar-se importante, ser percebido, passar a existir.

    Por isso essa obsessão em adquirir o carro maior, o mais vistoso e chamativo. Quem tem um carro maior, ocupa mais espaço e, intimamente, acredita que tem mais poder, mais força e mais direitos dentro do espaço destinado ao cidadão na área física das ruas e estradas. Já é bastante conhecida aquela piada irônica sobre o jovem que, fascinado por um veículo caríssimo, comentou: "Um carro desses aumenta até o tamanho do meu pênis". A frase demonstra que, para a nossa sociedade, o carro é até um elemento sensual, afrodisíaco.

    Evidentemente, isso é doentio.

    Para as cidades, então, esse tsunami de veículos é arrasador. As condições de vida se deterioram. O espaço físico, que pertence às pessoas, é literalmente tomado por máquinas poluentes. As cidades se tornam feias, poluídas e insuportavelmente barulhentas. Uma metáfora do inferno.

    Chegamos ao absurdo de ver os países dependerem da indústria automobilística. O nível de produção das montadoras vem sendo usado como referência para medir a saúde da economia. Uma distorção grave. Mas é o que está acontecendo.

    Para terminar, o mercado prevê, para este ano de 2013, a colocação de 3,5 milhões de carros nas ruas e estradas brasileiras. Cruz credo!

    ***

    O movimento "Alerta Noroeste Missões", cuja manifestação aconteceu quarta-feira última, tem algo de idealista. O objetivo maior é reivindicar obras (e a conclusão daquelas que estão paralisadas) no sistema viário da região. O movimento está cheio de razão.

    O grande problema é mesmo chamar a atenção do poder central (Porto Alegre e Brasília) para a região noroeste em que vivemos.

    Para usar um termo muito utilizado na sociologia, somos uma região periférica. O poder central está longe de nós. Não despertamos interesse. E quando há algum interesse, não há urgência.

    Por isso mesmo o movimento é legítimo e merece apoio. Por isso também ele é idealista, pois posiciona-se contra a maré histórica que concentra tudo nas grandes cidades e esvazia o campo. Vamos torcer para que o movimento se faça ouvir no centro do poder. Às vezes, a periferia também tem força.

  • sexta-feira, 19 de abril de 2013 13:22

    Coisas da Cidade

    Por problemas técnicos, a edição impressa do Noroeste do dia 12 não trouxe a crônica em que abordamos a questão
    da proposta de venda de imóveis valiosos do município. Aliás, ficamos também sem o texto do Clairto e o barulho do Bem-te-vi. Isso acontece.

    Mas, por ter constado do site (ah, vai me dizer que ainda não viu a novidade?) o texto acabou se multiplicando pelas redes sociais, onde uma galera ansiosa esperava informações e posicionamentos a respeito do assunto.

    Nos meus quase 50 anos de Santa Rosa não tinha visto tamanha expressão de repúdio. Por isso mesmo, conforta ver um grande número de pessoas que não escondem sua preocupação com o futuro da cidade. É bem lógico. Nos momentos de crescimento (como este que vivemos) é que temos de pensar o futuro com bom senso.

    O motivo do repúdio não é a venda em si, mas as áreas envolvidas, que todos entendem cruciais para a Santa Rosa do futuro. E, como já dito na crônica anterior, parece que não aprendemos a pensar a cidade como algo que se modifica, que de avoluma, que deve se preparar para os desafios do futuro. Pensamos apenas o problema imediato. Isso é pensar pequeno.

    A proposta, pelo que se viu, não é séria. Mas, se a cidade vacilar, o estrago será feito.

    ***

    E por falar em cidade, tem início hoje, se estendendo até dia 27, a programação do 2º Santa Arte, uma enorme agitação envolvendo música, teatro, artes plásticas, literatura, e muito mais. Paralelamente, há a semana do Livro, para pensarmos na sua importância na formação dos seres humanos. É muito legal porque os artistas se agitam e a cidade fica mais alegre e poética.

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    A partir de 2 de maio a hora do estacionamento rotativo passa para R$ 1,00. Portanto, fiquem atentos, senhores motoristas.

