segunda-feira, 23 de abril de 2018 07:54

Seu Amadeu e a tecnologia

No último natal Seu Amadeu recebeu um incrível presente dos netos: um celular de última geração. O motivo é que todos pretendiam, dali em diante, conversar com ele a qualquer momento, sem precisar viajar 400 quilômetros até Cacequi. Garantiram que a comunicação seria instantânea. Para quem já estava completando 88 anos foi um pouco difícil entender que aquele objeto era mais rápido que uma carta postada nos Correios da cidade.

Mas aí começaram os problemas.

De início, seu Amadeu teve um problema com uma atendente da farmácia, onde foi colocar créditos no novo aparelho. A moça pediu o número do celular e o Seu Amadeu entendeu que ela estava interessada na pessoa dele. Deu a maior confusão quando ele também pediu o número dela para registrar no aparelho, prometendo ligar ao final da tarde. Felizmente tudo ficou esclarecido, mas com os amigos Seu Amadeu não dá o braço a torcer: "Aquela pinguancha não me engana...".

Depois Seu Amadeu aprendeu a filmar e a assistir vídeos no celular. No churrasco, no bar, na reunião de família, lá estava ele filmando. Quando diziam que o melhor era filmar "deitado" (como diz a RBS-TV), Seu Amadeu resmungava: "Nem a finada Isaura me mandava deitar! Ademais, vou tirar foto deitado e sujar a bombacha? Nem pensar!"

E quando descobriu a tal "selfie"? Ah, foi a glória! Seu Amadeu entupiu os celulares dos netos com fotos nas quais posava com o cavalo, as galinhas, o cachaço lá no chiqueirão, os gansos no açude e até com um avestruz que ele domesticara anos atrás. Os selfies do Seu Amadeu fizeram grande sucesso entre os netos e seus amigos.

O maior número de fotos, não podia ser diferente, era com o cachorro Sansão, um velho labrador que era seu amigo desde muitos anos, com quem conversava ao longo do dia. Para os amigos, explicava: "Ele é o verdadeiro amigo. Não fica olhando o celular a toda hora". E à tardinha, na hora do mate, Seu Amadeu comentava com Sansão: "Com licença, acho que recebi uma mensagem..."

Mesmo apaixonado pelo celular, Seu Amadeu reclamava ao ver crianças ainda em tenra idade brincando com tais aparelhos. Não brincam entre eles. Vivem de cabeça baixa. Sequer incomodam os vizinhos. "Nessa idade, eu só tinha catapora...", comentava com alguma saudade da infância.

Teve também uma altercação com o rapaz da assistência técnica, pois Seu Amadeu exigia que ele retirasse do aparelho as tais "fake news". Para ele, era uma espécie de vírus capaz de explodir o seu celular.

Outra confusão aconteceu quando Seu Amadeu decidiu trocar a operadora de telefonia. Por causa do serviço que andava muito lento, tinha chegado a hora de mudar. A atendente disse que, por causa de uma tal "cláusula de fidelidade", ele teria de pagar a multa para, só depois, trocar o serviço. Seu Amadeu pulava de brabo dentro das alparcatas: "Fidelidade, só com a Isaura! Mas como a patroa já é falecida, eu não tenho obrigação de fidelidade nenhuma! Onde já se viu falar em multa por fidelidade! Fidelidade tem que ganhar prêmio, e não multa!".

Ninguém sabe explicar exatamente o que aconteceu naquela discussão, mas o fato é que ele trocou de operadora sem pagar a multa.

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E quando falava sobre a vida, aquela sua vida de idoso e solitário, Seu Amadeu comentava:

"Meu único medo é que os netos me levem para um asilo sem wi-fi".

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