• sexta-feira, 12 de abril de 2013 14:44

    Por amor a Santa Rosa

    O assunto virou comentário em todos os lugares, com sur-
    preendente intensidade. Existe uma perplexidade geral com
    a proposta que prevê a venda de áreas pertencentes ao município. Todos se perguntam: e precisa? De onde surgiu esta idéia? Quais os interesses não confessados?

    A venda do patrimônio público é uma maneira fácil de fazer caixa, mas não é a forma inteligente, especialmente quanto lembramos do futuro. Santa Rosa é uma cidade em rápido crescimento, o que é evidente. A venda de áreas, especialmente aquela localizada logo após o parcão, não tem sentido. No futuro, ela fará falta.

    Não devemos esquecer que dentro de 20, 40 ou 80 anos, a cidade ainda estará pulsando, acolhendo as novas gerações. As necessidades urbanas serão outras. E já não haverá a possibilidade de reaver as áreas que agora desejam vender.

    Alega-se que se trata de área ociosa. Ora, está ociosa porque não lhe damos destinação útil, é claro. É o reconhecimento da nossa própria incapacidade. Se está ociosa, não significa dizer que não seja útil à população, ou que não possamos lhe dar uma destinação valiosa.

    Parece, e nisso nós todos estamos incluídos, que não aprendemos a pensar a cidade como algo que se modifica, que de avoluma, que deve se preparar para os desafios do futuro. Pensamos apenas o problema imediato. Isso é pensar pequeno. É raciocínio mesquinho, lamentavelmente. Pensar o futuro é para quem ama a cidade, quem deseja o melhor para todos, de forma coletiva.

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    A venda do patrimônio público deve ser, sempre, a última alternativa. É o que acontece quando você possui um imóvel. Vender para fazer caixa é ingenuidade. Ou má-fé.

    E quando se trata de patrimônio público, a proposta é ainda mais grave. Não houve discussão, não houve sequer uma reflexão sobre alternativas. Daí a perplexidade da população, plenamente justificada.

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    Neste sábado, às 15 horas, começam os diálogos envolvendo entidades que trabalharão contra essa proposta. Acredite. Ainda há cidadãos sérios em Santa Rosa, preocupados com os destinos da cidade. Estarão conversando no Parcão, em busca de alternativas. Isso é cidadania. Isso sim é amar esta cidade.

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    Mudando de assunto. A frase "Olha o guincho!" foi a mais ouvida na região central da cidade durante a semana. O estacionamento rotativo, que estava jogado às traças, foi reativado com a ação da Brigada Militar.

    Nada mais lógico. Se existe uma lei que instituiu a modalidade de estacionamento rotativo, e os benefícios para o trânsito são reconhecidos, nada mais natural de que fazer a coisa funcionar.

    Embora com percalços (que incluem sua viabilidade econômica), o fato é que a população aprovou o estacionamento rotativo, e reconhece seus benefícios. Existem alguns incomodados, porém o que lhes falta é apenas uma reflexão mais aprofundada sobre os problemas de trânsito da cidade. Logo eles também concordarão.

  • sexta-feira, 5 de abril de 2013 17:03

    Gerundismo cansa

    Um comercial de TV, que vem sendo veiculado há algumas semanas, tira uma onda com um modismo linguístico chamado "gerundismo". A propaganda é de uma cerveja, e o narrador, em off, diz mais ou menos isso: "O senhor, que vai estar azarando as gatinhas, vai estar levando pesco-tapas dos namorados das gatinhas, vai estar sacaneando os convidados-malas, vai estar entupindo os convidados com pão de alho..."

    Certamente você já lembrou. A propaganda faz graça com um costume vocabular recente, que virou mania e agride os nossos ouvidos.

    Essa irritante repetição de "vai estar" é o que ouvimos quando atendemos ligação de algum "call-center", por exemplo. De imediato vem a pergunta: "O senhor pode estar respondendo algumas perguntas?". Ou então: "Vou estar providenciando o seu pedido". "Vou estar transferindo sua ligação...".

    Acredito que as pessoas não percebem que estão cometendo um vício de linguagem. Dias atrás, estive numa palestra onde a palestrante (no caso, uma professora) conseguiu irritar a platéia com a sistemática repetição de frases desse tipo. Acho até que algumas pessoas acreditam que o modismo torna a sua fala mais refinada, o que é um evidente equívoco.