    Ainda tontos com a varredura feita pela Brigada, os motoristas devem agora redobrar seus cuidados ao estacionar na zona azul.

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    O momento é de comemorarmos a escolha do Clairto Martin como patrono da próxima feira do livro. Ele merece, pois além de escrever para o Noroeste, Clairto tem uma produção literária de alta qualidade.

    E vejam que não sou de puxar o saco de ninguém. Conheço os trabalhos do Clairto, seja como poeta, seja como contista, e garanto que a escolha de seu nome dará um brilho especial à feira que acontece no próximo mês de agosto.

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    Outro que receberá uma homenagem merecida é o Paulo Madeira. Foi escolhido para receber o título de "cidadão santa-rosense", com aprovação unânime pela Câmara de Vereadores.

    Nascido em Cruz Alta, Paulo Madeira abraçou Santa Rosa com enorme carinho e dedicação. Ao longo das últimas décadas vi o Paulo participar da vida comunitária e da política, sempre com espantosa capacidade de diálogo. O título é mais do que merecido.

  • sexta-feira, 12 de abril de 2013 14:44

    Por amor a Santa Rosa

    O assunto virou comentário em todos os lugares, com sur-
    preendente intensidade. Existe uma perplexidade geral com
    a proposta que prevê a venda de áreas pertencentes ao município. Todos se perguntam: e precisa? De onde surgiu esta idéia? Quais os interesses não confessados?

    A venda do patrimônio público é uma maneira fácil de fazer caixa, mas não é a forma inteligente, especialmente quanto lembramos do futuro. Santa Rosa é uma cidade em rápido crescimento, o que é evidente. A venda de áreas, especialmente aquela localizada logo após o parcão, não tem sentido. No futuro, ela fará falta.

    Não devemos esquecer que dentro de 20, 40 ou 80 anos, a cidade ainda estará pulsando, acolhendo as novas gerações. As necessidades urbanas serão outras. E já não haverá a possibilidade de reaver as áreas que agora desejam vender.

    Alega-se que se trata de área ociosa. Ora, está ociosa porque não lhe damos destinação útil, é claro. É o reconhecimento da nossa própria incapacidade. Se está ociosa, não significa dizer que não seja útil à população, ou que não possamos lhe dar uma destinação valiosa.

    Parece, e nisso nós todos estamos incluídos, que não aprendemos a pensar a cidade como algo que se modifica, que de avoluma, que deve se preparar para os desafios do futuro. Pensamos apenas o problema imediato. Isso é pensar pequeno. É raciocínio mesquinho, lamentavelmente. Pensar o futuro é para quem ama a cidade, quem deseja o melhor para todos, de forma coletiva.

    ***

    A venda do patrimônio público deve ser, sempre, a última alternativa. É o que acontece quando você possui um imóvel. Vender para fazer caixa é ingenuidade. Ou má-fé.

    E quando se trata de patrimônio público, a proposta é ainda mais grave. Não houve discussão, não houve sequer uma reflexão sobre alternativas. Daí a perplexidade da população, plenamente justificada.

    ***

    Neste sábado, às 15 horas, começam os diálogos envolvendo entidades que trabalharão contra essa proposta. Acredite. Ainda há cidadãos sérios em Santa Rosa, preocupados com os destinos da cidade. Estarão conversando no Parcão, em busca de alternativas. Isso é cidadania. Isso sim é amar esta cidade.

    ***

    Mudando de assunto. A frase "Olha o guincho!" foi a mais ouvida na região central da cidade durante a semana. O estacionamento rotativo, que estava jogado às traças, foi reativado com a ação da Brigada Militar.

    Nada mais lógico. Se existe uma lei que instituiu a modalidade de estacionamento rotativo, e os benefícios para o trânsito são reconhecidos, nada mais natural de que fazer a coisa funcionar.

    Embora com percalços (que incluem sua viabilidade econômica), o fato é que a população aprovou o estacionamento rotativo, e reconhece seus benefícios. Existem alguns incomodados, porém o que lhes falta é apenas uma reflexão mais aprofundada sobre os problemas de trânsito da cidade. Logo eles também concordarão.