HomeNoroeste Entrevista quinta-feira, 28 de setembro de 2017 16:37

Os 28 anos de gestão cooperativista

Joel Capeletti fala da experiência de estar à frente da Coopermil.

Joel Capeletti está há 28 anos à frente da Cooperativa Mista São Luiz Ltda.

Com três formações superiores, Ciências Contábeis, Direito e Teologia, cursou também prós-graduação em Gestão de Cooperativa, e concluindo um MBA em Economia e Gestão em Agronegócio pela Fundação Getúlio Vargas. Natural de Linha Cristal Norte, Porto Lucena, onde permaneceu até o ginásio veio à Santa Rosa em busca de oportunidades, onde inicialmente cursou Ciências Contábeis. Atuou um período no meio rural, após serviu o exército e teve ainda passagem de nove anos no Sul Banco, onde foi contador. Em 1975 passou a atuar na Cooperativa Mista São Luiz Ltda. Joel, junto com sua equipe passou por diversas variações da economia, influenciadas por diversos fatores. O trabalho do dia a dia é atuar com a credibilidade do associado, buscando ampliar a estrutura e garantir a subsistência, olhando para o coope­rativismo com visão de mercado.

Hoje a cooperativa atua na área de mercado, postos de combustíveis, indústrias, além da principal que é relacionamento com o produtor.


NOROESTE: Como você começou a atuar na Coopermil?

JOEL: Fui convidado para organizar o departamento de Cré­dito e Financiamento. Na época a Cooperativa recebia repasses do Banco do Brasil, e eu coordenava. Naquele ano a cooperati­va precisa crescer, tínhamos começado em Santa Rosa e Santo Cristo, além de Cinquentenário, interior de Tuparendi.

Em 1989 teve um pequeno desentendimento na cooperativa e eu fui contratado, pois havia ocorrido um processo de auditoria. Em maio deste ano, teve a desconstituição da diretoria da época por algumas irregularidades e eu já era formado em direito, por ser advogado assumi por 30 dias, de forma pro­visória, a direção da cooperativa, enquanto ocorreria o novo processo eleitoral. Como ninguém quis concorrer, tivemos que montar uma chapa, foi quando encabecei e vencemos a eleição. Acabamos sendo reeleito e estamos no oitavo manda­to, completando 28 anos à frente da gestão.

NOROESTE: Quais os processos que mais te chamaram a atenção?

JOEL: O maior paradigma foi nós sairmos do paternalis­mo do estado e do sistema cooperativo. Migramos devido a necessidade para um sistema empresarial. Até ali o gover­no bancava inclusive armazenagem de trigo e nós tivemos que nos preparar para sair disso. As cooperativas que não tiveram a mesma preparação estão praticamente quebra­das. Isso ocorreu há muito tempo e resulta no que é hoje. Em 1994 mudamos o estatuto, mas isso levou seis anos. A nova forma de administrar independente do estado, voltou-se para um trabalho de gestão focado em resultados, com assistência técnica de solução. A cooperativa investiu para levar solução ao produtor. O pagamento do retorno contribui para a fidelização do associado, pois até então se trabalha­va com a venda a preço de custo, trabalhamos a preço de mercado e pagamos o retorno. Com a medida passamos a contar com mais associados.

NOROESTE: Qual foi o principal erro nestes anos?

JOEL: Acreditar na intercoperação foi o principal erro, além da saída da área de supermercado que aconteceu antes de eu ser presidente, mas isso nos fez ver o que precisa ser feito. Depois disso, nós começamos a pensar como um negócio e retomamos o crescimento, tendo assim hoje um sustento por si. Crescemos tanto que não temos como ampliar neste momento sem realizar obras de construção de novas unidades.

No final do ano, por exemplo, tivermos que alugar dois pavi­lhões para estocar bebidas. A demanda é muito grande e iremos atendê-la.

NOROESTE: Qual a principal ampliação na área de super­mercado?

JOEL: A Cooperativa trabalha com o planejamento estratégi­co 2010/2020. Dentro disso temos o projeto de construção do Centro de Distribuição, que até 2020 repassaremos nosso estoque para lá. Trata-se de uma área de 9,5 quilômetros, próximo ao anel rodoviário. No local será aplicado cerca de R$ 20 milhões, através do BRDE e o posto com parceria de uma bandeira.

Já em 2020/2030 está prevista a construção de um posto de combustível, além de uma central de máquinas, que abrigará uma revenda. Atualmente vendemos plantadeira e pulverizador e a ideia é ampliar inclusive com venda de trator e colheitadeira. Com isso poderemos ampliar também o supermercado do centro da cidade.

Outro projeto também em pauta está à construção de um novo supermercado na cidade baixa. O terreno já foi adquirido.

