sexta-feira, 19 de maio de 2017 11:42

Amores de maio

Maio é o mês do amor porque envolve o Dia das Mães e o Dia das Noivas.
As mães, obviamente, adoram a data a elas dedicada, pois recebem presentes e carinho. Merecem.
As noivas, como sabemos, perderam seu glamour porque os tempos mudaram. Hoje entendemos que o amor entre um homem e uma mulher tem múltiplas faces, muitas formas de existir. Não é mais o amor idealizado de outrora.
Sob certo aspecto isso é muito bom. O amor romântico causa mais dor do que felicidade, e distorce a realidade. As pessoas envolvidas nele não conseguem observar com objetividade o seu parceiro. Por isso, quanto mais romântico e idealizado, mais cego.
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O amor entre Aldacira e Ernando, por exemplo, desmente o amor idealizado, mas foi e continua sendo um grande amor.
Estou falando de um amor de fronteira. Ela, mulher forte de físico e de personalidade, nascida em Misiones, na Argentina. Ele, um sujeito mirrado e sempre de bom humor, um brasileiro criado entre gaúchos e castelhanos, ambiente que sempre lhe foi muito natural. Mas todos sabiam que, entre eles, o amor tinha estranhas formas de manifestação, com algumas altercações e desentendimentos, que eventualmente chegavam às vias de fato. Nada que abalasse de forma permanente aquele noivado.
Conheceram-se numas bailantas da costa do Uruguai, do lado de cá e do lado de lá. Nenhum deles considera o outro um modelo de beleza e gentileza, mas entre brigas e reencontros, decidiram que continuariam lado a lado, chegando até a marcar data de casamento, para surpresa dos amigos.
No casamento, muito chamamé e rancheira, uma cantoria para unir as duas pátrias e alegrar a todos. Pois em pleno casamento, a festa quase no final, Ernando, com algumas cervejas na cabeça, envolveu-se numa conversa sobre mulheres e futebol. Um grupo de homens, é claro, faceiros e barulhentos, desses que no meio do casório já estão com o nó da gravata desfeito e que se põem de dançarinos no meio do salão. Futebol argentino era o tema, infelizmente. Em meio ao entusiasmo do momento, Ernando decidiu fazer uma gracinha:
“O futebol do D’alessandro e mulher argentina têm duas semelhanças: fazem muito teatro e não jogam nada.”
Todos riram porque, àquela altura, ririam de qualquer coisa. Menos a Aldacira, que se encontrava às costas do Ernando e não gostou da brincadeira. Foi só o tempo de os outros perceberem a presença da noiva assim tão próxima e Ernando levou um bofetão que o deixou ouvindo o sino da Matriz durante uma semana. A ponte móvel que usava na arcada superior dentária, dizem, foi encontrada em Oberá.
Não é preciso dizer que a festa foi encerrada antes do previsto. Todos apostavam que o casamento estava acabado no nascedouro.
Que nada! Já se passaram dez anos e os dois continuam juntinhos, comemorando aniversários de bodas a cada mês de maio.
Por medida de cautela, e procurando evitar quaisquer danos, Ernando tomou uma atitude sensata. Não fala mais em mulher, a não ser que esteja numa pescaria, sentado num barco no meio do Uruguai. E sobre futebol, só se for o varzeano de Santa Rosa. Ele jura que nem sabe quem é esse tal de Maradona...

 

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