HomeNoroeste Entrevista sábado, 26 de agosto de 2017 11:08

PEDRO BERWIAN

O AVENTUREIRO!

Hoje aos 58 anos, natural de Santa Rosa, “da cidade baixa” como faz questão de enfatizar, Pite, o apelido de guerra de Pedro Berwian desde a infância, optou pela aventura das estradas e de outros países em 1979, quando era um jovem de 20 anos.

Na adolescência tinha sonhos como qualquer santa-rosense: namorar, ter um bom emprego, estudar, casar e ter filhos. Seu primeiro emprego foi na Agropecuária Lambari, do saudoso Getúlio Falabretti, como ajudante. Depois foi vendedor de melancia na esquina das ruas Caxias e Dr. João Dahne, ‘bico’ de verão que fazia também para os saudosos Erol e Romeu Steffen. Teve passagem pela Coopermil, acompanhando na época o surgimento da Afumil (Associação dos Funcionários da Coopermil). E assim foi até prestar o serviço militar.

Lembra-se com carinho de todos os locais onde trabalhou e consolidou sua adolescência e início da maturidade, mas confessa que sempre teve uma forte tendência à liberdade de horários e de lugares, o que na época simplesmente inexistia. Na prática, talvez ele não percebesse claramente que estava nascendo um espírito aventureiro que iria traçar seu destino.

Ainda no Exército, quando já não devia mais explicações de seus atos para o saudoso pai, amigo e conselheiro Breno Berwian, começou a idealizar com alguns companheiros de farda uma viagem turística para o Rio de Janeiro, passando por Foz do Iguaçu. Não passou. Ficou! Trabalhou um ano na construção da hidrelétrica Itaipu e morou no Paraguai, onde teve contato com pessoas de várias partes do mundo. Nascia o aventureiro Pedro Berwian. Jamais voltou para casa para ficar. Só a passeio.

E no mais recente concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Noroeste no último sábado pela manhã. Na segunda-feira, 21, retornou à Guatemala, onde fixou seu ponto de partida há 31 anos.

NOROESTE: Tua primeira viagem internacional.

BERWIAN: Alemanha, porém, onde jamais cheguei.

 

NOROESTE: Dá para explicar?

BERWIAN: Bem: saí de Porto Alegre com um casal e o plano era chegar à tão sonhada Alemanha, terra de meus antepassados. Foi a maneira de eu não dizer para os meus mais que estava pegando a estrada em definitivo. Eles, além de não ficarem preocupados, ainda me estimularam a viajar.

 

NOROESTE: Por que nunca chegou à Alemanha?

BERWIAN: Pra começar, o navio que nos levaria à Holanda, nunca chegou e nem sei os motivos. Para não esperar por nova oportunidade que só viria um ano depois, decidimos iniciar viagem de avião até Pirassununga, centro da Força Aérea Brasileira (FAB) em São Paulo. De lá descemos até Santos para encontrar o mesmo navio, quando também não apareceu.

 

NOROESTE: Que navio se tratava?

BERWIAN: Era um navio de carga, no qual iríamos trabalhar em troca da passagem, estadia e parte em dinheiro.

 

NOROESTE: Qual foi o rumo alternativo para a Alemanha?

BERWIAN: Natal, no Rio Grande do Norte, depois Fortaleza, Belém, Macapá e Oiapoque, sempre à procura de um porto. Porém, em Fortaleza conhecemos um casal que tinha um veleiro que estava descendo para Salvador e depois subiria à Guiana Francesa e à Ilha de Antiga. Garantimos a carona, mas o Brasil não tinha boas relações com a França, o que impediu o destino da Guiana.

 

NOROESTE: Eram as primeiras provas de um aventureiro?

BERWIAN: Sim, porque se não fôssemos aventureiros, já estava na hora de ‘chutar o balde’ e retornar para casa. Nesse meio tempo de percalços, a gente tem problema de dinheiro, de lavar roupa, saúde, alimentação, transporte e moradia. Dormimos em praia, em barcos, ônibus e em bancos de rodoviária. Muitas vezes a higiene era relegada para um segundo plano, comíamos o que era possível e seguíamos a viagem.

 

NOROESTE: Foram para onde?

BERWIAN: Retornamos a Santarém num barco pesqueiro pelo Rio Amazonas, na residência de um santa-rosense (Mano Escher) que encontramos em Belém. De lá conseguimos uma viagem através da Força Áerea Brasileira para Manaus, onde passamos nosso primeiro Natal longe de casa. Permanecemos duas semanas morando na Casa do Estudante de uma Universidade Federal.

NOROESTE: Ainda rumo à Alemanha?

BERWIAN: Sim. Por estrada fomos até a Caracas, na Venezuela, onde conhecemos a Queda dos Angeles, a maior do mundo. Nosso plano era chegar à costa do Pacífico e de lá irmos até Trinidad e Tobago, de onde finalmente partiríamos à Ilha de Antiga, onde nos encontraríamos com o casal Frances do veleiro.

 

NOROESTE: Desta vez, deu tudo certo?

BERWIAN: Não. Um temporal assolou a costa venezuelana, não permitindo barco algum fazer a travessia até Trinidad.

 

NOROESTE: E a Alemanha cada vez mais distante?

BERWIAN: O destino alemão era até então o meu grande sonho. O problema que o casal de amigos tinha tempo limitado, pois duas bolsas de estudos os aguardavam na Espanha e na França. Fomos à Colômbia em busca de um vôo aéreo russo da Companhia Aeroflot, mas aos chegarmos em Bogotá, a capital colombiana deixara de fazer parte do trajeto russo. Ou desceríamos para Lima, no Peru, ou subiríamos em direção ao México.

