HomeNoroeste Entrevista sábado, 28 de outubro de 2017 09:51

Produzir às Forças Armadas

Temos chances?

Irálcio Amorim, 59 anos, presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico deSanta Rosa (SIMMME-SR) é um dos ouvidos mais atentos nas articulações que estão se desenvolvendo nos últimos meses entre o Ministério da Defesa e o pólo metalmecânico de Santa Rosa, liderada pelo ministro Osmar Terra.

Na semana passada acompanhou durante um dia inteiro a visita de dois coronéis precursores que conheceram o chão de fábrica de algumas unidades que produzem peças e componentes para máquinas, implementos agrícolas e tratores. Também almoçou com o ministro Raul Jungmann, da Defesa, que veio a Santa Rosa na sexta-feira, 20, a convite de Terra, dentro de um cronograma que prevê avanços nas negociações. A ideia é que fábricas locais venham fazer parte da base de fornecedores das Forças Armadas Brasileiras (Exército, Marinha e Aeronáutica).

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Noroeste, Irálcio Amorim antecipa algumas análises de todos os estágios alcançados até aqui.

NOROESTE: É um negócio plausível ou eventuais dificuldades podem tornar as articulações atuais em uma utopia?

IRÁLCIO: As duas colocações podem ser aceitas. É, sim, um negócio plausível, considerando o potencial técnico do polo metalmecânico local. Inclusive a nossa capacidade de produção de alto nível foi validada pelos coronéis da área técnica da Defesa.

 

NOROESTE: E a utopia é admitida em quais aspectos?

IRÁLCIO: Existe uma distância muito grande entre o comprador e nós, como fornecedores. Será necessária muita habilidade para que esse vácuo venha ser preenchido. Outro elemento importante a ser considerado é o fato de algumas empresas, cito a minha como exemplo, que quando adquirem determinadas máquinas operatrizes nacionais e importadas, se comprometem a não utilizarem-nas na finalidade bélica. Mas, isso é apenas um limitador, porque poderá fornecer outro componente. E precisamos avaliar contextualmente a situação econômica e fiscal de nossas empresas, para ver se estaríamos habilitados a participar de licitações.

 

NOROESTE: Há algum risco de uma ou outra empresa estar atravessando dificuldade financeira aguda?

IRÁLCIO: Sim. Até pela situação financeira que atravessa o país, não permitindo que setor algum consiga crescer.

 

NOROESTE: Que tamanho de negócio estamos falando com o Ministério da Defesa?

IRÁLCIO: Se as questões anteriores forem todas superadas, estamos diante de um negócio intangível, imensurável. O Ministério da Defesa opera hoje o quarto maior orçamento da União. Não são só armas no portfólio, que vai do coturno à alimentação. Estamos indiscutivelmente, mesmo com os pés no chão, diante de uma enorme e variada possibilidade. Quando cito alimentação e coturno, estou acentuando que outros segmentos locais podem interagir nas negociações.

 

NOROESTE: O polo metalmecânico fabricaria especificamente o quê para o grande cliente que se avista?

IRÁLCIO: O negócio é tão grande, que vamos citar algumas alternativas de produção. Uma delas é a energia solar e eólica que a Fratelli detém tecnologia e capacidade de produção. A Metal Star fabrica chassi para usinas de asfalto, o que despertou grande interesse dos dois coronéis técnicos, porque pode ser utilizado no transporte de blindados e outros veículos das Forças Armadas.

 

NOROESTE: Exército, Marinha e Aeronáutica estão aí operando com seu aparato atual. Pode ser aberta uma janela em negócios de reposição de peças?

IRÁLCIO: Plenamente, inclusive abrindo perspectivas de indústrias locais abrirem seus nichos produtivos e forçosamente ampliando os respectivos parques fabris.

 

NOROESTE: No início das conversações, nós falávamos apenas em peças e componentes, que inauguraram a relação da hoje AGCO do Brasil com as sistemistas locais. Continua sendo um nicho para o Ministério da Defesa?

IRÁLCIO: Sim, porque a especialidade de grande parte das metalúrgicas locais é a de produzir peças e componentes para tratores e colheitadeiras. Basta apenas uma adaptação para atender o novo cliente.

 

NOROESTE: De prático, a vinda do ministro Raul Jungmann deixou o quê?

IRÁLCIO: O que nós consideramos mais importante de tudo neste processo até aqui, independente de eventual desfecho de negócios ou não, é que o Ministério da Defesa conheceu e validou a capacidade técnica do polo metalmecânico de Santa Rosa. Se nenhum negócio for concretizado, não será por qualquer apontamento de sermos inaptos na avaliação técnica da pasta. Por outro lado, ao conhecermos o Ministério da Defesa como potencial cliente passamos a sonhar e visualizar futuras ações com outros segmentos de grande porte no país.

 

NOROESTE: Mas, teu faro projeta contratos?

IRÁLCIO: Sim, a questão é não nos iludirmos com a velocidade das negociações, que podem ser lentas e até interrompidas numa etapa ou outra, porque estamos diante de um grande negócio.

 

NOROESTE: Da maneia que as negociações vão avançando, não surge a necessidade da figura de um consultor que represente o polo?

IRÁLCIO: O que tocou para o SIMMME-SR fazer até agora, creio que foi muito bem feito. A figura do consultor ou de um executivo que nos represente em questões mais prementes e contínuas torna-se indispensável.

 

NOROESTE: O Ministério da Defesa já colocou nosso polo no circuito de seminários e conferências?

IRÁLCIO: Não só estamos informados de eventos programados, como garantimos presença no III Seminário Internacional de Defesa, marcados para os dias 8, 9 e 10 de novembro em Santa Maria.

 

NOROESTE: Santa Maria tem alguma identificação com o negócio que estamos pleiteando?

IRÁLCIO: Em Santa Maria opera o APL (Arranjo Produtivo Local) ‘Polo de Defesa e Segurança’. Podemos citar uma planta da KMW do Brasil Sistemas de Defesa, estruturada para dar sustentação à manutenção e modernização dos blindados do Exército. Ela venceu uma licitação para fazer isso durante 15 anos.

 

NOROESTE: O nosso polo chegou a ser avaliado pelo aspecto organizacional?

IRÁLCIO: Um dos coronéis gentilmente sugeriu que nós viabilizemos com a Agência de Desenvolvimento ou com a ACISAP as ações dos grupos de trabalho, para que outras indústrias e até o comércio sejam atraídos e alinhados com futuras grandes negociações.

 

NOROESTE: A ação de Osmar Terra transformou o ambiente dos empresários do setor com esta articulação?

IRÁLCIO: Estamos olhando e sonhando lá na frente. O Terra foi quem detectou a perspectiva de negociarmos com o Ministério da Defesa. E ele segue sempre com seu estilo de buscar alternativas transformadoras, de alto impacto. Se der certo transforma, se não der certo, ocorreu a tentativa. Porém, precisamos deixar claro que esse negócio pode não dar certo pela situação de uma ou outra empresa, pelas referências que fizemos anteriormente. Nesse caso, o ministro não poderá levar culpa alguma.

 

NOROESTE: O Governo Municipal está dentro da mobilização?

IRÁLCIO: Em todos os aspectos e desde o início das negociações. Inclusive, o prefeito Alcides Vicini solicitou pessoalmente para que o vereador Aldemir Ulrich representasse, com todas as prerrogativas, a Prefeitura nos contatos e ações desenvolvidas até aqui. O Aldemir acompanhou, com todo seu conhecimento técnico, os dois coronéis nas visitas às empresas, contribuindo com informações rápidas e qualificadas.

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