sábado, 12 de maio de 2018 09:21

Coincidências

Você reparou que neste domingo, 13, comemora-se oDia das Mães e também o dia da Abolição da Escravatura? Uma simples e interessante coincidência do calendário, que serve para algumas reflexões.

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Apenas por curiosidade, veja alguns exemplos de mulheres que, além de mães, foram cientistas notáveis, com enormes contribuições ao desenvolvimento científico da humanidade. Num mundo dominado pelos homens, elas são pouco lembradas, é verdade. Provavelmente você nunca ouviu falar delas. Sinal de machismo que não retira seus méritos.

Chu Ming Silveira, uma chinesa naturalizada brasileira, inventou o famoso orelhão, que enfeitou as ruas do Brasil durante décadas.

Hedy Lamarr foi atriz de cinema em Hollywood, mas também inventou a tecnologia sem fio. Seus conceitos de controle à distância, durante a guerra, serviram de base para coisas hoje comuns, como o controle remoto, o wi-fi e o bluetooth.

Grace Hopper, uma negra norte-americana, inventou o compilador de linguagem de máquina que deu origem ao Cobol, primeira linguagem de programação voltada ao uso comercial.

Florence Parpart inventou a geladeira, sem a qual a vida hoje é impossível.

Shirley Jackson, outra negra, inventou (nada menos que...) o fax portátil, os tons de telefones, células solares, cabos de fibra óptica, e toda a tecnologia por trás do identificador de chamadas e da chamada em espera.

Essas mulheres, e muitas outras que poderíamos mencionar, mostraram que, na verdade, não há diferenças. O que há, de fato, é o ocultamento dos feitos femininos, e a supervalorização dos feitos masculinos. Já vai longe o tempo em que ser mãe era sinônimo de "dona-de-casa". Por mais espantoso que pareça, hoje as mulheres conseguem cumprir esses dois papéis, e ainda exercer atividades profissionais com altíssima competência.

Cá entre nós, machões de plantão, nenhum homem conseguiria fazer isso.

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Você deve ter reparado que, ao citar algumas mulheres, fiz referência a duas "negras". À primeira vista, parece racismo, pois as outras mulheres não foram chamadas de "brancas" ou algo parecido. Confesso que foi proposital.

Justamente porque estamos falando do dia das mães e do dia da Abolição da Escravatura (acontecido em 1888). De lá para cá o mundo mudou radicalmente, mas o sentimento escravocrata ainda é visível na sociedade brasileira. A abolição, que significou um terrível abandono, também reproduziu o sentimento de "inferioridade", fechando à massa humana de cor as portas das empresas, das universidades e até das comunidades religiosas.

Nossa classe média, pródiga em propagar seus predicados éticos e morais, acalenta o sonho do eterno "quarto da empregada", lá nos fundos da mansão. Na mídia, o ideal de beleza e êxito profissional nunca tem a cor escura. São apenas dois exemplos de que ainda precisamos avançar muito para superar o racismo que, no Brasil, tem uma especial predileção por atingir mulheres.

Produz marcas na cultura e no íntimo das pessoas. Às vezes, são marcas que jamais são apagadas. Especialmente entre nós, que sempre negamos o racismo, jogamos para debaixo do tapete, como se ele não existisse. Por isso, as lutas das mulheres, ao lado do combate ao racismo, são bandeiras modernas e valiosas. Dignas bandeiras desta metade do século 21.

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