sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018 09:19

Quem ama Pabllo Vittar?

Um amigo lamenta o “nível” musical brasileiro neste início de 2018, dizendo que os sucessos do verão, como Anitta, Pabllo Vittar e Maiara & Maraísa são porcarias insuportáveis. Diz também que no passado a qualidade dos nossos artistas era outra.

Concordo apenas em parte.

Ouvir músicas como “50 reais” é de intoxicar os ouvidos e a sensibilidade. Ninguém duvida disso. Sei de gente que ouve esse tipo de música o dia todo. Algum problema eles têm, mas não imagino o que seja. Pabllo Vittar, Jojo Toddynho, Simone & Simaria e Gustavo Lima são sucessos atualmente, acredite.

Mas isso não significa que, no passado, o “nível” era melhor ou que a vida cultural era mais significativa.

Acontece que vivemos numa sociedade de consumo. Músicas e artistas, portanto, são considerados mercadorias. O objetivo é vender o máximo, no menor tempo. Depois, são descartados. Vão para o lixo. São os artistas da temporada.

Por isso fica essa estranha sensação. Lembramos de boas músicas do passado e chegamos a dizer que no “nosso tempo” as coisas eram melhores. Acontece que lembramos do que ficou, do que permaneceu, do que tinha reais qualidades, e esquecemos a baixa qualidade que também havia. Isso sempre aconteceu. O que é bom permanece. O que é porcaria vai para o lixo. É uma espécie de decantação que às vezes não percebemos.

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Você lembra, por exemplo, de artistas que tiveram sucesso estrondoso há pouco tempo, como Fat Family, banda KLB, Pepê e Nenem, Kelly Key, Felipe Dylon, Jean & Marcos e João Lucas & Marcelo?

Pois é. Fabricado o sucesso, e alcançado o faturamento desejado, eles foram literalmente descartados. Isso se chama “indústria cultural”. O próprio nome já diz. É uma indústria, e precisa renovar rapidamente seus “produtos” para vender bastante.

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Quando se fala de produção cultural, temos que entender um detalhe importante. As músicas dos artistas que mencionei acima não exigem qualquer capacidade de interpretação. São muito simples. Na verdade, não têm nada a nos dizer. Não precisamos de capacidade de análise ou interpretação. Por isso seu sucesso é instantâneo e sob encomenda.

Isso acontece com frequência. Não há pecado algum em gostar de Pabllo Vittar ou Anitta. O pecado está em achar que isso tem alguma importância cultural para a sociedade.

Uma música, um livro, um filme ou uma peça de teatro que nos pedem um nível de conhecimento e análise mais complexo geralmente não fazem sucesso imediato. Leva um tempo para percebermos sua importância e sua complexidade.

É por isso que lemos um livro escrito no século 18, ouvimos uma música da década de 50 e lembramos de um filme visto em 1985. Significa que eles têm algo a nos dizer. São desafiadores. Nos provocam. São permanentes. Conduzem-nos a pensar, a interpretar.

Sempre foi assim, repito.

É mais confortável ficar jogado no sofá e receber informações fáceis. Isso chama-se indústria cultural, e nela você é apenas um consumidor.

Porém, quando uma obra de arte nos desafia para uma interpretação complexa, aí sim estamos vivendo uma experiência cultural significativa. É outra coisa...

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