sexta-feira, 1 de dezembro de 2017 14:47

O cheque do leite

Essa expressão - "o cheque do leite" - é bem típica da nossa região.

São milhares os pequenos agricultores (em boa parte do Estado) que, para complementar o orçamento doméstico, contam com o cheque do leite pago pela indústria periodicamente. Enquanto esperam pela colheita de outras plantas, como soja, milho e mandioca, o cheque do leite garante a cobertura das despesas mensais.

É uma renda habitual, e não é incomum ouvir o agricultor dizer, lá no mercadinho da vila onde compra na caderneta: "Vou pagar com o cheque do leite".

Pois essa realidade mudou. Nas últimas semanas conversei com diversas pessoas que simplesmente abandonaram a produção de leite. Não sabem o que fazer com os equipamentos instalados em suas propriedades, e também não têm ideia se um dia voltarão a comprar vacas leiteiras.

Segundo algumas fontes ligadas ao setor leiteiro, mais de 20.000 produtores se retiraram da atividade entre outubro/2016 e outubro/2017.

A queda no valor pago ao produtor é a principal razão. O mercado monopolizado é outra. Os produtores com alto grau de investimento e especialização continuam produzindo, mas os pequenos, com produção mais rudimentar, já não conseguem esperar o cheque do leite. Há outras razões em debate, como a importação do leite uruguaio, a redução da compra de leite pelo governo federal, o aumento do consumo do leite vegetal, entre outras.

Não há solução mágica à vista, mas a mobilização dos produtores pode, sim, gerar soluções que envolvam todo o sistema. Ou seja, é algo complexo. O que não pode acontecer é fazer de conta que o problema não existe.

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Falando em atividades do campo, é interessante observar uma importante mudança que vem acontecendo na região noroeste, especialmente nas áreas fronteiriças. A mudança na paisagem é visível em municípios próximos como Alecrim, Novo Machado, Porto Vera Cruz e em outros cuja topografia é muito acidentada. Por lá, estão desaparecendo as lavouras extensivas como soja e trigo. Aliás, em algumas áreas lavouras já não existem.

O que vemos são áreas se transformando em mato, para futura extração de madeira, e também extensos espaços destinados à criação de gado para abate. As paisagens são verdes o ano todo.

São regiões onde, em décadas passadas, os homens do campo se lançaram desesperadamente na monocultura (soja e trigo, especialmente). Mas a monocultura foi perversa. A renda caiu abruptamente. Os jovens desistiram. O campo se esvaziou ou restou a população envelhecida. Os que ainda estão lá já não têm forças físicas para enfrentar o trabalho na lavoura. Os municípios perderam grande parte de sua população. Nem as escolas públicas conseguem manter suas estruturas.

Para os que estudam os fenômenos econômicos, certamente é uma lição histórica. A monocultura extensiva e predatória (que hoje chamamos simplesmente de "agro") é cruel e cospe os seres humanos do seu interior. Força a especialização, a concentração de renda em grandes grupos, e pouco interesse tem pelas populações. É incompatível com a pequena produção familiar.

Mas os agricultores resistem buscando alternativas, mostrando que a criatividade pode gerar outras fontes de renda, fora do circuito agro-exportador. Talvez seja uma solução sábia. Talvez por aí voltemos a encontrar a segurança alimentar, a comida com qualidade. Talvez no futuro retomemos o caminho da agropecuária capaz de manter o homem no campo. Num campo mais verde, diga-se de passagem.

 

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