• sábado, 26 de novembro de 2016 10:46

    Trenzinho caipira

    O governo Britto, de 1995 a 1999, deixou um passivo espetacular que o Estado do RS está pagando até hoje. Ainda há milhares de processos judiciais envolvendo pendências desse período que tramitam no Judiciário. Vale lembrar que o período ficou marcado pela venda da CRT e da Caixa Estadual, e que Britto saiu do governo para trabalhar na Telefônica (da Espanha) e na Azaléia, fatos que deixaram suspeitas até hoje não esclarecidas sobre sua atuação como governador. O dinheiro da venda das estatais desapareceu. Não fez cócegas nas finanças do Estado. O Rio Grande nunca mais tomou rumo.
    Agora, olhando o “pacote” do governo Sartori, fiquei com a mesma impressão. Parece que estou vendo um “replay”. A tal “reforma” do Estado vai criar pendengas que custarão muito caro para o povo gaúcho e que se arrastarão pelas próximas décadas. Britto também quis fazer uma “reforma”. Agora, passados tantos anos, tudo volta a se repetir. Vendo o conteúdo do “pacote” só posso concluir que estão dando chutes na direção da lua, tentando acertá-la.
    Na história da República o Rio Grande se destacou porque teve lideranças destemidas, polêmicas, altruístas e até algumas visionárias. Hoje temos isso que está aí. Lideranças que não conseguem ver um palmo diante do nariz. É triste.
    ***
    “Noveleiro” é uma palavra de uso popular, e realmente existe na língua portuguesa. Ela designa a pessoa que gosta e acompanha novelas da televisão. Chamar alguém de “noveleiro”, portanto, não é ofensa nenhuma. Sempre tivemos os noveleiros, pessoas que gostam da ficção. Antigamente eles adoravam as novelas do rádio. Hoje, gostam das novelas da TV, embora esse gênero esteja perdendo terreno para as séries das televisões pagas.
    Ainda existem milhões de noveleiros no Brasil. Digo isso porque, dia desses, ouvi a música que abre a novela das nove da Globo, a música-tema da novela. Na hora eu me virei para a TV e fiquei atento, dizendo: “Eu conheço esta música”. E realmente conhecia a beleza daquela melodia.
    A música recebeu o nome de “Trenzinho Caipira”, e é muito linda. A melodia foi composta pelo extraordinário Villa-Lobos, em 1933, e faz parte da obra “Bachianas Brasileiras nº 2”. Na verdade, é um pedaço da composição.
    Na música, os instrumentos imitam o movimento de uma locomotiva. Villa-Lobos é, até hoje, o músico brasileiro mais conhecido em todo o mundo. Em 1975 (cerca de quarenta anos mais tarde) o poeta alagoano Ferreira Gullar escreveu a letra (que está no livro “Poema Sujo”).
    A partir de então a música erudita de Villa-Lobos se tornou popular. O “Trenzinho caipira”, desde então, vem sendo gravado por inúmeros músicos, mas aconselho que você ouça as versões gravadas por Maria Bethânia e Edu Lobo. São obras primorosas. Só de falar nisso eu fico lembrando: “Lá vai o trem com o menino, lá vai a vida a rodar...”
    ***
    E num entardecer da primavera está o caipira sentado diante de casa, ao lado da mulher, com a TV ligada à sua frente. Nesse momento cruza diante da casa um vizinho retornando do trabalho, e o saúda:
    “Firme, compadre?”
    O outro vira-se e responde:
    “Não, compadre. Novela da Globo...”

     

  • segunda-feira, 7 de novembro de 2016 08:43

    Grandes brigas

    A mais recente briga política brasileira envolve a imprensa. Os grandes jornais do país (Folha de S. Paulo, Estadão e Globo) foram ao STF com um pedido contra sites da imprensa internacional, tentando excluí-los do mercado. Como sabemos, a imprensa brasileira (em sua maioria) está nas mãos de meia dúzia de famílias.

    Pois estes barões da imprensa perceberam que, desde que a crise política se instalou, os grandes jornais vêm perdendo credibilidade e os leitores mais atentos voltaram-se para a imprensa internacional e seus sites em português. Ninguém mais é tão bobo a ponto de acreditar, por exemplo, em órgãos de imprensa vinculados à Globo ou à editora Abril.

    Por incrível que pareça, se você quer realmente saber o que está acontecendo na política brasileira, deve ler a imprensa internacional!

