HomeNoroeste Entrevista segunda-feira, 24 de abril de 2017 07:49

Um acervo de 17 mil obras literárias

Conheça um pouco do trabalho do bibliotecário Fabrício Schirmann Leão, 33 anos.

A Biblioteca Pública Municipal Olavo Bilac, criada em 1941, não vive atualmente uma reforma apenas na sua estrutura predial. Internamente, no controle do acervo e em ações inovadoras para atrair público, um jovem recentemente admitido através de concurso público (novembro de 2015), acredita no potencial da literatura em Santa Rosa. Seu nome: Fabrício Schirmann Leão, 33 anos.

Ele acaba de lançar o Clube da Leitura, na tentativa de cativar leitores em torno de livros e gêneros específicos. Todos os títulos estão sendo registrados num catálogo on line, que facilita a pesquisa sobre as obras disponibilizadas. A pesquisa é feita diretamente no computador.

Fabrício criou o Piquenique da Leitura, direcionado ao leitor infantil. Agora trabalha na avaliação de todos os livros antigos, aprovando os resgatáveis e descartando obras que o tempo inutilizou. Ele quer trabalhar com um acervo real, não imaginativo.

Sendo cuidadoso no uso das palavras, o jovem diz que encontrou a biblioteca muito distante da comunidade. Criou uma fanpage e instituiu uniforme de trabalho para os cinco colaboradores. Concentra-se no catálogo on line por acreditar que o trabalho será intenso e de longa duração.

Fabrício Leão concede entrevista ao Jornal Noroeste na semana que antecede a 13ª Feira do Livro, que será aberta oficialmente na quarta-feira, 26. A conversa aprofunda detalhes da maior biblioteca do município.

NOROESTE: Há um controle que permita sinalizar quais as obras mais concorridas entre o público leitor?

FABRÍCIO: O catálogo on line permite isso. Nele estão registradas as obras mais recentes, que justamente atrai o leitor.

NOROESTE: E quais são os gêneros mais lidos?

FABRÍCIO: Hoje, disparadamente as obras estrangeiras.

NOROESTE: E quais são os autores mais procurados?

FABRÍCIO: Nicholas Sparks e Nora Roberts, ambos voltados mais para o romance.

NOROESTE: Os livros nacionais ficam muito abaixo dos estrangeiros, quanto à procura?

FABRÍCIO: Infelizmente sim, porque a literatura brasileira é riquíssima. A questão está no número de obras recém adquiridas, que são mais estrangeiras do que nacional.

NOROESTE: Isso não seria um despropósito, um deses-tímulo à literatura nacional numa biblioteca pública?

FABRÍCIO: Concordo, mas há uma explicação. Eu não disponho de uma verba específica para comprar livros todos os meses. Minha fonte se concentra na Feira do Livro, onde os livreiros forçam mais os títulos estrangeiros em detrimento aos autores brasileiros.

NOROESTE: Mesmo assim, de quanto a biblioteca dispõe para renovar o acervo?

FABRÍCIO: A Feira, na prática, é um projeto de fonte de arrecadação em favor da biblioteca. Por exemplo: cada livreiro sabe antecipadamente, via edital, quantos reais devem destinar como contrapartida para a biblioteca. No ano passado com a participação de 10 livreiros nós adquirirmos R$ 9 mil em livros. Na Feira deste ano serão 12 livreiros, o que fatalmente aumentará a contrapartida.

NOROESTE: Não existe nenhuma outra fonte para aumentar o acervo?

FABRÍCIO: Além da que citamos, contamos com doações frequentes. Para se ter uma ideia, recebemos mais livros doados, do que os adquiridos na Feira do Livro.

NOROESTE: O catálogo on line fatalmente irá descartar um determinado número de livros pelo tempo de uso. Você tem uma projeção?

FABRÍCIO: Acredito que pelo menos 20% do acervo serão descartados. Temos livros sobre legislação (Direito) que serão todos destinados à APAE, que vendem para reciclagem. São livros antigos, mas desatualizados para uma área tão dinâmica como é o Direito.

