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Maldito Computador!

Publicado em 20/12/2019 11h13 - Atualizado há 3 meses - de leitura

Tenho alguns amigos saudosistas que, parece, estão perdendo o contato com a realidade, tirando os pés do chão. Costumam dizer: “Não há mais respeito nem autoridade!”. E relembram a época em que filho existia para pedir a benção. “Aquilo, sim, era educação”, dizem, lembrando a palmatória e o castigo com grãos de milho no canto da sala de aula. Alguns, ainda mais saudosistas, apoiam escolas do tipo militar, com seu regime de obediência, na qual veem a solução para a falta de “autoridade”. É um engano.

Houve, mesmo, um tempo em que a autoridade dos pais envolvia um tanto de conhecimento (no sentido de que conheciam a vida), somada a um tanto de violência e sadismo (a agressão física como forma de imposição). Mas tudo isso não existe mais, senhores! E nem voltará a existir, para felicidade geral. No acelerado mundo da informação e da transformação tecnológica, nada pode ser mais atrasado (e obsoleto) que um pai que aposta em disciplina forçada e violência imaginando que assim está educando os filhos.

No passado, os pais ensinavam muitas coisas, inclusive ofícios. Hoje, os pais é que aprendem com os filhos. Afinal, são eles que conhecem os “gadgets”. Pois é, meu caro, essa palavra faz parte do vocabulário deles e você (desconfio) não conhece. A palavra não tem tradução, mas indica todo equipamento que incorpora
tecnologias (teclados, relógios, tocadores MP3, leitores de ebooks, controladores eletrônicos, etc.). Eles fazem parte da vida dos nossos filhos. E agora?

***
Você provavelmente já foi um herói para seu filho. Ótimo. Talvez continue sendo, o que é muito bom. Mas diante de um computador você é um aprendiz. E terá de se esforçar para manusear o mouse e conhecer todos aqueles ícones. E torça para que teu filho não perca a paciência: “Aqui, pai! Clique aqui!”.

***

Mas não se preocupe. A aparente “indisciplina” dos filhos atualmente tem muito a ver com um mundo em transformação, acelerado, um mundo que gera muita ansiedade. Para eles e para nós. Eles saberão respeitá-lo, mesmo com a tua (e minha também) ignorância com as tecnologias que fazem o mundo de hoje. Afinal,
o mundo já está num estágio que chamam de “pós-industrial”, e isso é difícil para todos. As mudanças são rápidas e entendê-las exige grande esforço.

Vai longe o tempo em que demonstrar autoridade era educar (não confunda com ser exigente). No século 21, confundir educação e autoridade é coisa rançosa, coisa velha. Ser obediente não significa conhecimento ou inteligência. Os mais obedientes e disciplinados, em sua maioria, são também pouco criativos. E para se sobressair no mundo de hoje o requisito básico e saber pensar e saber criar.

O que os filhos de hoje desejam são pais curiosos e amorosos. O resto eles saberão fazer melhor do que nós. O que estou querendo dizer com isso? Sejamos amorosos, porque de amor estamos sempre necessitados. E sejamos também curiosos, porque só assim vamos aprender a viver nestes tempos digitais onde somos sempre aprendizes.

Para melhorar o mundo, precisamos de rebeldes competentes, e não de conformados e obedientes (como diz o sociólogo Boaventura Souza Santos). Voltar ao passado é impossível, pois o passado foi, na verdade, uma porcaria. Não foi bonitinho. Não foi disciplinado. Foi um tempo em que o estudante era alvo de violência e não de amor. Nós é que vemos o passado de forma míope, numa espécie de saudosismo infantil. O bom mesmo é
enfrentar os desafios do nosso tempo. Entre eles, este maldito computador!

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