    Isso é realmente frustrante!

    Os alvos do ataque são os sites do jornal El País (Espanha), BBC (Inglaterra), RFI (França) e The Intercept (que reúne jornalistas independentes de todo o mundo). É claro que isso não dará em nada. Estes respeitáveis órgãos da imprensa mundial continuarão publicando em português, e nenhuma determinação do STF poderá impedi-los. Estamos num mundo com internet, lembre-se.

    Mas fica a dica. Procure os sites acima. As análises são sérias, mais aprofundadas e mais confiáveis.

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    O feriado da última segunda-feira, em Santa Rosa, não recebeu a devida atenção. Ou, pelo menos, merece uma reflexão mais séria.

    Lutero, o reformador, foi uma espécie de rebelde do século 16 (justamente o século que se iniciava com a descoberta do Brasil, lembra?). O mundo vivia numa época que hoje conhecemos como Idade Média, de dominação absoluta da Igreja Católica. Pois o monge Agostinho Lutero atacou a prática das indulgências da Igreja, e foi excomungado juntamente com seus seguidores. O mundo nunca mais foi o mesmo.

    O surgimento do protestantes (ou evangélicos) por um lado ajudou a revigorar o cristianismo e, por outro, deu origem à “Contra Reforma” e à Inquisição, talvez o período mais sangrento e obscurantista da história ocidental, cujos tentáculos também chegaram até o Brasil.

    O resultado foi o surgimento de novas formas de religiosidade, todas vinculadas ao cristianismo. Lutero talvez nunca tenha imaginado as dimensões de seu movimento e sua importância para o mundo. Ficou, porém, como um rebelde capaz de questionar verdades consideradas absolutas e até enfrentar o poder descomunal que dominava o mundo na sua época.

    Sobre a briga espetacular das igrejas Deus ainda não se manifestou, vamos deixar bem claro...

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    A história humana encontra, sempre, pessoas como Lutero, capazes de iluminar a escuridão, abrir janelas e portas para novos ares e discutir caminhos. Só vivemos num mundo diferente do passado porque eles existiram, precisamos lembrar disso!

    A maioria deles, assim como aconteceu com Lutero, sofre forte reação. É o preço a pagar. Hoje, no Brasil, Lutero e outros rebeldes seriam tachados de anarquistas, comunistas, petralhas, impatriotas, alienígenas, destruidores da moral e dos bons costumes, e assim por diante...

    Devemos lembrar que o obscurantismo da Idade Média anda à nossa volta todos os dias. O medo de tudo o que é novo produz energúmenos agressivos com mentalidade medieval. Eu conheço uma porção deles...

  • segunda-feira, 24 de outubro de 2016 08:02

    Erros evitáveis

    Ficou famosa, anos atrás, uma propaganda de TV em que a atriz Carolina Dieckmann dizia, claramente, a palavra “sombrancelha”. Era um comercial de refresco em pó. Entre os publicitários criou-se até um desafio cujo objetivo era descobrir o autor do texto da peça publicitária.

    Não lembro se o descobriram. Mas o caso ficou como lição para quem trabalha na área. A revisão é indispensável. O erro fonético é comum neste caso, mas imperdoável na publicidade. Assim como seria imperdoável numa matéria jornalística ou dentro de um livro.

    O correto, é claro, é “sobrancelha”. Aliás, as da Carolina são lindas...

    ***

    Dias atrás vi um texto de um palestrante de autoajuda que também carecia de revisão. Diversas vezes, ao longo do texto, ele usou a palavra “nomeclatura”. Aquilo doeu nos olhos e nos ouvidos. Afinal, a palavra que se refere ao vocabulário de uma determinada área de conhecimento é “nomenclatura”, com aquele “N” no meio, que muda completamente a pronúncia.

    Temos a nomenclatura jurídica, a nomenclatura das ciências biológicas e assim por diante. E a palavra “autoajuda” se escreve assim mesmo, sem hífen. Já vi este termo escrito de diversas maneiras, o que prova que a autoajuda às vezes não resolve. Também precisamos da ajuda de um dicionário, por exemplo.

    ***

    Mas imperdoáveis, mesmo, são os erros gráficos em placas de trânsito que são fornecidas pelo poder público e que servem para orientar os cidadãos.

