• sexta-feira, 14 de outubro de 2016 10:15

    Dia do Professor


    Desde aquela época, o Brasil discute se realmente investir em educação é um projeto para o país, ou se o tema é algo que deve aparecer apenas nos períodos eleitorais. Tenho a convicção que o Brasil ainda não decidiu apostar de forma decisiva em educação.
    Às vezes as pessoas citam países como Coréia, Japão, Dinamarca, Suécia e Finlândia como exemplos de países que decidiram seu futuro através da educação. Mas isso é coisa de gente que pensa muitos anos à frente, gerações à frente.
    Brasileiro não é capaz de planejar tão longe assim. No máximo, o próximo ano. Talvez por isso não nos preocupamos com as próximas gerações. Mas, em compensação, fazemos discursos bem feitinhos em defesa da educação.
    É só.
    Lembro de uma frase famosa do antropólogo e educador Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise. É um projeto”.
    É fácil compreender o que ele queria dizer. A educação não é algo decisivo e não tem investimentos pesados. Melhor alimentar a indigência educacional, pois ela reproduz eternamente a submissão e a pobreza. Não formamos cidadãos. Formamos massa de manobra. Desde o império.
    E quanto à valorização do professor, o homenageado da semana, é outra questão que o Brasil ainda não decidiu nada a respeito...
    ***
    Mudando de assunto,veja que ideia interessante. No âmbito da CEEE, distribuidora de energia que atende parte do Estado, está em vigor um convênio interessante, voltado para a economia de eletricidade. Mediante convênio com uma rede de lojas de departamentos, lâmpadas e eletrodomésticos são substituídos por novos, com acentuada redução de consumo e com descontos de 50% no valor da mercadoria.
    Medida inteligente. Uma geladeira nova, por exemplo, consome cerca de 1/4 da energia consumida por um equipamento antigo.
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    E por falar em energia, o jornal Correio do Povo, na edição do último fim de semana, dedicou quatro páginas aos moradores de Porto Mauá, que vivem a eterna expectativa da barragem.
    O título da matéria é primoroso: “Vidas em suspenso”.
    Como não há definição a respeito, inclusive com determinação judicial que suspendeu os estudos da barragem, a vida dos moradores fronteiriços virou uma bagunça. Ninguém pode fazer investimentos em suas propriedades (o bom senso desaconselha, é claro). E ninguém consegue fazer planos para o futuro.
    Por outro lado, a administração do município também vive momentos desagradáveis. Diversas verbas, que viriam dos governos estadual e federal, simplesmente “desapareceram”. As verbas não vêm porque, afinal, quem investiria em regiões urbanas que serão alagadas?
    Até mesmo a reconstrução de casas atingidas por enchentes está parada, pois o dinheiro não veio. O município vive a aflição do futuro incerto.

  • segunda-feira, 10 de outubro de 2016 08:02

    Rescaldo eleitoral

    O disco "Circare", do amigo Cláudio Joner, músico reconhecido em todo o Estado, merece uma melhor acolhida por parte da cidade.

    Feito com esmero (inclusive na parte gráfica), o disco contém músicas novas e algumas releituras, e conta ainda com participação de alguns músicos consagrados, dando um brilho especial às canções.

    Se você ainda não adquiriu o disco, está perdendo tempo e boa música.

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    Passada a emoção do voto, é hora de algumas reflexões.

    Embora estejamos em tempos turbulentos, algumas regras são permanentes e devem ser lembradas. Por exemplo, o sistema de "freios e contrapesos", que estabelece o equilíbrio entre Legislativo e Executivo. Por isso, o poder é sempre limitado.

    O Brasil tem quase 60 mil vereadores. Mas a população, de modo geral, não percebe a sua importância. Na verdade, o vereador é uma função desprestigiada. Mas isso está errado. O vereador é base do sistema político. É ele que conhece a vida concreta do cidadão.

    Acompanhar o vereador, conhecer o seu trabalho e cobrar dele as políticas necessárias à cidade. Tudo isso deveria fazer parte da vida de qualquer cidadão, mas a realidade é bem outra. O desprestígio do vereador contribui para a fraqueza política das instituições e da própria democracia, sem falar dos casos em que o Legislativo se submete à vontade do Executivo de forma indiscriminada.

