sábado, 8 de julho de 2017 10:06

Falando de...

Conversa sobre suicídio é sempre incômoda. As pessoas evitam, escondem, silenciam. É quase um tabu para a nossa cultura. Mas é preciso falar, verbalizar, porque o estigma somente faz com que o preconceito persista.
Dias atrás, o suicídio de uma jovem aqui na região deixou muita gente chocada. Jovem e bela. O que aconteceu? Por quê? É uma realidade dolorosa que não aparece, e os familiares envolvidos tendem a ocultar.
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No ranking nacional de suicídios, o Rio Grande está no topo da lista. E entre as cidades com maior incidência no país, temos duas muito próximas: Três de Maio e Três Passos. Outro dado alarmante do Ministério da Saúde é que vem aumentando o número de suicídios na faixa etária de 15 a 29 anos. Já é a principal causa de morte entre meninas de 14 a 19 anos. No Brasil, o número de casos subiu 34% entre 2002 e 2012. As estatísticas parecem números frios lançados em folhas de papel, mas podem e devem nos levar a reflexões mais profundas.
Alguns estudos relacionam o suicídio com o uso indiscriminado de agrotóxicos (organofosforados), o que explicaria o alto índice de depressão e suicídio na região de Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, onde a cultura do fumo exige quantidades absurdas de veneno. Também o manganês, presente nos fungicidas, vem sendo apontado como causador da depressão. Ninguém mais duvida que os agrotóxicos abalam o sistema nervoso central das pessoas.
É uma explicação dos efeitos dos produtos químicos no cérebro humano. Eu não duvido. Mas as pesquisas a respeito continuam...
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Outra linha de pensamento está relacionada com a formação religiosa numa região de imigrantes. A religiosidade rígida entra em choque com o mundo disperso e líquido da vida contemporânea. O conflito é inevitável, um conflito de valores, de crenças. Muita gente não suporta essas contradições.
Também não é de duvidar. A religião tem tudo a ver com a nossa formação cultural. E num mundo de conflitos e competição, isso é terrível.
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Mas o que acontece com os jovens de outras regiões, que estão distantes dos agrotóxicos e do rigor religioso? A realidade parece ser outra. Educadores, psicólogos e sociólogos buscam explicações.
O incentivo à competição, ao êxito profissional rápido, muitas vezes não é bom. Os adolescentes são cobrados de forma incisiva, e cada vez mais cedo. Alguns são ainda crianças, mas seus compromissos são enormes. Pulam etapas da vida, do aprendizado, e até da convivência sadia com pessoas de sua idade. São adultos prematuros, psicologicamente instáveis e inseguros.
Por outro lado, a sociedade nos impõe a ideia de que não precisamos, hoje, de uma vida para ser vivida. Temos uma vida a ser mostrada, exibida, invejada. Parece não existir mais a vida individual, autêntica. Somos todos atores. Colocamos uma máscara ao sair de casa. Queremos parecer bem sucedidos e felizes. Mas, na verdade, a vida não é assim. Desprotegidos e vulneráveis, é o que somos. E o afeto que pode nos dar segurança tornou-se mercadoria rara. Para muitos, é um abismo insuportável. É hora de olharmos com atenção para nós mesmos e para nossos filhos.

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Comentários
  • Denize domingo, 9 de julho de 2017 14:52

    Prezado Gilberto,
    Falaste muito bem : parece que não precisamos de uma vida para ser vivida. Que vida estamos vivendo então ???? Aquela que nos mostram na TV ? Aquela que nos empurram goela abaixo?
    Será que só existe a vida baseada na violência e competitividade diária?
    Não sabemos educar nossos filhos, porque simplesmente repetimos padrões que alguém nos passou, não me pergunte de onde...
    Até o dia em que poderemos parar, identificar e transformar o que nos faz tão mal. Mas temos que parar e pensar. O dia corrido não deixa...
    Ou é a gente que não quer ?
    Pensar e mudar dá muito mais trabalho...
    Grata pelas tuas palavras!