HomeNoroeste Entrevista segunda-feira, 7 de agosto de 2017 07:52

Cotrimaio está se reerguendo

Silceu Dalberto, 51 anos, foi eleito presidente da Cotrimaio e aceitou o desafio de recuperar uma das maiores cooperativas de produção do Rio Grande do Sul.

Em 2013 a Cooperativa Agropecuária Alto Uruguai Ltda, consagrada pela sigla Cotrimaio, entrou em Processo de Liquidação Extrajudicial com continuidade de negócios, consequência do acúmulo de um grande endividamento. A opção de continuar, ao invés de liquidar patrimônio e acabar com uma história hoje de quase de 50 anos (a cooperativa foi fundada em 02 de fevereiro de 1968 - comemora seu cinquentenário em fevereiro do ano que vem), foi tomada pelos agricultores associados.

Silceu Dalberto, 51 anos, foi eleito presidente da Cotrimaio e aceitou o desafio de recuperar uma das maiores cooperativas de produção do Rio Grande do Sul. Os números atuais mostram que o risco assumido pelos associados, na época os maiores credores da cooperativa, valeu a pena. A Cotrimaio opera atualmente em 16 municípios e mantém uma estrutura de nove supermercados, 16 lojas agropecuárias, quatro postos de combustíveis, 22 pontos de recebimentos de grãos, gera 480 empregos diretos e cerca de 1,4 mil indiretos.

Nesta entrevista, o presidente Silceu Dalberto faz uma avaliação do presente, faz referências ao passado e, principalmente, lança perspectivas que, na sua opinião, são altamente positivas à Cotrimaio.

NOROESTE - Qual foi a primeira medida tomada por tua direção, diante de um enorme desafio?

SILCEU - Colocamos uma régua em cima do passado e criamos o conceito do surgimento de uma nova cooperativa, olhando para o futuro. Uma nova Cotrimaio com um novo modelo, nova gestão e novo formato de trabalho que foi implementado.

NOROESTE - Que estágio vive a Cotrimaio num presente cheio de dúvidas para quase todos os setores produtivos e de comprovada recessão financeira?

SILCEU - Concordo que os dias atuais são difíceis, mas precisamos superá-los. Voltando a 2013, quando assumimos a presidência da Cotrimaio elaboramos um planejamento com ações traçadas até 2030, avaliando os resultados de cada ano e a necessidade de uma eventual alteração de rumo. Estabelecemos na época um crescimento de 20% ao ano, mesmo caída no fundo do poço com seu recebimento e faturamento. Até aqui conseguimos superar as expectativas de crescimento, tanto que estamos um ano à frente das perspectivas lançadas.

NOROESTE - Medidas práticas tomadas para alcançar tal patamar?

SILCEU - Na primeira semana no cargo de presidente visitei todas as cooperativas da região, entre elas a Coopermil e Cotrirosa, conversando com os colegas dirigentes e ouvindo o que eles estavam fazendo. A partir daí fiz muitos cursos de cooperativismo. Aprendi muito e cheguei à conclusão que só uma ação tiraria a Cotrimaio daquela situação e a faria crescer: a confiança.

NOROESTE - E a confiança foi reconquistada?

SILCEU - Sim, foi restabelecida especialmente com o quadro de associados. Montamos um plano de trabalho voltado justamente para o sócio, porque em 2013 nossa cooperativa devia mais era para o associado. Quanto mais fiel ele era, mais ele reteve dívidas junto à cooperativa. Concordamos em assembleia que quem operasse receberia seus débitos. Hoje, o associado que se queixar é porque não está participando.

NOROESTE - O pagamento da dívida avançou?

SILCEU - Tenho a satisfação de anunciar que a Cotrimaio já pagou 70% do passivo que acumulou com seus associados. Nossa expectativa é que em dois anos, três anos no máximo, tenhamos quitado com todos. Aí está a retomada da confiança.

NOROESTE - E quadro de colaboradores?

SILCEU - Aí se concentra a segunda retomada de confiança. Engajamos todos eles no processo e aplicamos vários cursos. Os que trabalham atualmente conosco continuam recebendo treinamentos, o que significa perspectiva de crescimento pessoal e profissional. Através das pessoas é que chegamos até nossos associados e fornecedores, pedindo crédito mais uma vez porque todos haviam fechado as portas.

NOROESTE - Que aceitação teve a proposta da Cotrimaio junto aos fornecedores?

SILCEU - Admito ter sido um início muito duro, mas conseguimos fazer negócios e evoluir. Tanto é que em 2016 a Cotrimaio superou R$ 400 milhões de faturamento.

NOROESTE - Sair da liquidação extrajudicial já é um ponto visto no horizonte?

SILCEU - Não está longe, ainda temos poucos negócios para efetuarmos renegociações. Saindo dessa situação, sem dúvida a Cotrimaio irá dobrar seu faturamento. Estimamos que dentro dos próximos dois anos voltaremos a operar normalmente, saindo da liquidação.

NOROESTE - Voltando ao estopim da crise, quantos associados a Cotrimaio perdeu e de lá para cá quantos retornaram?