 

NOROESTE: Qual foi a opção?

BERWIAN: Primeiro nunca descer, mas sempre ir adiante. Foi o que fizemos. Pegamos um trem até Barranquilla, um porto colombiano, onde não conseguimos nenhuma possibilidade de seguir viagem marítima. Fomos até Cartagena, que é um paraíso, onde trabalhei no filme ‘A Missão’ que abordava a história dos jesuítas das Missões. Como não havia ‘gilete’, a barba cresceu e fiz um papel figurante de um padre barbudo jesuíta, com minha barba avermelhada. Podem rir, mas atuei ao lado de Robert de Niro e Jeremy Irons, ganhadores de Oscar. Estava ali para me divertir, comer bem e ganhar uns pilas.

 

NOROESTE: De Cartagena foi para onde?

BERWIAN: Nessa altura o que menos tínhamos era dinheiro para o dia a dia. No entanto, vale a pena fazer uma ressalva: nesses transtornos todos não havia sofrimento e nem arrependimento, porque sempre estávamos desfrutando de coisas novas e lindas. E sempre enviávamos cartas à família, só que sempre contando aspectos positivos. De Cartagena, finalmente compramos uma passagem aérea para a Cidade do México.

 

NOROESTE: A Alemanha já tomava corpo?

BERWIAN: Não. O casal tomou seu rumo e eu decidi conhecer mais o México. Minha presença naquele país coincidiu com a Copa do Mundo de 1986, antes presenciei o grande terremoto de 1985, que destruiu o centro antigo da capital mexicana. Foi terrível. Uma cena forte ficou gravada na minha cabeça no decorrer da viagem.

 

NOROESTE: Que cena?

BERWIAN: O avião que nos levou ao México fez uma escala na Guatemala. De cima para baixo tive uma visão linda e fantástica da topografia do país, ficando deslumbrado com a mata verde e vulcões que se sobressaiam.

 

NOROESTE: Foi tua primeira decisão de descer geograficamente?

BERWIAN: Sim. Eu precisava conhecer a Guatemala antes de qualquer coisa.

 

NOROESTE: E a Alemanha?

BERWIAN: Ficou longe. Quando pisei na Guatemala no final de 1986, a Alemanha desapareceu dos meus planos. Me apaixonei pela Guatemala e na Guatemala. Lá conheci uma guatemalteca com a qual acabei casando. Não tivemos filhos.

 

NOROESTE: As aventuras de Pedro Berwian cessaram na Guatemala?

BERWIAN: Não. Lá foi onde fixei residência, mesmo que minha vontade inicial era de ficar apenas seis meses. Fui ficando, ficando e fiquei. Trabalhei em agência de modelo para comerciais de televisão e jornal, em publicidade, comércio, vendedor de quadros de obras de artes, até chegar a ser sócio de um restaurante de frutos do mar.

 

NOROESTE: Se sentia estabelecido?

BERWIAN: Não. Queria continuar viajando, conhecendo o mundo. Mas, confesso que a Guatemala me conquistou.

 

NOROESTE: Você chegou a ter um bar em Santa Rosa na década no início de 2000?

BERWIAN: Sim, foi na Avenida Tuparendi. Na época, permaneci em Santa Rosa por quatro anos motivado pela saúde de meu pai e do falecimento de meu irmão mais novo.

 

NOROESTE: Aliás, fale de sua procedência familiar!

BERWIAN: Sou filho do saudoso Breno Berwian, que veio de Cândido Godói para cá, minha mãe Mericke que ainda reside na rua Giruá, e irmão de Sirlei, Irlete, Ivete e do saudoso Milton, que morreu aos 62 anos. A Sirlei mora com a mãe, a Ivete está em Santa Maria e Irlete em Brasília, onde assessorou durante décadas o Osmar Terra.

 

NOROESTE: Está voltando para Guatemala para ficar?

BERWIAN: Não sei.

 

NOROESTE: Pretende viajar para outro país?

BERWIAN: Sim, mas ainda não sei para onde.

 

NOROESTE: Você imagina morrer onde?

BERWIAN: Não sei. Mas, a pergunta é interessante para revelar um estado de espírito: sempre que estou na Guatemala, penso em voltar para Santa Rosa e sempre que estou em Santa Rosa penso em voltar para a Guatemala. Talvez aí esteja a resposta do final da minha vida aventureira. Não penso na morte e nem no amanhã. Meu negócio é o estalo do hoje. Não faço planos e projetos de médio e muito menos de longo prazo.

 

NOROESTE: E a Alemanha?

BERWIAN: Não sei. Talvez, um dia, sei lá. Talvez retome a viagem iniciada há 33 anos e nunca chegue à Alemanha mais uma vez.

 

NOROESTE: Para encerrar, se você tiver apenas um lugar para visitar como opção, iria para onde?

BERWIAN: Singapura é meu sonho. Tomara que um dia eu chegue lá, até porque hoje os percalços são bem menores ou incomparáveis às aventuras de 30 anos atrás.

 

NOROESTE: Boa viagem!

BERWIAN: Obrigado.

 

NOROESTE: Para onde?

BERWIAN: Não sei. Meu plano é a Guatemala.

 

NOROESTE: Em tempo: sugere aventurismo às pessoas?

BERWIAN: Não. Isso está no sangue, no espírito, no teu interior, no teu modo de ver o mundo.

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