HomeNOROESTE ENTREVISTA sexta-feira, 26 de maio de 2017 08:52

Santa Rosa detém 100% de tecnologia na energia eólica

Ruma para a mesma independência de produção à energia solar

Isso significa que não estamos mais no passado e muito menos imaginando um cenário futurista. A velocidade no setor é tão grande, que permite à ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica estimar que o país deverá ter 1,2 milhão de instalações dentro dos próximos cinco anos. Corresponderá a 4,5 gigawatts de potência instalada de energia solar e eólica.

No ranking mundial, o Brasil está em 9º lugar, consolidando sua posição como um dos principais destinos de investimentos do mundo e o mais atrativo na América Latina. No país o estado com maior número de micro e minigera-dores é Minas Gerais (2.225 conexões), seguido de São Paulo (2.094) e o Rio Grande do Sul (1.096). Os dados são da ANEEL e liberados no dia 11 deste mês.

As primeiras tentativas de fazer do sol e do vento fontes de energia limpas iniciaram logo depois da 2ª Guerra Mundial. Porém, investimentos mais significativos passaram a ocorrer a partir do final do Século XX.

Em Santa Rosa o empresário Moacir Locatelli criou a Fratelli há 30 anos para fabricar peças e componentes de máquinas agrícolas, consolidada já naquele período pelo embalo da histórica parceria com a Maxion, hoje AGCO do Brasil. Mantém-se neste foco de produção.

Moacir foi o primeiro empreendedor a sonhar com energia limpa, apostando em produção em série e aqui em Santa Rosa. Para um mercado aparentemente de 1º Mundo, alguns duvidaram de sua ousadia e outros até o chamavam carinhosamente de ‘louco’. Nesta entrevista, Moacir Locatelli, 65 anos, conta parte de um projeto que já está dando certo e dá fortes sinais de expansão.

NOROESTE - Exatamente quando a energia limpa te atraiu com força de investimento?

LOCATELLI - Lá por 2008, quando avaliamos que nosso setor metalmecânico sofria muito com a sazonalidade. A partir daí, passei a estudar as principais necessidades que o mundo exigiria nas próximas décadas. Cheguei a quatro conclusões: mais alimentos, mais energia, mais serviço na área de saúde e mais serviço na área de lazer.

NOROESTE - A opção foi imediata?

LOCATELLI - A primeira conclusão é que nós já estávamos inseridos na cadeia alimentar. Logo a seguir vinha a energia e foi neste setor que focamos tempo, aposta e persistência.

NOROESTE - Que conhecimento você tinha da área? Pensou numa PCH (Pequena Central Hidrelétrica) ou algo parecido?

LOCATELLI - Meus conhecimentos eram de uma pessoa comum no setor, ou seja, básicos e elementares, mas sem nenhuma profundidade. Fui em busca de quem detinha o conhecimento. Primeiro contato foi com o GPOC (Grupo de Eletrônica de Potência e Controle) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Junto com eles, que desenvolveram o projeto e em parceria com a Escola Evangélica de Panambi, que executou o projeto piloto, surgiu o primeiro aerogerador de 20 Kw.

NOROESTE - Testado e aprovado?

LOCATELLI - Totalmente aprovado. Iniciamos a elaboração dos custos e as melhorias técnicas que levaram a desenvolver novos modelos e tamanhos. Começamos com o de 20 Kw e depois o de 40 Kw. Optamos por dois menores, de 1 e de 4 kw, pela exigência do mercado.

NOROESTE - Um aerogerador de 20 Kw energiza quantos m²?

LOCATELLI - Em uma localidade de ventos medianos, em torno de 15 horas/dia de operação alimenta cerca de 40 residências de médio porte.

NOROESTE - Em que nicho de mercado entram os pequenos aerogeradores?

LOCATELLI - Os locais mais solicitados são condomínios urbanos para alimentar a parte condominial, como corredores, garagens, escadas e festeiros, entre outros ambientes coletivos.

NOROESTE - Qual é o carro-chefe da Fratelli?

