HomeNoroeste Entrevista sábado, 7 de outubro de 2017 10:02

O sindicalismo rural

Conheça um pouco de Itálico Cielo, presidente do Sindicato de Trbalhadores Rurais de Tuparendi e Porto Mauá.

Itálico Cielo, 71, agricultor, nascido em São José do Mauá, interior de Porto Mauá é casado com Tereza Oszechoski e tem três filhos: Ivan Rafael, Tiago Roberto e Nadia Fernanda. Sua história de infância é humilde. Filho de agricultores, estudou até a 5ª série, pois precisava trabalhar na roça. Itálico conta que quando jovem dividia seu tempo entre o serviço no campo e movimentos comunitários como o grupo de jovens, onde já assumia liderança notável.

Ele conta que ganhou seu primeiro calçado quando fez a Primeira Comunhão. Itálico perdeu o pai quando tinha 12 anos e teve de assumir a família, pois tinha nove irmãos. Foi quando, através desta responsabilidade prematura, que ganhou a experiência necessária para a vida. O tempo passou. Depois de muito esforço com a lida na terra, onde colheu e colhe o sustento da família, novos passos foram dados. Participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tuparendi e Porto Mauá - STRTP que hoje comemora 50 anos, entidade que presidiu por diversos mandatos.

Foi eleito prefeito de Tuparendi em 2008, onde ficou por nove meses à frente daquele Executivo. Hoje divide seu tempo entre a família, atenção aos associados e a presidência da Regional II da Terceira Idade que agrega 12 clubes.

Ao NOROESTE conta suas vivências e a importância do movimento sindical para a vida dos agricultores.

NOROESTE: Como você chegou ao movimento sindical?

ITÁLICO: Sempre participei desde o começo, fui liderança na comunidade. Em 1986 concorri e foi eleito presidente. Desde jovem caminhei junto aos congressos e debates sobre a importância de ter um movimento que defendesse os interesses dos agricultores. Minha vida é dentro do sindicato.

NOROESTE: Como você avalia a importância da criação do sindicato?

ITÁLICO: Foram muitos avanços. O exemplo foi a anistia de 1987, depois do plano cruzado, trabalhamos com uma grande mobilização, incluindo Tuparendi nos debates, e conseguimos incluir na Constituição Federal a anistia para os agricultores. Foi um dos grandes marcos. Outro ponto fundamental do movimento sindical do país, entre eles a aposentadoria dos agricultores, que para os nossos dois municípios representa muito na renda. Reconhecimento da mulher trabalhadora rural, pensão para homemens e para mulheres, auxílio doença, auxílio para acidente de trabalho, salário maternidade, universalização do atendimento a saúde, PRONAF, troca-troca de sementes, habitação rural, crédito para compra de terras, seguro agrícola, Pro-agroMais e reconhecimento da categoria de agricultor familiar.

NOROESTE: Como se deu a criação do STRTP?

ITÁLICO: O começo foi ruim, estávamos desamparados, pois não tinha ninguém e nenhum movimento que brigasse por eles. devido a isso, o Frei Batista, que vinha de Porto Alegre, iniciou o trabalho de formação de muitos sindicatos da região, oportunizando as comunidades. Naquele tempo ele celebrava as missas e depois dela ele fazia reuniões para tratar sobre o tema. Lembro que o sindicato foi iniciado com 493 associados, um grande número para a época. A grande maioria analfabeto, e grande parte foi até o sindicato a cavalo. Lembro que no dia da formação uma cooperativa cedeu um caminhão para levar os agricultores, outros foram à cavalo, trator, enfim...

Recordo que o Frei Batista usou a palavra apresentado o estatuto e se aprovou a formação. O primeiro presidente foi David Zalamena, seguido de Bolivar Ferro Busanello, na sequência Aldir Berbnardi, chegando ao meu nome em 86. Fiquei fora por dois mandatos e retornei a assumir o cargo. Também atuei na Contag como secretário de política agrícola.

Relembro que a construção foi muito difícil, mas foi feito.

NOROESTE: O que foi feito para o Sindicato crescer?

ITÁLICO: Olha, a pedra principal estava lançada, o Frei puxou a frente e um grupo expressivo concordou com a ideia. Buscamos de casa em casa o associado, tivemos algumas resistências para participar, mas o grupo foi persistente. A falta de estrutura, problemas econômicos impediriam inicialmente que as coisas acontecessem, mas o grupo foi perseverante e hoje temos mais de 2.200 sócios em dia.

NOROESTE: Como foi a relação da política na sua vida?