SILCEU - Mesmo que a continuidade da cooperativa tenha sido uma decisão dos associados, 50% deixaram de operar a partir de 2013. Da metade que saiu cerca de 20% retornaram. Dos 12 mil associados que a Cotrimaio tinha nos bons tempos, hoje contamos com mais de oito mil operando, alguns não totalmente.

NOROESTE - Dos que saíram do quadro, restaram ações na Justiça para recuperar o débito?

SILCEU - Não. Teve um caso, mas a Justiça rejeitou pela situação que a cooperativa convive. Até porque a continuidade da cooperativa, mesmo em liquidação extrajudicial, foi do quadro social que permaneceu. Cabe aos demais sócios acatar a decisão.

NOROESTE - Existem questões especiais envolvendo associados renunciantes?

SILCEU - Existem casos de produtores que ainda possuem produtos depositados na Cotrimaio, mas que não têm mais lavouras. É gente que arrendou ou vendeu terras e hoje enfrenta dificuldades de receber o débito, porque não está operando com a cooperativa. Para esses casos específicos nós estamos elaborando um plano de pagamento.

NOROESTE - Qual é a vantagem de ser sócio da Cotrimaio?

SILCEU - São várias e todas previstas no novo planejamento. O produtor que abastece num posto de combustível, recebe um percentual de desconto. Isso vale para os supermercados e para as lojas de insumos. Além de receber mais por cada saca de grão comercializado com a cooperativa.

NOROESTE - A Cotrimaio, dentro do planejamento tão citado, teve que renunciar algum nicho de negócio?

SILCEU - Algumas coisas mudaram, porque tinham que mudar. Uma das primeiras medidas tomadas, por exemplo, foi a de entregar de volta as filiais da região de Cruz Alta. A Cotrimaio entrou naquela região no ano 2.000, absorvendo uma cooperativa que enfrentava sérios problemas financeiros, a famosa Cotricruz, que era maior que a própria Cotrimaio. Então, nossa cooperativa deu passo muito grande olhando para um futuro que acabou não correspondendo. Desistiu de cinco unidades e ficou com duas, a de Pejuçara e Boa Vista do Cadeado, ambas até hoje viáveis no aspecto financeiro.

NOROESTE - Outro recuo ou ação de otimização?

SILCEU - Sim, mexemos no cenário de supermercados. Tínhamos 13 supermercados, dos quais sobraram nove. Passamos a chave nos que não estavam dando resultados e concentramos atenção nas casas que operavam no azul.

NOROESTE - E o quadro de colaboradores?

SILCEU - Primeiro deixe citar o quadro de comando. Da assembleia que deliberou a continuidade dos negócios, ficou somente a minha pessoa na equipe de frente. Decidi me cercar de gente especializada, como é o caso do Sérgio Oliveira, com grande experiência no ramo cooperativista e que sabe fazer negócios. Nossa estrutura está calcada em dois diretores, um de negócios e outro administrativo, quatro gerentes de áreas, supervisores e coordenadores.

NOROESTE - Demitiram pessoal em meio à crise?

SILCEU - Sim. Na época a Cotrimaio tinha mais de 800 funcionários e permaneceram apenas 411, ou seja, quase dobrou o trabalho de cada um. Não perdemos em competitividade, porque como acentuamos antes, todos foram treinados e capacitados.

NOROESTE - Na área de grãos, que deu origem às cooperativas de produção, mesmo com um quadro social de 70% do original, quais são os resultados?

SILCEU - Bem, 2014 foi o primeiro ano pós-liquidação e o de menor volume de grãos recebidos. Em dois anos a Cotrimaio dobrou o recebimento e o crescimento se deve ao retorno do associado. Por isso que acreditamos no crescimento e retomada em definitiva, porque o sócio continua voltando para sua casa. Tem aí um aspecto fundamental: apesar do grave quadro de crise, nenhuma operação da Cotrimaio deixou de existir. Algumas retraídas, outras mais focadas, mas nenhuma parou. Nós não começamos do zero. O presente mostra que estávamos certos na época. Reduzir operações ou terceirizá-las torna mais difícil retornar.

NOROESTE - Há restrições de crédito junto aos fornecedores?

SILCEU - Não temos restrição com nenhum fornecedor. Todos foram chamados em separado e firmamos renegociação com cada um deles, garantindo os respectivos débitos. Hoje, todos são nossos fornecedores. Na área de grãos não temos problema com nenhum comprador do Rio Grande do Sul. Então, nosso negócio está assentado, está firme. Veja que num ranking de 27 cooperativas do Estado, a média de crescimento no ano passado foi de 9%. A Cotrimaio cresceu 35% em 2016, reconquistando a grandeza de seu passado.

NOROESTE - Para encerrar, cite mais números atualizados da Cotrimaio:

SILCEU - Temos 12,5 mil matrículas de associados, dos quais mais de oito mil em operação direta. Já chegamos a 457 funcionários distribuídos em 16 unidades que alcançam mais de 30 municípios com negócios.

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