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Pois é, “povo que não tem virtude...”

Publicado em 01/02/2021 10h48 - Atualizado há um mês - de leitura

O Hino Rio-Grandense está sob fogo cruzado. Quem diria! Sua letra - “Como aurora precursora/do farol da divindade//Foi o vinte de setembro/o precursor da liberdade. Mas não basta pra ser livre/ser forte, aguerrido e bravo//Povo que não tem virtude/acaba por ser escravo”, vem sendo contestada. O hino, com letra de Francisco Pinto da Fontoura e música de Joaquim José de Mendanha, foi declarado um dos símbolos do Rio Grande do Sul pela Lei estadual nº 5.213/66 (art. 7º). O problema é com relação ao 2º verso: “Mas não basta ...” Em verdade, o debate, já antigo, ganhou nova dimensão com a posse da Câmara de Vereadores de POA, no dia 1º, quando 4 vereadoras eleitas pela 1ª vez, Karen Santos (Psol), Laura Sito (PT), Bruna Rodrigues e Daiana Santos (PCdoB), na sessão solene, se negaram cantar o hino orgulho dos gaúchos.

Desnecessário dizer que, a partir desse protesto, o tema escancarou o viés ideológico do hino, resumido em “O Hino Rio-Grandense é racista”. A bem da verdade, há pessoas que sequer conhecem o hino. Entoá-lo, nunca. No entanto, defendem a mudança na passagem em epígrafe porque alguém, com quem se identificam, disse ser preconceituoso. Em suma, o hino aguçou o viés ideológico, causando desconforto, inclusive, naqueles que, com orgulho, inúmeras vezes cantaram altissonante “Como aurora precursora ...”. Portanto, a ideia de racismo desafinou o orgulhoso gaúcho, canção que o MTG recomenda inclusive às crianças (Manual do Tradicionalista, Glauco Saraiva).

O hino gaúcho está ligado à Revolução Farroupilha. Talvez por isso o MTG veio a público negar qualquer racismo, salientando que a República Rio-Grandense previa a liberdade a todos, inclusive para os escravos. Confesso que, embora conhecendo o hino e o tendo, ainda que desafinado, entoado muitas vezes, li e reli sua estrofe contestada, assim como todo poema, sem nada discriminatório encontrar. O verso diz que um povo que não tem virtude acaba por ser escravo. Mas isso nada tem a ver com a cor da pele ou com a escravidão da época (1835/1845). Em suma, não encontrei substrato, nem como metáfora, a concluir que o negro era escravo por não ter virtude.

Se a letra do hino fizesse - por sua estrutura literal ou teleológica - apologia da escravidão, seria execrável. Nem a liberdade poética, que existe para expressar criatividade, o absolveria. No entanto, em nome dela não se pode escravizar uma canção que, no seu sentimento maior expressa o oposto: a liberdade. Se o hino dissesse que o escravo era escravo por ser desprovido de virtude, seria uma ode à intolerância. No entanto, como disse, interpreto-o como exaltação à virtude. Nos anos 1970, Amaral de Souza (deputado, depois governador) propôs suprimir a estrofe do Hino Nacional que diz “deitado eternamente em berço esplêndido” porque o Brasil já teria despertado do berço esplêndido. Não vingou. Seria suprimir expressão atávica do símbolo nacional. O mesmo diga-se em relação ao hino dos gaúchos. Conclusão: não gostar de um hino não autoriza destruir uma herança histórica.

Entretanto, o debate sobre o hino ganhou contornos ideológicos, reflexos da divisão do país nas últimas décadas. É verdade que poemas carregam pensamentos políticos e sociais. Às vezes, preconceituosos. Cabe, então, ao ouvinte separar o lado sociológico e histórico daquele que fere a dignidade humana. No caso, não vejo a dignidade humana ultrajada. Pelo contrário, vejo-a exaltada pelo Hino Rio-Grandense.

Gian Franco Moretto, professor de línguas inglesa e portuguesa, a respeito, acrescenta: “Muito se tem buscado a História para se elucidar essa questão, mas será que não devemos lembrar que nosso hino é poético?” Na pergunta do mestre, a defesa poética do hino. Para mim, defender o hino orgulho dos gaúchos, não é difícil. Tarefa difícil será exorcizar o preconceito inoculado no hino composto há mais de 180 anos.

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