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Alpargatas e traíras

Publicado em 03/01/2020 09h41 - Atualizado há 6 meses - de leitura

Estamos em plena piracema e até pescador da sanga do Inácio sabe o que isso significa. A proibição de pesca,
daquela que não escolhe o tamanho do peixe. A palavra “piracema” é indígena e vem da língua tupi. Significa “saída dos peixes”, uma combinação das palavras “pirá” (peixe) e “sema” (sair). Ou seja, a desova. Nem é preciso explicar que o período da piracema é essencial para a reprodução dos peixes e a manutenção dos estoques pesqueiros. Por isso é que o período é chamado de “defeso”, quando a lei proíbe a pesca.

O lado curioso (e científico) da piracema é que nesse período os peixes nadam contra a correnteza e esse esforço físico aumenta a produção de hormônios e causa a queima da gordura. Essa combinação provoca o aumento dos testículos dos peixes machos (que ficam cheios de sêmen). Segue-se, então, um longo processo
que resulta em novos peixes que mais tarde viajam rio abaixo. Colaborar com a preservação, pois, é de suma importância. E tudo tem a ver com não pescar e, se possível, denunciar infratores. A vida dos rios agradece.

***

Vendo o resultado da eleição da Câmara de Vereadores, com o ajuste entre MDB e PP que desconsiderou um acordo escrito anterior, lembrei de um peixe muito conhecido em nossos rios, a traíra. O termo “traíra” dá nome ao peixe, mas por alguma manobra de linguagem também é usado para indicar alguém que trapaceia, que trai, que não joga limpo. Todo mundo sabe do que se trata quando alguém diz: “O cara é um traíra”. Nunca entendi direito essa relação, deve vir do verbo trair, no pretérito-mais-que-perfeito: eu traíra, tu traíras, ele traíra, nós traíramos, vós traíreis, eles traíram.

Você já sabe o que isso representa para a reputação dos nossos políticos. É uma pena que haja essa associação entre certas pessoas não merecedoras de confiança e o saboroso peixe de água doce. O peixe não tem culpa.

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Tenho amigos que apreciam usar alpargatas (também chamadas alpercatas). Garantem que as alpargatas são confortáveis, econômicas e duráveis. Esquecem, porém, que elas são também bem democráticas, pois são usadas por homens e mulheres.

Pois dias atrás, mergulhado em leituras sobre o período de colonização do Brasil, encontrei uma história muito interessante. Quando fundou o colégio jesuíta que, mais tarde, deu origem à cidade de São Paulo, o padre José de Anchieta, sofrendo com os calçados que trouxera da Europa, decidiu modificar seus costumes.
Lembremos que isso seu deu por volta de 1550. Andar de botas naquele ambiente quente e chuvoso não era nada confortável, e não havia meias e sapatos.

Pois o padre decidiu fabricar alpargatas. Para isso, usava cipós e caragoatás bravos para fazer as fibras encordoadas que davam origem às sandálias. As plantas eram mergulhadas em líquidos durante semanas, e depois eram trabalhadas para fazer a lona e o solado. O padre Anchieta usou alpargatas pelo resto da vida, pois elas se mostraram práticas e, quando molhadas, secavam rapidamente. Mas a ideia do padre Anchieta não surgiu do nada. A alpargata é antiga e tem origem árabe. Foi muito usada por marinheiros na França e na Espanha e mais tarde introduzida no Brasil com o nome de “calçado espanhol”. Já era muito popular na Argentina e no Uruguai. Por aqui, sua produção industrial tem mais de um século. Foi em 1907 que surgiu a “Fábrica Brasileira de Alpargatas e Calçados”, aquela que até hoje é conhecida simplesmente como “Alpargatas” e que tem um catálogo de marcas muito famosas. Mas isso já é outra história.

Viu só, tchê? De agora em diante, quando calçar suas alpargatas (mesmo aquelas rotas e amassadas), lembre-se que por trás delas existe uma história. Uma história longa e, digamos, muito interessante. Pode se orgulhar.

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