NOROESTE: Teremos alguma relíquia a ser descartada pelo manuseio continuado?

FABRÍCIO: Se for uma obra rara e consagrada, nós guardamos para um futuro projeto de restauração.

NOROESTE: Quem restaura e a que preço?

FABRÍCIO: Restauradores confiáveis só em Porto Alegre. Sobre o preço, admito não ter uma noção até porque tudo irá variar pela quantidade e a qualidade do material.

NOROESTE: Voltando à literatura nacional. Qual o autor mais lido?

FABRÍCIO: Érico Veríssimo é o mais procurado. ‘Entre amores cruzados’, de Vanessa de Castro, é um romance brasileiro também expressivamente procurado.

NOROESTE: Que faixas etárias acessam o acervo?

FABRÍCIO: Há um equilíbrio entre adolescentes, jovens e adultos. Idosos são bem menos e, nesta faixa, a maioria são senhoras.

NOROESTE: A biblioteca é movimentada durante o dia? Quantas obras, em média, são emprestadas por dia?

FABRÍCIO: Por dia a biblioteca empresta, em média, 25 livros. Avaliamos como um bom resultado, mesmo que ainda possa ser melhorado. E tem cerca de 35 pessoas que transitam pela biblioteca para ler o jornal e acessar a internet. É uma casa que tem vida.

NOROESTE: Você falou em cinco colaboradores?

FABRÍCIO: Sim. Uma auxiliar de serviços gerais, três auxiliares de biblioteca e eu, no caso, o bibliotecário.

NOROESTE: Qual o grau de fidelidade do público na devolução das obras?

FABRÍCIO: Trabalhamos muito forte nesta questão. Hoje a fidelidade é bem maior do que há dois anos. Porém, existe uma estimativa de que ao longo do tempo cinco mil obras não foram devolvidas.

NOROESTE: E quem não devolve, sofre algum tipo de sanção?

FABRÍCIO: Hoje não, mas já tenho um regulamento sendo avaliado no setor jurídico da Prefeitura prevendo a cobrança do valor do livro ao inadimplente. A Prefeitura pode, inclusive, lançar o usuário em Dívida Ativa.

NOROESTE: A tecnologia é indispensável nos dias de hoje à biblioteca?

FABRÍCIO: Com plena certeza. Hoje nós estamos vinculados ao Projeto Conecta Educação, coordenado pela Agência de Desenvolvimento, que traz a tecnologia para a área educacional e, por via de consequência, contemplará a nossa biblioteca.

NOROESTE: Que efeito prático terá o Projeto Conecta?

FABRÍCIO: Num primeiro momento iremos trabalhar com o autor digital, estimulando que alunos da rede pública municipal venham recriar histórias de livros que nós iremos indicar. Através dos aplicativos disponíveis no Google, o aluno poderá trabalhar a animação, a edição de vídeos, cartoons e imagens fotográficas.

NOROESTE: Já está a caminho este respingo positivo do Conecta?

FABRÍCIO: A fase atual é de capacitação minha e dos meus colaboradores. Depois iremos à prática com um projeto piloto envolvendo quatro escolas municipais a serem indicadas pela Secretaria de Desenvolvimento Educacional. Cada escola formará ser grupo, que receberá um chromebook (computador portátil com programas específicos do Google). As quatro escolas trabalharão de forma remota, sem necessariamente se reunirem todas num único local. Vai ser fantástico.

NOROESTE: E depois?

FABRÍCIO: O projeto será ampliado para todas as escolas. E a mesma ideia de alinhar a tecnologia com a literatura, a biblioteca construirá um espaço físico exclusivo e com conceito sustentável ecologicamente.

NOROESTE: A biblioteca está vinculada a que órgãos do Governo Municipal?

FABRÍCIO: Exclusivamente à Secretaria de Desenvolvimento de Cultura e Esporte, que vem apoiando todos os nossos projetos.

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