    A explicação mais provável é que isso veio a partir de uma tradução literal do inglês, onde esse tipo de expressão sempre existiu. Mas no português é novidade, um modismo que contaminou desde telefonistas e secretárias até altos executivos. E não se surpreenda ao entrar num táxi e ouvir: "O senhor vai estar me dizendo aonde devo ir e em qual rua vou estar entrando". Salte do táxi, imediatamente.

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    Jeferson Furtado, artista que já tem diversas obras espalhadas pela cidade (entre elas aquela da rótula do Taffarel, lembra?), é também um ciclista fanático.

    Neste momento ele está em viagem para o Pacífico, no litoral do Chile. Melhor esclarecendo. Ele está viajando para o Pacífico em sua bicicleta, o que torna a viagem particularmente inusitada e interessante.

    Nessa viagem, Jeferson leva na bagagem as cinzas do pai, o saudoso Jairo Guarani Furtado, com destino à cidade argentina onde viveu Ernesto Guevara, o "Chê", por quem Jairo tinha grande admiração. Desta vez, pois, Jeferson uniu a aventura e o gesto sentimental. Na volta, terá muito para nos contar.

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    Esta semana tive a oportunidade de participar de reunião, na Prefeitura, para apresentar sugestões envolvendo os ciclistas da cidade e a Av. Expedicionário Weber. A avenida, aliás, parece ter se tornado o assunto referencial para todos os cidadãos que aqui vivem.

    E não é sem motivo. É a artéria principal, a mais nervosa e mais importante. Por isso mesmo provoca tantos debates, os quais, na verdade, são sempre saudáveis. Há projetos diversos, incluindo o futuro aproveitamento da área da via férrea, que certamente não será num futuro próximo. Mas aspectos como a eliminação do canteiro central já são consenso na cidade, o que levaria a um melhor aproveitamento da pista, possibilitando também a construção da ciclovia, anseio de muita gente.

    É claro que os debates continuarão. E as obras também. Enquanto isso, quem ferve a cabeça é o Petrazzini e o Calixto, que estão com a batata quente nas mãos. Mas, temos de admitir, estão colhendo sugestões dos mais diversos setores comunitários, o que é bom.

  • quarta-feira, 3 de abril de 2013 08:08

    Lembro bem

    A Sexta-feira Santa da minha infância tinha um significado especial. Além das celebrações religiosas, que marcavam toda a semana, havia a sexta-feira para lembrar a morte de Jesus. Era um dia de silêncio, a criançada sob a vigilância dos adultos para que a algazarra que marcava os outros dias não acontecesse.

    O combinado era que, até às três da tarde, haveria um recolhimento contrito. Naquela hora, lembrávamos do sofrimento de Cristo, com alguma compaixão. A compaixão possível para nossos conhecimento elementares de religiosidade.

    Depois, estávamos liberados para o futebol e a bagunça.

    Ficava, portanto, em nossos corações, a história da fundação do cristianismo, de forma indelével. Mas havia, ainda, a promessa de ressurreição, que para nós vinha em forma de ovos de chocolate, bolachas pintadas, pirulitos, gomas de mascar e até um churrasquinho da "parentaia". Eta ressurreição boa!

    Aliás, o peixe da sexta-feira santa era, invariavelmente, uma lata de sardinhas. Não havia oferta de peixes, e os oferecidos em mercado eram caríssimos.

    Mas nas nossas cabeças de garotos restavam perguntas cujas respostas não recebemos até hoje. Por que o símbolo da Páscoa é um coelho se ele não põe ovos? Mesmo que fosse capaz dessa façanha, ele conseguiria botar 6 bilhões de ovos todo ano? Por que podemos comer peixe, se peixe também é carne? As crianças do Nordeste também devem jejuar? Não seria muito melhor se, no lugar de Cristo, tivessem crucificado o coelho?

    Pois é. Na infância, a semana santa tem significados que nos acompanham pelos tempos afora.

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    Tradicionalmente, no Brasil, a quaresma coincide com a divulgação da Campanha da Fraternidade, um interessante projeto católico que, todo ano, debate algum tema importante para a sociedade.

    Em 2013, o tema é "Fraternidade e juventude", um tema abrangente, que pode provocar reflexões e debates infindáveis, mas extremamente necessário num país com quase 200 milhões de habitantes. Desse total, os considerados jovens são mais de 80 milhões. Uma massa humana superior à população da maioria dos países do mundo.

    O tema, portanto, é atual mas também é permanente. Debater a juventude é programar o futuro, não é?

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    O anunciado projeto de duplicação da RS-344, no entorno da cidade, já suscitou um problema que vem preocupando muita gente. O que fazer com o porco do trevo do frigorífico?

