HomeNOROESTE ENTREVISTA sexta-feira, 28 de abril de 2017 17:03

Uma gestão privada na área pública

Presidente da Fundação da Saúde, Anderson Mantei, fala da experiência nova de gestão pública.

Anderson Mantei, 51 anos, advogou durante os últimos 27 anos, principalmente nas áreas cível e tributária. Presidiu voluntariamente o Hospital Vida & Saúde durante 10 anos, acumulando cinco mandatos, onde profissionalizou a gestão, revertendo completamente um cenário antes de penúria, dívidas e de dúvidas. Empreendeu de 1996 para cá na área privada em várias atividades: CFC Escritório Chico, CFC Alvorada, Central Parc Empreendimentos Imobiliários e GP Motos Concessionária Yamaha. Durante 14 anos integrou diretorias da Acisap em várias áreas, tendo respondido pela vice-presidência de Serviços na gestão de Luciano Mallmann (2000/2002).

É rotariano há mais de 10 anos, integrante do Rotary Clube Santa Rosa Cultural. Membro fundador do Conselho da Comunidade (que gera recursos que transitam na Justiça Estadual em favor de obras sociais e de segurança pública). Foi Diretor Cultural da OAB - Subsecção Santa Rosa, na época presidida pelo saudoso advogado e empreendedor Cláudio Piovesan Camargo. Integra hoje o Consepro - Conselho Pró-Segurança Pública.

No total, são 27 anos voltados à comunidade e à vida privada. Repentinamente foi anunciado pelo prefeito Alcides Vicini como presidente da Fundação Municipal de Saúde. Para alguns, uma atividade afim para quem presidiu o Vida & Saúde ao longo de 10 anos. Porém, no hospital ele contratava serviços e cobrava por produção, batendo pé principalmente nos períodos de renovação dos contratos anuais.

Ao aceitar o convite, deixava de ser pedra para ser a vidraça. A dúvida, para muitos, é se haveria um forte choque de conceitos de um homem criado e desenvolvido nos princípios da iniciativa privada, comandando o setor de maior volume de recursos do Governo Municipal - a Fundação Municipal de Saúde gerencia um orçamento previsto de R$ 92,5 milhões para o exercício de 2017.

Passados quatro meses no cargo, Anderson Mantei fala sobre facilidades e dificuldades eventuais de entrosamento.

NOROESTE - Na chegada à Fundação, quais foram às primeiras impressões?

MANTEI - Uma excelente estrutura física e de equipamentos e um quadro excepcional de colaboradores.

NOROESTE - Na linha conceitual de agir, qual foi a primeira desilusão ou decepção?

MANTEI - A morosidade do processo administrativo de uma forma geral, que obrigatoriamente apresenta situações prementes, mas com soluções que se arrastam. Cito como exemplo as licitações para a compra de medicamentos, que exigem a observância de uma série de formalidades legais, acarretando uma demora exagerada até a entrega do remédio ao cidadão.

NOROESTE - Você toca numa queixa repetida pela área pública. Porque não antecipar as licitações de produtos de consumo repetitivo?

MANTEI - É exatamente isso que estamos fazendo, com a implantação de inventários mensais de materiais e medicamentos, a realocação de recursos economizados em outras áreas, a ampliação de estoques e a antecipação da compra.

NOROESTE - Cite exemplos.

MANTEI - Resumindo, nós trabalhamos em três fases iniciais: aperfeiçoamos a gestão, aumentamos os estoques e antecipamos as licitações. Há antecipação de ações também para todos os setores da Fundação. E criamos mecanismos que exigem do vencedor de determinada licitação obrigações que, se não cumpridas, resultam em notificações e até suspensão do contrato de fornecimento e do próprio fornecedor.

NOROESTE - O aperfeiçoamento do Plano de Gestão alcança todas as áreas funcionais?