ITÁLICO: Na verdade sempre me envolvi na política sendo a favor da democracia, atuava no MDB na época. Militei dentro do PMDB, migrou para o PSDB em 1987. Eu nunca desconfiei que eu pudesse ser candidato, mas sempre tinha uma resistência com os convites. Minha família sempre se posicionou contra, mas em 2008 concorri a prefeito, quando fui eleito. Brigamos contra todos e contra tudo, vencemos nas urnas com o aval da comunidade. Ficamos a frente do governo por nove meses e fui afastado pela Justiça, por uma denúncia que ainda considero infundada. Não quero comentar o assunto, mas foi um episódio triste da minha vida. Por um lado foi bom que me afastaram, pois não confio hoje nas pessoas que me traíram.

NOROESTE: Como você avalia os nove meses de governo?

ITÁLICO: Na verdade estávamos iniciando, mas mesmo assim conseguimos deixar boas marcas. Compramos a área do Parque de Exposições, iniciamos o projeto de construção de um ginásio de esportes. Outro projeto foi da construção de uma escola infantil, além de celebrar a importância do trabalho dos emancipacionistas. Acredito que fizemos muito em tão pouco tempo.

NOROESTE: Depois da política como foi sua volta para o sindicato?

ITÁLICO: Nunca deixei o sindicato. Voltei à presidência em 2012, quando continuamos com as atividades. Trabalhamos intensamente com a renovação do sindicato, apostando ainda na construção de uma sede em Porto Mauá. Contamos com 10 colaboradores, além do projeto de habitação, chegamos a construir 200 novas habitações e 400 reformas.

NOROESTE: Qual a atuação do sindicato?

ITÁLICO: Nosso sindicato trabalha em várias linhas. Somos referência em várias áreas, temos técnicos agrícolas e que trabalham em projetos e acompanhamento das lavouras análise de solo. No balcão fizemos mais de 80 serviços de escritórios, declaração, contratos, encaminhamento de benefícios, recursos para projetos rurais, enfim, atendemos a demanda do agricultor, nosso associado. Cerca de 90 % dos serviços de escritório são feitos gratuitamente. Trabalhamos os preços dos produtos, com intuito de agregar valor, que significa apostar na agroindústria, com a ideia de comercializar diretamente para o consumidor. O movimento sindical é muito do momento, o atual é de reflexão mais intensa com as mudanças de governo e falta de recursos. Precisamos nos recolher e fazer uma avaliação mais profunda, com propostas de políticas que viabilizam a produção familiar. Um problema que enfrentamos é o êxodo rural dos jovens, e precisamos de recursos para aquisição de térreas para manter jovens na roça, além de políticas públicas para fomentar a produção agrícola e apoiar diretamente os agricultores.

NOROESTE: Como você vê a futura instalação da Doceoli em Tuparendi?

ITÁLICO: Vemos muito bem o projeto e apoiamos. Para Tuparendi será um passo para o desenvolvimento. Recebemos o diretor da Doceoli no Sindicato, quando ele buscou apoio. Ele veio e conversamos sobre o projeto e garantimos o apoio assegurando a confirmação do investimento. Bom, inicialmente vamos deixar ele se instalar e trabalhar, juntos, buscaremos a ampliação da produção leiteira. Precisamos que a indústria tenha um olhar mais humanizado para os agricultores, pagando um bom preço.

NOROESTE: O que mais trava a produção?

ITÁLICO: Hoje é mais complicado conseguir licença ambiental e a escassez dos financiamento inibe o crescimento. Temos também problemas nas estradas do interior que dificulta o escoamento da produção. Um pouco foi arrumado, mas falta muito a ser feito.

Sem falar do preço dos produtos para ao produtor. O milho, por exemplo, foi pago muito baixo para o produtor, a soja está estocada aguardando um preço melhor.

Precisamos incentivar o agricultor a ter um silo para armazenar seus grão e ter uma agro indústria para vender diretamente ao consumidor. Para tudo isso precisamos linhas de financiamento.

NOROESTE Como você avalia a Reforma Trabalhista aprovada?

ITÁLICO: Olha o salariado rural fica muito desprotegido. Ela tem seu lado bom, mas deveria ter sido discutida com os trabalhadores.

NOROESTE: Pensa em voltar para a política?

ITÁLICO: Neste momento não, mas confesso que estou sendo muito assediado por algumas siglas partidárias. Sou filiado ao PDT, por enquanto, mas não descarto entrar em outro partido, ou me desfiliar e não me filiar mais.

NOROESTE: Como ações políticas interferem na dia a dia do agricultor?

ITÁLICO: Atinge em tudo. O país abriu as portas para a venda do leite para fora. O Governo está cortando muitos projetos, não tem projetos para a compra de terras para a garantia de jovens no meio rural. Na verdade a parte mais fraca está sendo prejudicada diretamente. Ações políticas resultam propriamente no produtor de alimento e de riquezas.

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