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    O debate que se segue à eleição envolve os 35 milhões de votos nulos e brancos. O que eles significam? Pois bem. Voto em branco é voto indiferente. Voto nulo é voto de protesto. Eles não alteram o resultado eleitoral, apenas significam que os eleitos recebem menos votos.

    Mas esse volume espanto de pessoas que não escolheram seus candidatos pode significar, na visão de alguns analistas, um alerta para a classe política. Se milhões de pessoas se negam a escolher um representante (por indiferença ou por nojo), algo está errado e necessita de análise mais aprofundada pelos políticos.

    No meu ponto de vista, duvido muito que eles estejam dispostos a fazer esta reflexão.

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    Vender o voto não significa apenas trocá-lo pela notinha do botijão de gás, pela fatura da energia elétrica ou pelo sacolão reservado pelo candidato junto ao mercadinho do bairro.

    Primeiramente, quem vende o voto não tem direito a cobrar nada do eleito. Afinal, ele já comprou o mandato, e "pagou" por ele. O eleitor e o eleito estão quites.

    Mas se você vota em alguém esperando um emprego público (para você ou para um parente próximo), isso também é uma venda de voto. Afinal, você está abdicando do direito político em troca de favor econômico.

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    A cidade de Espumoso, na região do Planalto, decidiu fazer uma experiência radical. Nenhum vereador conseguiu a reeleição. Com a substituição total da Câmara, a cidade espera novos ares. No mínimo, interessante.

  • sábado, 24 de setembro de 2016 11:22

    Bem capaz!

    O traço que mais distingue o gaúcho é a linguagem. Mais do que os trajes típicos, mais do que hábitos como o chimarrão e o churrasco. Estou certo que alguns leitores vão discordar — o que muito respeito — mas tenho razões para pensar assim. Tempos atrás um “estrangeiro”, nascido no norte do Paraná, ficou muito espantado quando ouvia, nas esquinas da cidade, as pessoas dizerem: “Bem capaz!”. Confesso que foi uma dificuldade explicar o que isso significa.

    “Você não entendeu? Capaz?!”

    O “capaz” pode ser, portanto, uma exclamação interrogativa, como a acima. Pode também ser uma expressão puramente negativa:

    “Bem capaz que aquele político é honesto!”

    Ou ainda afirmativa como resposta:

    “Capaz que não!”

    Na verdade, o “bem capaz!” serve para qualquer coisa. Serve para confundir sentimentos dos ouvintes, quando você não quer dar uma opinião definitiva. Ou até um simples deixa pra lá, por exemplo, quando alguém esbarra em você e pede desculpas e você responde:

    “Capaz, guri!”

    Muitas vezes a expressão é usada como exclamação e espanto:

    “Viu que a vizinha tá traindo o marido?”

    “Capaaazzz!!!”

    No caso, o espanto se confunde com uma vontade danada de fofocar. E também temos a negativa que se confunde com aprovação:

    “Deixa eu te dar um beijo?”

    “Bem capaz!”

    Se você for um estrangeiro, deve tacar um beijo na moça. Afinal, você não é obrigado a conhecer todos os sentidos com que o gaúcho usa a expressão. E se ela responder: “Sai, piá! Tu é muito metido!”, você pode simplesmente responder, fazendo cara de anjo satisfeito:

    “Capaz...”

    ***

    Não estou falando de sotaque, que temos de sobra. Quando dizemos que o nordestino fala cantado, tenha a certeza de que eles pensam o mesmo de nós. Portanto, falamos o português com sotaque influenciado pelo espanhol. Nada de mais nisso. É até bonito, mas é sotaque.

    Estou falando do vocabulário. Tente explicar para nossos patrícios de outras plagas o que significa “na bucha”, “cheio de nove-horas”, “bodoso”, “revertério”, “cu doce” e “pau de virar tripa”. Com algum esforço você consegue. O fato é que expressões desse tipo fazem parte do nosso cotidiano e sequer percebemos que elas são exclusivamente nossas. Estão no nosso inconsciente.

