HomeNoroeste Entrevista sexta-feira, 15 de dezembro de 2017 15:11

Um olhar contra a violência

O jornal conversou sobre o assunto com assistente Social Marta Elisa Rembold do Nascimento.

O Jornal Noroeste aborda nesta semana um assunto muito sério: a violência contra a mulher, que faz vítimas diárias. São agressões físicas, morais e psicológicas onde muitos casos terminam em feminicídio. A convidada para falar do assunto é a assistente Social Marta Elisa Rembold do Nascimento.

Marta é casada, tem quatro filhos, e reside em Santa Rosa há 17 anos. Ela atua como assistente social desde 2004, e ocupa desde 2013 a gerencia do Centro de Referência Regional de Atendimento à Mulher e da Casa de Abrigo e Passagem 8 de Março.

O local conta com psicóloga, assistente social, advogado, um auxiliar de serviços gerais e uma oficial administrativa. Um ótima equipe, muito profissional e engajada, preocupada com as questões de gênero. Só neste ano o grupo atendeu 340 mulheres, embora 83 tenham solicitado atendimento e não compareçam. O assunto ainda preocupa e a cada dia precisa ser mais debatido para que a violência familiar deixe de fazer vítimas.

NOROESTE: Quem recebe atendimento e quais são as principais localidades atendidas?

MARTA: Nós não temos idade limite, então atendemos mulheres de todas as idades e de todos os níveis socioeconômicos e graus de instrução. São mulheres vindas de 23 municípios da nossa região e o maior público atendido é santa-rosense. O índice maior de violência é registrado por moradoras do Centro da cidade, Bairro Central, Bairro Cruzeiro, Auxiliadora e Planalto. Temos muitos casos do interior onde acontece violência, mas as mulheres não querem se expor para a comunidade, por vergonha ou medo.

 

NOROESTE: Olhando os locais com mais ocorrências registradas, pode-se dizer que a questão social não influencia na questão da violência doméstica?

MARTA: Não, ela não influência. A violência é uma questão muito cultural e enraizada desde os primórdios. Ela acontece em todas as classes sociais, independente da escolaridade, por isso que trabalhamos a prevenção. Para constar, nós já atendemos de donas de casa, autônomas, mulheres com grau muito baixo de escolaridade até mulheres que já são doutoras. O problema está em todos os níveis socioeconômicos.

 

NOROESTE: Quais os tipos de violências que são mais denunciados?

MARTA: A violência psicológica e física, uma vez que todo o tipo de violência inicia com o xingamento e desmoralização da mulher. Um dos exemplos são os relatos de vítimas que contam que acabam sendo menosprezadas pelos parceiros, e que isso influencia na autoestima. Eles reclamam da comida, dizem que ela é gorda, feia, aumentando suas frustrações.

 

NOROESTE: Quais as violências mais praticadas que ainda não foram identificadas pelas vítimas?

MARTA: A violência patrimonial, segundo estudos, está em primeiro lugar. Na prática ela acontece quando o companheiro administra todo o dinheiro desta mulher, não permitindo que ela use o recurso como desejar. Outra questão está no uso do celular, que muitas vezes é tomado da vítima por ciúmes. Isso também já aconteceu com os documentos pessoais, que eles deixam retidos para que a mulher não possa ir para outro lugar.

A dependência financeira também é uma violência. Nestes casos os homens não permitem que as mulheres trabalhem para garantir o controle da vítima, através do dinheiro.

A violência sexual acontece muito dentro das relações e muitas vezes não é identificada. Não é normal que a mulher tenha relações sexuais contra a sua vontade, apenas porque o marido insiste, para que isso não o aborreça. Isso também configura abuso.

Violência moral, quando o homem expõem sua parceira em locais público ou até mesmo na vida íntima. A mulher muitas vezes confunde a violência moral e psicológica. Elas são diferentes e precisam ser identificadas.

 

NOROESTE: Qual o perfil dos agressores?

MARTA: São homens que tem bom relacionamento social tanto no trabalho quanto nos grupos que participa. São pessoas que, muitas vezes, você não percebe ou não consegue identificar. Para a sociedade é um cara trabalhador, honesto, legal, mas em casa é outra pessoa. Muitas vezes, no vínculo familiar do agressor, a violência pode passar despercebida. Ele nem sempre é notado por terceiros, mas alguns sinais característicos podem ser observados.

 

NOROESTE: Quais são os sinais mais comuns?

MARTA: Normalmente o homem se vitimiza no grupo que convive. Ele reclama, e da a entender que os problemas conjugais são exclusivamente culpa da companheira. Constranger a mulher em público, menospreza-la e humilha-la também são ações características.