MANTEI - Identificamos todos os “processos operacionais” e os classificamos através de uma linha de priorização, respeitando, pela ordem, os riscos, abrangência e otimização de recursos. Reconhecidos os processos, estamos elaborando os manuais e procedimentos, que serão multiplicados para todos os quadros, trazendo a tão esperada padronização dos serviços. De uma forma clara e objetiva, todos os colaboradores terão conhecimento e treinamento para a execução de suas funções.

NOROESTE - Quando o termo gestão é repetitivo, cite alguns exemplos de avanços pela otimização dos controles e gastos?

MANTEI - O Posto de Saúde do Bairro Cruzeiro trabalhava até dezembro de 2016, além do horário normal, com um plus de urgência e emergência, nas terças e quintas-feiras, das 19h às 23h. O custo desta operação para a Fundação era de R$ 238 mil por ano. A gestão analisou os atendimentos realizados e constatou que no ano passado, das 2.429 consultas, apenas nove foram emergenciais e não atendidas no local por falta de estrutura e por isso encaminhados à UPA. Nossa decisão foi a de suspender o atendimento nas duas noites citadas.

NOROESTE - Os R$ 238 mil ficam para um balanço positivo a ser anunciado no final do exercício, ou imediatamente tiveram destinação?

MANTEI - Jogamos todo o dinheiro que vinha sendo aplicado naquele local, exclusivamente na compra de medicamentos.

NOROESTE - Outro exemplo que você define como resultado de gestão:

MANTEI - A Fundação atende três programas, dentre outros, com o Ministério da Saúde, sendo o “Saúde Prisional” e “Melhor em Casa” (equipe de saúde na residência do usuário) e “Centro Especializado em Reabilitação - CER”. Até 31 de dezembro de 2016, os serviços eram terceirizados num total de transferência de R$ 849.098,76 por ano. Nós decidimos manter os programas, só que assumindo a execução dos serviços, utilizando-nos de parte da equipe do quadro e contratando mais quatro novos servidores. Esta ação de gestão rende um a economia de R$ 592.298,76 em cada ano.

NOROESTE - Mais alguma ação?

MANTEI - Otimizamos as viagens de vans e ambulâncias da Fundação, principalmente para Giruá, Passo Fundo e Porto Alegre, não concedendo mais caronas às pessoas que não estavam utilizando os serviços do SUS. Por baixo, evitamos uma despesa de R$ 99 mil nos primeiros três meses deste ano. Além da economia direta, provocou maior disponibilidade de veículos e motoristas para efetuar visitas domiciliares por parte das Equipes de Saúde da Família, com aumento em 100% de tais serviços.

NOROESTE - Sabemos que o aperfeiçoamento do Plano de Gestão mexeu com a vida funcional de dezenas, talvez centenas de servidores. De que forma eles reagiram?

MANTEI - Se permite, eu cito literalmente a posição por escrito de uma servidora do Posto de Saúde da Vila Pereira, a Marcia: “Mudou em todos os aspectos, ficou maravilhoso, prazeroso trabalhar assim”. Admito que alguns estão se adaptando, mas não abriremos mão do nosso projeto, principalmente incentivados pela grande maioria dos colaboradores e do integral apoio do prefeito Alcides Vicini.

NOROESTE - Para encerrar, voltamos à introdução desta entrevista. Há algum choque conceitual entre a gestão privada e a pública?

MANTEI - Eu, pelo menos até agora, não senti nenhum respingo de conceitos. Dedico isso à forma como estamos construindo uma nova fórmula de gestão no serviço público que envolve diretamente o servidor, na construção dos processos, dos manuais, dos indicadores, dos treinamentos e da busca incessante da transparência.

NOROESTE - Pretende ficar até quando na presidência da Fundação?

MANTEI - Quatro anos ou até quando o prefeito decidir. Quando assumi, tinha claro que meu compromisso era para durar, pelo meu empenho e de meus colaboradores, um mandato inteiro, todo ele com foco na gestão por resultados.

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