    Observe quando estiver em viagem. O pior deles, que se reproduz como uma praga, está nas placas que indicam distância, empregando indevidamente a crase. “Refúgio à 20 Km”. “Novo Hamburgo à 10 Km”. Ora, antes de número nunca deve ser usada a crase. É uma regrinha básica, elementar.

    Acho que o poder público não tem direito a cometer essas gafes.

    ***

    Agora misturando língua portuguesa com política, um erro claro vem sendo reproduzido nos últimos meses, seja nas redes sociais, seja na imprensa nacional.

    Primeiramente, os adversários da presidente Dilma divulgaram cartazes com a frase “Tchau querida!”. Atualmente, a frase está assim: “Fora Temer!”. Ambas estão erradas.

    Aqui entramos no terreno do vocativo, termo pelo qual dirigimos a palavra a alguém. É um chamamento. O vocativo obrigatoriamente separa os termos por vírgula. No caso, envolve uma interjeição vocativa. Para entender é só acrescentar a interjeição “ó”.

    Por exemplo: “Volte logo, Maria”, também pode ser escrita: “Volte logo, ó Maria!”. Outros exemplos: “Ó de casa, posso entrar?”, “Ó meu Deus, o que faço agora?”, “Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve!”, “Joãozinho, saia da sala!”, “Dá-lhe, Colorado!”, “Não caia, Inter!”. A vírgula é imprescindível.

    Assim, o correto, é escrever: “Fora, Temer!”, ou então “Saia, Temer!”.

    Mas, cá entre nós, será de pouco efeito. Considerando que eles estão desmontando a educação pública e colocaram no Ministério da Educação um ministro que está mais perdido que alparcata em cancha de bocha, certamente também estão pouco interessados em questões de ortografia...

  • sexta-feira, 14 de outubro de 2016 10:15

    Dia do Professor


    Desde aquela época, o Brasil discute se realmente investir em educação é um projeto para o país, ou se o tema é algo que deve aparecer apenas nos períodos eleitorais. Tenho a convicção que o Brasil ainda não decidiu apostar de forma decisiva em educação.
    Às vezes as pessoas citam países como Coréia, Japão, Dinamarca, Suécia e Finlândia como exemplos de países que decidiram seu futuro através da educação. Mas isso é coisa de gente que pensa muitos anos à frente, gerações à frente.
    Brasileiro não é capaz de planejar tão longe assim. No máximo, o próximo ano. Talvez por isso não nos preocupamos com as próximas gerações. Mas, em compensação, fazemos discursos bem feitinhos em defesa da educação.
    É só.
    Lembro de uma frase famosa do antropólogo e educador Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise. É um projeto”.
    É fácil compreender o que ele queria dizer. A educação não é algo decisivo e não tem investimentos pesados. Melhor alimentar a indigência educacional, pois ela reproduz eternamente a submissão e a pobreza. Não formamos cidadãos. Formamos massa de manobra. Desde o império.
    E quanto à valorização do professor, o homenageado da semana, é outra questão que o Brasil ainda não decidiu nada a respeito...
    ***
    Mudando de assunto,veja que ideia interessante. No âmbito da CEEE, distribuidora de energia que atende parte do Estado, está em vigor um convênio interessante, voltado para a economia de eletricidade. Mediante convênio com uma rede de lojas de departamentos, lâmpadas e eletrodomésticos são substituídos por novos, com acentuada redução de consumo e com descontos de 50% no valor da mercadoria.
    Medida inteligente. Uma geladeira nova, por exemplo, consome cerca de 1/4 da energia consumida por um equipamento antigo.
    ***
    E por falar em energia, o jornal Correio do Povo, na edição do último fim de semana, dedicou quatro páginas aos moradores de Porto Mauá, que vivem a eterna expectativa da barragem.
    O título da matéria é primoroso: “Vidas em suspenso”.
    Como não há definição a respeito, inclusive com determinação judicial que suspendeu os estudos da barragem, a vida dos moradores fronteiriços virou uma bagunça. Ninguém pode fazer investimentos em suas propriedades (o bom senso desaconselha, é claro). E ninguém consegue fazer planos para o futuro.
    Por outro lado, a administração do município também vive momentos desagradáveis. Diversas verbas, que viriam dos governos estadual e federal, simplesmente “desapareceram”. As verbas não vêm porque, afinal, quem investiria em regiões urbanas que serão alagadas?
    Até mesmo a reconstrução de casas atingidas por enchentes está parada, pois o dinheiro não veio. O município vive a aflição do futuro incerto.