 

NOROESTE: Os demais membros da família sofrem com a agressão?

MARTA: Sim, todos. A violência acontece normalmente dentro do âmbito familiar e isso influencia diretamente nos filhos e demais integrantes da casa.

 

NOROESTE: Como identificar a agressão?

MARTA: Tem mulheres, que após ver algum tipo de agressão levada a público, analisa se reconhece no caso e depois disso procura ajuda. Em outras situações a família desta mulher identifica e pede por ajuda, para que a partir daquele momento a vítima possa fazer a denuncia e buscar auxilio especializado.

 

NOROESTE: Só a vítima pode denunciar?

MARTA: Não, toda a sociedade pode auxiliar. Não devemos nos omitir diante de situações como essa. As vítimas, ou terceiros, podem denunciar diretamente na Delegacia da Mulher, no disque 180, na Escuta Lilás pelo 0800-541 0803, ou no Centro de Referência da Mulher.

 

NOROESTE: No Centro de Referência como a vitima é acolhida?

MARTA: A mulher chega ao centro de forma espontânea ou por encaminhamento da Rede de Proteção à Mulher. Ali ela é recebida pela oficial administrativa que faz o acolhimento, preenche sua ficha e a encaminha para a equipe multidisciplinar que fará a analise da situação e tomará as medidas cabíveis.

 

NOROESTE: Quando a mulher necessita sair de casa, como ela recebe este acolhimento?

MARTA: Quando a mulher faz o Boletim de Ocorrência e não tem para onde ir, até a Justiça conceder as medidas protetivas, ela pode ser acolhida na casa de passagem, juntamente com seus filhos menores. Lá ela recebe todo o atendimento previsto, principalmente na questão jurídica.

 

NOROESTE: São muitos os casos de mulheres que necessitaram de abrigo?

MARTA: De janeiro a dezembro de 2016 foram 23 mulheres acolhidas. De janeiro a novembro deste ano já foram registrados 24 casos de abrigamento. Isso significa que a mulher deixou de esperar, em casa e com medo, as medidas protetivas. Ela chega à Delegacia, pois não quer colocar em risco seus familiares, então opta por ir à casa de passagem evitando assim contato com o agressor.

 

NOROESTE: A Justiça ampara a mulher com agilidade?

MARTA: Em Santa Rosa, sim. Todos os casos que foram encaminhados tanto pela delegacia, como pelo Centro de Referência, tiveram atenção imediata. O Ministério Público, por exemplo, é um grande parceiro e está sempre pronto para nos ajudar em situações conflitantes. Já precisei acionar a promotora em horários fora do expediente e ela sempre nos atendeu. Isso mostra que todos estão engajados para combater a violência contra a mulher.

 

NOROESTE: E em casos com casais homoafetivos, vocês também atuam nesta demanda?

MARTA: Sim, já tivemos casos com esta demanda e as vítimas tiveram todo o atendimento prestado pela nossa equipe.

 

NOROESTE: O que mais impede as pessoas de buscarem o acolhimento? O machismo é fator predominante?

MARTA: As mulheres, em sua grande maioria, tem medo, insegurança, vergonha de terem sido colocadas nesta situação e precisarem buscar seus direitos. O medo da exposição e julgamento da população é um dos fatores que impede as vítimas de buscarem ajuda. O machismo é um agravante sim, e o que ainda nos preocupa é que muitas vezes as mulheres que veem a situação de fora alimentam o machismo. A culpa nunca é da vítima.

 

NOROESTE: Existem casos, onde após denúncias e trabalho, famílias voltaram a conviver harmoniosamente?

MARTA: Sim, existe. O que acontece às vezes é que, após a mulher receber ajuda, o agressor demonstra arrependimento. A partir deste momento, o homem também passa por atendimentos e recebe acompanhamento. Em alguns casos, após as mulheres receberem ajuda e obterem novas informações, elas optam por romper o relacionamento, para não arriscar tornar-se novamente uma vítima de relacionamentos abusivos.

 

NOROESTE: Que tipo de ações preventivas são realizadas?

MARTA: Nós, como Centro de Referência, realizamos campanhas na mídia local e regional. Buscamos falar do assunto, orientar e fazer com que se crie consciência tanto nas mulheres, quanto nos homens. Realizamos também palestras nos grupos atendidos pelas unidades básicas de saúde e nas escolas, empresas públicas e privadas com bastante intensidade. Queremos levar informação, orientar e deixar as pessoas a par deste sério problema que vem de uma cultura infeliz e ultrapassada e que ainda afeta tanto a população.

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