sexta-feira, 17 de março de 2017 16:10

Os jovens, as drogas e a lenha

Inauguraram a extensão da Avenida América, e o que é que ouço? Pessoas reclamando que ao longo do trecho mais deserto os jovens se reúnem para beber, ouvir música, fumar maconha e sei lá o que mais. Isso no entendimento dos reclamantes, claro. Essa gente não tem mais do que reclamar?

Pra começo de conversa, jovens se reúnem porque precisam disso. Uma reunião de jovens é algo maravilhoso, seja onde for, na rua, num clube, numa praça. Faz parte do aprendizado da aceitação e da identificação. Os estilos extravagantes, por exemplo, são sintomas desse processo, e não de criminalidade. Pois os jovens se reúnem para conversar, dançar, ouvir música, falar dos seus estudos e de futebol, beber chimarrão ou tererê, namorar, comentar aquele livro ou aquele filme... Coisas da sua idade. Sempre foi assim e sempre será. Mas há quem veja nisso uma assembleia de devassos, o que é um grande equívoco e um grande preconceito.

É claro que também há jovens que se reúnem para beber, fumar maconha, cheirar cocaína, traficar drogas e planejar delitos. É um fato. Mas é um fato menor, a ser investigado. O erro está em generalizar. Aliás, não existem adultos “de bem” que, na verdade, são perniciosos, pedófilos, psicopatas, fascistas e assim por diante? Pois é. Assim é viver numa sociedade complexa.

Querem o quê? Que os jovens se reúnam na sala de casa, com os pais, forçados a ouvir o Jornal Nacional ou o programa do Faustão? Cá entre nós, isto sim é consumir drogas...

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A droga é um problema, certo? Ela está nos presídios, nas praças, nas casas noturnas... e também dentro dos lares! Imaginar que todo e qualquer encontro de jovens envolve o consumo de drogas é procurar cabelo em ovo. E também colocar sob suspeita o comportamento deles.

É caretice e preconceito de muitos adultos rotular os jovens como sendo potencialmente transgressores. Qualquer preconceito é sempre autoritário. Busca diminuir a liberdade de ação e de escolha do outro. É uma tentativa de moldar a vida do outro aos valores que julgam ser eternos e verdadeiros. É resultado da falta de cultura. O preconceituoso se acha no direito de julgar e decidir como o outro deve viver. Infelizmente, o jovem é um dos alvos preferidos dos preconceituosos. E também é alvo de muita violência, como mostram as estatísticas brasileiras.

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Num certo mês de maio, na região serrana do Rio Grande, um gringo (gringo é pão-duro, certo?) telefonou para a polícia.

— Aqui é o Genaro! Queria fazer uma queixa contra meu vizinho Lorenzo... Ele esconde droga dentro dos troncos de madeira para a lareira...

Pois no dia seguinte o Lorenzo recebeu a visita de um grupo de policiais, munidos de machados e motosserras. Abriram todas as toras que havia no galpão e não encontraram droga nenhuma. Foram embora desiludidos e pedindo desculpas.

Logo em seguida toca o telefone do Lorenzo:

— Alô, Lorenzo! Aqui é o Genaro. A polícia apareceu por aí?

— Sim.

— E serraram a lenha toda?

— Sim.

E o Genaro muito contente arremata:

— Então, feliz aniversário, amigo! Este foi o meu presente deste ano!...

 

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