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Apontamentos que o tempo quase apagou

Publicado em 14/12/2020 16h37 - Atualizado há 4 meses - de leitura

Instado a escrever sobre os reflexos histórico, geográfico e sociológico da 2ª Guerra Mundial sobre alemães e italianos e seus descendentes, na Região, inicialmente entendi ser assunto para os que mais sabem: Teresa Christensen, Helga Kruger, Libino Franz, por exemplo. Mesmo assim fui a campo. Encontrei elementos para a coluna de hoje. Deixo, assim, aos experts o direito a reparos. Esclareço que sou produto da grande guerra. Por óbvio, na infância estive alheio aos horrores impostos ao mundo a partir de 1939 pelo sanguinário Adolf Hitler. Também não tive familiar ou amigo na FEB, da qual (1º apontamento) o coronel Castelo Branco é herói como chefe da Seção 6, na Itália, o mesmo que depois, já general, viria a ser o 1º presidente da fase do Regime Militar. Precariamente - é claro - tive, sobre o grande conflito, comunicação boca a boca dos meus pais, que lhes era veiculada através de um rádio, um caixão que ocupava enorme espaço na sala, movido a bateria de 10 quilos. Em verdade, duas baterias. Enquanto uma alimentava o caixão falante, a outra era recarregada em uma roda d’água de serraria a dois quilômetros da casa dos pais, levada em carriola de madeira. O mesmo carrinho de mão que levava a bateria descarregada, voltava com outra recarregada.

No Brasil, não houve batalha (2ª Guerra), mas adesão do país aos países Aliados (EUA, França, Inglaterra e União Soviética) depois de um quase noivado de Getúlio Vargas com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), o que foi trágico para imigrantes italianos e alemães e seus descendentes. Aliás, a adesão do Brasil só ocorreu em 1942, após navios mercantes brasileiros afundados por submarinos alemães. Mais tarde ouvi história de perseguições em Santa Rosa (2º apontamento), que na minha terra, Santo Ângelo, não ouvira. No começo, não entendi. Afinal, as batalhas do grande conflito se deram longe daqui. Pois bem. Italianos e alemães e descendentes (japoneses também, não na Região), sofreram perseguições de toda ordem porque seriam admiradores de Hitler e Mussolini, sendo que muitos sequer conheciam os líderes nazifascistas.

Tudo começou com o Decreto-lei 4.166, de Getúlio Vargas (3º apontamento), o qual colocou os bens de alemães, italianos e japoneses e descendentes “em garantia dos danos causados por atos de agressão aos bens do Estado e contra a vida e bens nacionais”. Bem, a partir 11/03/1942, quando baixada a norma atentatória aos direitos humanos, o governo abriu as porteiras à vingança e à malquerença. Os alcaguetes, travestidos de autoridade, em nome do governo se apresentaram. Os direitos humanos foram espezinhados. É possível que Vargas nem soubesse das atrocidades dos seus lambe-esporas, inclusive contra um patrimônio cultural: a língua trazida do além-mar. Porém, ao editar lei fascista, Vagas assumiu os ônus do seu ato de império.

 É daquele tempo, ainda, a expressão pejorativa “quinta-coluna” (4º apontamento), que designa, como é consabido, alguém que ajuda o inimigo. No caso, sua tarefa era denunciar alemães e italianos ou seus descendentes radicados no Brasil que falassem a língua de origem, muitos, no entanto, que sequer sabiam se expressar em português. Pelos meus pais, soube que famílias, entre os pais e entre os pais e os filhos, falavam baixinho pelo temor que as paredes tivessem ouvidos. Já estabelecimentos comerciais foram depredados, saqueados, e outros fecharam as portas.

Ah, quinta-coluna não é criação da era Vargas. Lembro um caso mais recente de temor com seres servis. Em 1968, Costa e Silva era presidente do Brasil e Pedro Aleixo, vice. O governo, às voltas com atos terroristas, depois de ouvir seu Conselho Político baixou o Ato Institucional nº 5 (AI 5). O vice discordou. Instado se não confiava em Costa e Silva, Pedro Aleixo replicou: “sim, confio muitíssimo, mas temo o guarda da esquina”. O guarda da esquina é o mesmo que, no Estado Novo, supostamente a serviço do chefe, infligiu represálias a supostos simpatizantes de Hitler e Mussolini.

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