    Penso que devemos dar um destino nobre ao simpático porquinho. Eu sugiro um novo monumento, um novo pedestal, em um local adequado, pois consta que o projeto de engenharia prevê uma elevada naquele cruzamento. Confesso que não sei o que o projeto pretende fazer com ele.

    Uma enquete até seria útil. Ou um plebiscito, sei lá. A população poderia decidir o destino da pequena estátua, que já virou símbolo. Brincadeirinha, eu sei. Mas já virou tema de conversa séria nas esquinas da cidade. A unanimidade é pela preservação do porquinho. Já tenho até um slogan para a campanha: "Salve o porco, que ele merece!". Espero que você, caro leitor, seja um dos apoiadores. Afinal, é hora de retribuir tudo o que ele, o porco, já proporcionou à economia regional. E tenho dito.

  • sexta-feira, 22 de março de 2013 14:46

    Motoboys e outras figuras

    A normatização da profissão de motoboy já existe. O que falta é colocá-la em prática. Alguns deles já estão até fazendo cursos para melhor desempenhar suas funções. Isso é ótimo. Afinal, é uma profissão como qualquer outra, e um certo grau de profissionalismo cai muito bem.

    Fico até imaginando que um bom período das aulas deve ser dedicado a dois temas: velocidade e ultrapassagens. Por estas bandas, condutor de motocicleta não sabe ultrapassar e velocímetro é uma pecinha luminosa que só existe nos outros veículos.

    Está bem, eu sei que estou generalizando. Mas no trânsito da cidade não há dúvida nenhuma. O grande perigo são as motocicletas. E o que é pior: eles (motoqueiros ou motociclistas, você escolhe) são as vítimas mais frequentes.

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    Na gíria bem humorada do mundo corporativo, motoboy tem função pomposa. Ele é o “especialista em logística de documentos”.

    No trânsito, aliás, existem outras funções fundamentais. O taxista é o  “distribuidor de recursos humanos”. E o cobrador do ônibus é o “técnico contábil de transporte de massa”. São títulos para zoar as empresas que escolhem títulos esquisitos para os cargos na ingênua ilusão de que isso dá poder e legitimidade ao seu  detentor. No futebol, certa feita um jogador, cujo time lutava contra o resultado adverso no jogo, gritou para o garoto ao lado do campo:

    “Depressa com a bola, gandula!”

    E o guri, sem pressa nenhuma, explicou:

    “Gandula, coisa nenhuma! Aqui eu sou o “coordenador do fluxo de artigos esportivos”. E devolveu a bola. Lentamente.

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    Nem parece que estamos vivendo 2013 e já estamos entrando na Semana Santa, período que já foi mais religioso e contrito, mas ainda tem sua aura. É uma semana diferente. Mas já foi, é claro, muito diferente do que é hoje.

    Conheci famílias que se reuniam no início da semana para uma conversa séria. Esta será uma semana de jejum, jejum completo! Sim, todos concordavam, será uma semana diferente. Sem festas ou bailes. O rádio, se estiver ligado, será baixinho. Sem gritarias, todos admitiam.

    Pois bem, a partir de então, a mãe buscava na gaveta do armário seu caderno de receitas a fim de que, especialmente a partir da quarta-feira, a carne de boi  desaparecesse da mesa familiar. E com isso vinha uma ameaça: comer carne poderia causar tumores, dores de cabeça, nó nas tripas, e assim por diante. Algumas pessoas mais pecadoras poderiam simplesmente explodir.

    Mas muitas famílias ainda seguem o ritual nos dias de hoje. O livro de receitas sai do armário e vai para algum lugar nobre da cozinha. Afinal, eliminar a carne não significa passar fome. O livro surge, então, como a salvação para aqueles dias que ameaçavam ser de abstinência e sofrimento.

    A partir daí, para alegria geral, embora o respeitoso silêncio desses dias, aparecem maravilhosos bolos de chuva, sopas de legumes, massas (incontáveis pratos de massas e molhos), peixes assados, recheados, fritos, gratinados. Também tem frango grelhado, frango assado, frango a passarinha, etc. E depois, geléias,  doces, suspiros, compotas e frutas cristalizadas. O cardápio se renova, se multiplica, se expande milagrosamente. É o jejum, dizem.

    Algumas famílias até convidam os parentes para jejuarem em conjunto. E a despedida é bem clara:

    “Então fica combinado, compadre. No ano que vem o jejum será lá na minha casa”.