LOCATELLI - Boa pergunta. A melhor alternativa é a híbrida solar e eólica. Ou seja, a pessoa investe em placas solares e aerogeradores, extraindo circunstancialmente energia das duas fontes, ou em horários em que uma se acentua mais que a outra. Um exemplo óbvio é que a energia solar não é gerada à noite.

NOROESTE - Mas, entre a solar e a eólica, qual tem maior aceitação de mercado?

LOCATELLI - De uma forma geral, a maior saída é a energia solar, porque a eólica depende das condições de vento no local.

NOROESTE - Cite uma noção de valores para o investimento em energia solar de uma casa onde moram cinco pessoas:

LOCATELLI - Em torno de R$ 18 mil toda a estrutura é alimentada.

NOROESTE - O consumo da energia é tributado?

LOCATELLI - A energia produzida, primeiro alimentará a necessidade do investidor, com zero de imposto. O que sobrar, ele joga na rede de distribuição e tem 60 meses para recebê-la de volta, também sem custo tributário, dependendo da concessionária. Algumas tributam o ICMS.

NOROESTE - Em média gasta-se quanto com a energia da RGE em Santa Rosa?

LOCATELLI - Depende muito dos equipamentos conec-tados e a forma de utilização. Porém, em média a conta de luz gira em torno de R$ 350,00. Sabendo onde você pretende chegar, antecipo que o investimento é pago em 50 meses.

NOROESTE - Como a Fratelli financia o sistema gerador para a mesma residência em questão?

LOCATELLI - Nossa empresa tem parceiros bancários que financiam o projeto. Quem pretender pagar em menor prazo negocia direto conosco ou com o banco.

NOROESTE - Vocês trabalham com projetos cooperativados?

LOCATELLI - Trabalhamos e a prática mostra que está dando certo, envolvendo empreendimentos de múltiplas unidades consumidoras. O termo correto é geração compartilhada.

NOROESTE - Qual é a distância entre uma casa e outra?

LOCATELLI - Pode ser uma casa em Santa Rosa, outra em Santo Ângelo e mais uma em Cruz Alta, ou todas em Santa Rosa nas mais diversas áreas da cidade e do interior. Basta que seja através da mesma concessionária.

NOROESTE - Quem assume o pagamento?

LOCATELLI - Alguém instala o gerador e vende para quem se interessar.

NOROESTE - Atualmente em Santa Rosa, a Fratelli conta com quantos clientes nas três faixas de opção:

LOCATELLI - Nosso foco são unidades industriais. Por isso nossas vendas estão pulverizadas em dezenas de cidades do Rio Grande do Sul. Porém, vale a ressalva de que não dispensamos negócios com proprietários de residências.

NOROESTE - Estamos diante de um negócio de grande potencial, Você teme a chegada de concorrentes, já que a Fratelli é a única fabricante na região?

LOCATELLI - Na área eólica de pequenos aerogeradores existem dois fabricantes no Brasil: um em Santa Rosa e outro no Rio de Janeiro. Na área de aerogeradores nós produzimos 100% do sistema elétrico, eletrônico e mecânico, tudo patenteado. É uma independência de produção.

Já na produção de componentes para o setor solar, estamos produzindo grande parte dos assessórios necessários, com exceção das placas. Porém, vamos chegar lá e concluir todo o ciclo.

NOROESTE - Para encerrarmos, o que a Fratelli guarda para o futuro?

LOCATELLI - Estamos desenvolvendo em parceria com a Unisinos um aerogerador enclausurado, tipo a parte externa de um split. O vento vai tocar a turbina, que irá gerar energia de forma modulada, ou seja, o projeto pode ser ampliado por etapa.

NOROESTE - Algum orgulho particular nesta caminhada?

LOCATELLI - Tudo nos orgulha, mas três empreendimentos tocam-nos sentimentalmente: um aerogerador na Tecnopuc, em Porto Alegre, servindo de referência de tecnologia de ponta; estamos com seguidores solares no Parque Villa Lobos na cidade de São Paulo, que alimentam 92% da eletricidade gasta no Parque; em Sergipe, na capital Aracaju, a Fratelli está presente num parque eólico.

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