    ***

    No futebol não é diferente. Dar pontapés é “abrir o açougue”. Estádio ruim é “chiqueiro”. Gol feito meio por descuido é “de chiripa”. Ganhar a partida com muitos gols é “lavada” ou “vareio”, e juiz desonesto “garfeia”.

    No Rio Grande, gandula é “marrecão”, uniforme é “fardamento”, agasalho é “abrigo”, jogo difícil é jogo “encardido”, arco é “goleira”. E quando o atleta é atingido pela bola na virilha, com muita força, o torcedor comenta, sem muita ênfase: “Coitado! Levou um selaço nos bagos”.

    Vá entender!

  • sábado, 17 de setembro de 2016 09:55

    Semana Gaúcha

    Quem acompanhou as votações, no Senado, que resultaram no golpe parlamentar de 2016 (é com esse nome que ele já entrou para a História), teve a excelente oportunidade de entender um pouco do Brasil.
    Estou falando das oligarquias que existem desde o surgimento da República, e que não sofreram abalos com a modernização, a globalização ou qualquer outro fenômeno político ou econômico. Elas continuam mandando. Estão muito acima das siglas partidárias e nem mesmo os modernos processos eleitorais eliminam o que restou do coronelismo. São características que vêm desde o período escravagista.
    Pois o Senado é o reflexo mais claro de sua atuação. Veja algumas:
    Em Alagoas, temos as famílias Calheiros e Collor de Mello. Na Bahia, as famílias Magalhães e Souto. No Ceará, a família Jereissati. No Maranhão, os Sarney, os Lobão e os Murad. Em Minas Gerais, os Neves e os Cunha. No Rio Grande do Norte, as famílias Maia, Alves, Rosado e Faria. E assim por diante.
    Já nos estados do Sul e Sudeste, não existem famílias propriamente ditas, mas grupos econômicos que atuam juntamente com aquelas quando seus interesses são ameaçados. E tratam de eleger seus representantes no Legislativo, os capatazes que estão lá com objetivos bem específicos, ou seja, que o Estado brasileiro esteja a seu serviço, e não a serviço da população. O nosso Senado é o desenho claro do país.
    As oligarquias preservam e reproduzem hereditariamente o seu poder e sua fortuna, passando de pai para filho, e pouco se preocupam com coisas como a vontade popular. Esta, provavelmente, seja a mais sólida explicação para o atraso brasileiro. Nem o capitalismo consegue ser moderno no Brasil.
    ***
    Dos 513 deputados federais, 303 são acusados de alguma atividade ilícita. A mesma proporção acontece no Senado. Acho que as transmissões de sessões, pela TV, deveriam vir acompanhadas de um aviso às famílias: “Faixa etária: 18 anos”.
    Eles são um perigo para nossas crianças...
    ***
    A semana farroupilha está aí, com gaúchos entusiasmados que tiram do armário suas pilchas, armam acampamentos rústicos em lugares públicos e dão um trato nos cavalos para os desfiles de setembro.
    Não se nega que o tradicionalismo tem uma dose exagerada de conservadorismo. Mas existe um aspecto louvável nessas tradições, quando lembramos do mundo globalizado da atualidade, mundo que passa uma régua linear sobre as cabeças dos seres humanos em todo o planeta. Somos apenas consumidores, mergulhados num mercado avassalador, e contra a nossa vontade.
    Estou falando da resistência cultural. Culturas e linguagens estão desaparecendo pelo mundo afora. Isso significa um empobrecimento cultural lamentável. Observe as vestimentas e o tipo de alimentação que dominam a vida atual. Somos um mundo pasteurizado e enfadonho. O jovem de Santa Rosa tem os mesmos hábitos de um garoto de Nova Iorque ou de uma vila em Portugal. Muito chato.
    Pois o chimarrão, a bomba-cha e o cavalo são formas de resistência a essa homogenei-zação que destrói as culturas regionais. São valores a serem defendidos.