NOROESTE: A situação economica vem a atrapalhar os pro­jetos da cooperativa?

JOEL: Desde 1994 definimos que não iríamos depender mais de tratativas políticas. Começamos a olhar para nós e defenir o que poderíamos fazer. Ampliamos áreas de recebimento e armazena­mento de grãos. Optamos por mecanismos de comercialização, com um trabalho permanente. Estamos fazendo investimentos de acordo com a nossa capacidade. Embora existem necessidades urgentes, nós trabalhamos dentro da nossa realidade.

NOROESTE: Com os armazéns lotados, como vocês traba­lham para poder receber mais demanda?

JOEL: Hoje temos a deficiência de 750 mil sacos de arma­zenagem. Com 100% dos estoques cheios, a soja por exem­plo recebemos 2,4 milhões de sacas, e apenas 400 mil sacos foram faturados e o restante está com o produtor e estocada. Trata-se de R$110 milhões que deixam de circular na econo­mia geral. Estamos trabalhando uma logística para encaminhar este grão para armazéns de Porto de Rio Grande e outra de­manda vai para as fábricas.

NOROESTE: Por que o produtor não está faturando o soja?

JOEL: Olha, o principal motivo é o preço ofertado pela saca, que atualmente está baixo, embora tenha muitas pessoas se en­dividando em bancos. Eles pegam uma carta de crédito aqui, pois tem soja para faturar e pegam empréstimo bancário. O produtor não conseguiu absorver isso, e a cooperativa acaba deixando de operar com mais de R$ 10 milhões. Não é só isso, na relação direta do produto, ele está represado. O dinheiro deixa de circular e o resultado da cooperativa também não será mesmo. Se o produtor vende, conseguimos fazer investimentos. Alguns produtores estão bem financeiramente e aguardam o valor da saca subir.

NOROESTE: Quais os projetos para ampliar o armazenamento?

JOEL: Já está em fase de aprovação de projetos a ampliação e será investido para expandir o recebimento de mais 750 mil sacos e serão investidos R$ 12,5 milhões. Vamos construir outras cinco unidades. A primeira delas será em Novo Machado, isso demanda mão de obra, mas iremos resolver o problema.

NOROESTE: Que produtos a cooperativa industrializa?

JOEL: No ano passado a industrialização representou 28% do faturamento. Produzimos farelo de soja e óleo degomado ( óleo bruto) que é utilizado para refinaria. Estamos industrializan­do cerca de 60% da nossa capacidade e trabalhando com uma parceria para colocar a fábrica a agir com 100% da capacidade.

NOROESTE: Como você avalia o trabalho nos últimos 28 anos?

JOEL: O sucesso é o somatório de ações bem sucedidas. Tivemos experiências ruins, mas se olharmos para trás, temos a certeza de que há muitos avanços para comemorar. Há 28 anos tínhamos um patrimônio de R$ 15 milhões e hoje ele passa de R$ 150 milhões. Os avanços são muitos, mas iremos ampliar ainda mais.

NOROESTE: Como você vê a tecnologia no aumento da produtividade?

JOEL: Olha, sendo sincero, o maior ganho na produção de ri­queza é da sociedade. O produtor cresceu na produtividade, mas também cresceram seus custos. Antes um saco de semente de milho era R$ 200,00 e hoje está R$ 900,00, mais o custo de adubo e ureia. Não quero ser pessimista, mas temos que mostrar a realidade. A cooperativa está qualificando cada vez mais a equipe técnica, buscando levar ao produtor orientação na redução de custos. Esse é o nosso foco.

NOROESTE: Qual a importância do leite para a Coopermil?

JOEL: Somos a segunda maior fornecedora de leite da CCGL e entregamos mensalmente cerca de 6,3 milhões de litros mês. Temos cerca de mil produtores e eles estão se qualificando, se tecnificando, aumentando assim a produção. Estamos injetando na região só com o leite R$ 6,6 milhões/mês. Se olharmos a his­tória, este ano o preço pago ao produtor é o maior, tirando os dois meses. O leite é de extrema necessidade, pois além de sua importância para o consumidor, o produtor consegue manter a sua família, muitas vezes apenas com essa cultura.

NOROESTE: Como a cooperativa se prepara para o futuro?

JOEL: Estamos atuando com o planejamento estratégico 2010/2020 e já trabalhamos com o projeto 2020/2030. Cada um define as prioridades e investimentos a serem feitos. Eles são avaliados constantemente e norteiam o futuro da cooperativa. Atuamos com clareza com os associados, que são os proprietá­rios da cooperativa. Várias ações já foram feitas, e aos poucos a sociedade notará o crescimento da Coopermil, claro, tudo dentro das nossas condições e da realidade.

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